Ouça Tom JobimContatoCréditos/Copyright

| volta |

Tom Jobim - Sempre troquei os nomes das musas e ainda dava a maior confusão. Porque se você chamar a musa por outro nome, aparece um outro marido para pedir satisfação. Naturalmente, a Lígia é um punhado de Lígias, de Lídias também. Os maridos ficam sobressaltados. Inclusive a letra de "Lígia" nega qualquer ligação: "Não gosto de chuva, não gosto de sol, não vou a Ipanema, não gosto de samba, não vou ao cinema". É uma Lígia sem contato físico. É ascética, desligada, platônica completamente. "E quando você me prender nos seus braços serenos", ela está sereníssima naturalmente, "eu vou me render, mas seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol". Ele está louco de paixão, supondo que, se tivesse, teria se jogado pela janela. Supondo que de repente a musa poderia ceder às múltiplas cantadas, às canções e a tudo o mais.
Essa atitude moderna de querer saber se existiu o robe de chambre vermelho, de veludo, do Wagner, eu acho muito pertinente. Talvez o robe de chambre fosse de tafetá. Talvez fosse de veludo, no inverno. Esse negócio não tem importância. Muitas vezes, eu não boto nome de mulher nenhuma. Dorival Caymmi me contou que lá em Ilhéus, ele tinha feito sucesso com "Marina", e chegou um sujeito armado porque a mulher dele era Marina. O sujeito estava convencido de que a canção tinha sido feita para a mulher dele. E o Dorival: "Absolutamente, nem conheço". Você fica sempre devendo uma série de explicações.

Tom Jobim - Ana Luíza foi uma moça bonita que apareceu no Antonio's, num dia que estava chovendo. Ela correu para aquela varandinha do Antonio's. Era uma moça alta, grande, uma grande moça e uma moça grande. Estavam lá Chico Buarque, Carlinhos de Oliveira, uma quadrilha imensa. Chico começou a falar com aquele riso dele, aquelas palavras incríveis e depois a chuva passou e ela foi embora. E ficou o nome. Depois aconteceu que me casei com Ana e mais tarde nasceu minha filha Luíza. E eu fiz uma canção premonitória, aquela "Luíza", boa canção, canção forte. Já me perguntaram se a canção foi feita para ela. Foi feita na casa da Rua Peri, aqui embaixo, a uns 300 metros, e depois Luíza nasceu já aqui na casa da Rua Sara Vilela.

| volta |