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Tom Jobim - A criação resolve em parte a angústia. Eu acho que quando você faz uma música você dissolve uma depressão. O piano funcionava como espelho na correção de meus defeitos. Procurava uma harmonia, uma coisa boa. Eu não ia fazer uma música para incentivar o suicídio, para arregimentar o ódio, nem para conduzir à droga.
Nós temos uma responsabilidade. Não posso fazer uma música que leve alguém à desgraça. A música tem que levar ao reflorestamento, ao amor aos bichos e à família. Aquele negócio que o Caetano Veloso disse sobre a Bossa Nova: "O Brasil tem que merecer a Bossa Nova". A gente tem que merecer a Bossa Nova: ter uma mulher bonita, ir à praia, talvez um dia ter um barco, navegar num barquinho azul. O conselho da Bossa Nova é de levar a pessoa à vida. Apesar de que todos nós éramos esquerdistas. Todos nós fomos presos pela ditadura militar.

Tom Jobim - Minha música é essencialmente harmônica, Sempre procurei a harmonia. Parece que eu tentei harmonizar o mundo. O que é evidentemente uma utopia. Porque os jornais, por exemplo, smpre falaram mal de mim, inventaram um monte de coisas. No entanto, minhas músicas são executadas no mundo inteiro. O mundo inteiro gosta, mas o mundo inteiro não é utópico. O que é utópico é o Brasil. O Brasil é a grande utopia. É o paraíso.

Tom Jobim - Acho que tenho uma influência maior da música americana do que do jazz, porque era a que tocava no rádio na época. Nós não tínhamos acesso ao jazz. Só os especialistas ou as pessoas muito ricas, que tinham som para ouvir jazz, como o Jorge Guinle.

Tom Jobim - Villa-Lobos dizia um negócio muito engraçado "quem compõe num instrumento deve dar parceria ao instumento". Ele tinha essa lucidez: "se você compõe num piano, deve dar parceria ao piano de 50%". Isso, com um instrumento de harmonia, como o violão, como o piano. Mais que com a flauta, que é um instrumento solista. O instrumento harmônico, para o que a gente fez na Bossa Nova, é importante. A harmonia da Bossa Nova é extremamente simples, de acordes de três sons, onde o quarto som está subentendido. Ou então está na voz do cantor. A harmonia é bem simples, só que o João Gilberto bota uns acordes ali que nunca ninguém pôs antes. A situação dos acordes é que constitui a grande novidade.

Tom Jobim - Eu comecei na gaita e no violão. Meu tio tocava aquelas músicas de Arthur Napoleão, o choro de Villa-Lobos, e eu ficava perplexo. O piano poderia até ter chegado mais cedo, mas naquele tempo eu estava muito ocupado em ir à praia, tomar sol, ouvir o canto dos pássaros. Stravinsky diz que o canto dos passarinhos ainda não é música. Não sei se concordo ou discordo dele. Música é o canto do passarinho melhorado, computadorizado, arranjado.

Tom Jobim - Tinha uns 14 anos e já não saía mais do piano. A vizinhança reclamava, mas as casas eram grandes, em centro de terreno, e eu ali batucando aquele piano na garagem. O som se espalhava muito porque as paredes eram de cimento. Koellreuter era uma alma boa e muito exigente. Me ensinou muita coisa prática, me ensinou assim por alto esse negócio de 12 tons, de não ser tonal, de não ter uma tonalidade principal e usar os doze sons do piano. Um dia, almocei com Koellreuter, na Plataforma, e mexi com ele: "Como é, você continua nos 12 tons?" Ele disse: "Claro, e você?" Bom, eu estou usando 35 agora, que são os sons da música clássica. As sete notas brancas, os setes bemóis, os sete dobrados de bemóis, os sete sustenidos, e os sete dobrados de sustenidos. Então, dá sete vezes cinco, 35 sons que você pode escrever no pentagrama. Ele só pode escrever doze, é paupérrimo. Dodecafonia já vinha de sons velhos. Antes de eu nascer já tinha dodecafonia, e nessa escola entrou todo mundo: Guerra Peixe, Cláudio Santoro, que era da escola atonalista transitória, e o Alceu Bocchino, da Rádio Nacional. Tem alguma coisa que eu gravei nos Estados Unidos, onde misturo a tonalidade com a atonalidade, como muita gente fez.

Tom Jobim - Estava desesperado com aquela vida. Fui para arquitetura, gostava muito de desenhar. Fiz o primeiro ano, mas depois aquilo tudo deixou de me interessar e eu me enfiei na música. Eu queria escrever para orquestra, achava aquilo bonito. Esses caras me auxiliaram muito, o Radamés Gnattali, o Leo Perachi, o Lírio Panicalli, que era muito ciumento dos segredos da orquestra. Ele tinha medo de que alguém roubasse alguma idéia. "Tom, a gente leva tanto tempo para aprender essas coisas.", dizia. Flauta, clarinete ou oboé. Se mudasse essa ordem já não funcionava mais. Não tem esse som. Lírio, um paulista de Guaratinguetá, era amigo de Villa-Lobos. Tem passagens muito engraçadas do Radamés com o Lírio, com o Leo Perachi. Aquilo era uma espécie de família da Rádio Nacional, que era uma espécie de TV Globo da época. Tinha o maestro Guaraná, tinha o Lindolfo Gaya, casado com a Estelinha Egg.

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