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Tom Jobim - As boates naquele tempo eram conhecidas como inferninhos. Depois ganharam o nome de casas noturnas. Aconteciam coisas terríveis, um cara se suicidou no French Cancan, que ficava na Avenida Atlântica, no Posto Cinco, um camarada deu um tiro no outro, quase me matou. Eu estava tomando um uísque encostado no bar, a bala passou aqui perto do fígado, do estômago, do baço, bateu na parede, eu escutei aquele estalo, olhei e vi o sujeito com o revólver na mão. Olhei a parede, ficou aquele furo. Parede segura a bala, e a bala estava no chão, toda amassada. Aquele buraco na parede destilando aquele pó fino. O cara estava tão nervoso, ele era Procurador da República, tinha licença para andar armado. Quando puxou o revólver para dar um tiro, acho que foi para espantar. Ele não ia matar o Roger, que tinha sido da Resistência Francesa. O revólver disparou, furou a roupa do garçom que vinha com uma bandeja, deu risco nas costas do garçom assim de leve, passou por mim e bateu na parede. Ele disse para mim: "Pode tocar seu piano". Eu voltei a tocar, imagina só o que é que eu ia fazer, o cara com um revólver na mão. Foi em 50, quando eu tocava na noite para ver se conseguia pagar o aluguel. Meu padrasto completava com um conto de réis, eu morava em Copacabana num quarto e sala conjugado.

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