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Tom Jobim - Estudei harmonia com o professor Paulo Silva. Ele ainda usava aquela gravata vermelha que dá laço e cai no peito. Ficava tristíssimo quando as composições não obedeciam àquelas regras rígidas. Estudei com Alceu Bochinno, aprendi muito com Radamés Gnattali. Minha intenção era o conserto com s. Começar a consertar as coisas porque está tudo quebrado. Eu sentia uma grande admiração por essas pessoas que faziam música brasileira. Fui à casa do Villa-Lobos. Eu ouvia falar que ele era maluco. Quando escutei o Choro nº 10, eu chorei, mas de felicidade, de alegria, entende? Botava aquilo na vitrola e chorava ali na Rua Nascimento e Silva. O meu contato com esse tipo de música foi um pouco tardio. Quando fui estudar com a Lúcia Branco, que era ligada à música erudita, eu já tinha uns 17 anos. Aquelas menininhas tocavam muito mais do que eu aquelas músicas de Chopin. Quando comecei a escutar Chopin a sério, pensei, meu Deus, o que é isso? Como é que um sujeito que nasceu há mil anos já sabia de tudo que eu quero saber agora? Já sabia do ritmo, da harmonia, esse polonês-francês Frédéric Chopin, como o outro, Claude Debussy. Fui ficando extasiado com aquela beleza: Ravel, Beethoven, Bach. Comecei a tocar Bach com a professora Lúcia Branco, que tinha estudado em Paris. Fui estudar com Tomás Teran, um espanhol muito amigo do Villa-Lobos, a quem o Villa-Lobos dedicou um álbum daquelas músicas dele. Teran era um cara muito escolástico, muito clássico, mas ao mesmo tempo amigo do Villa-Lobos. O Villa-Lobos dizia: "O Brasil é uma floresta encantada onde a Europa jogou o tapete persa velho, mofado, cheio de poeira, cheio de ácaro". Eu estudava a harmonia no piano. Composição eu fui fazendo porque o Paulo Silva exigia, mas era um troço quadrado para burro. Subdominante, dominante, tônica. Quando eu saía disso, ele brigava comigo.
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