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Tom Jobim - Na minha paixão pela música, eu gostava do Radamés Gnattali, do Lírio Panicalli. O camarada tocando o regional, o cavaquinho, a flauta e, de repente, o Radamés começa a escrever aqueles arranjos. Aquilo abriu uma avenida que não tem mais fim. Quando ouvi o Choro n° 10, do Villa-Lobos, gravado no exterior, tinha os pássaros, a floresta, tinha tudo que era o Brasil. Não era uma polca, nem um tango, era um negócio do Brasil.
Eu vim dessa seresta que se cantava lá em casa. Meu tio Marcelo e o tio João, e às vezes vinham outros caras com cavaquinho, e a gente ficava ouvindo. Eles tocavam o sarau lítero-musical. Eu ficava ouvindo e cantava. Vinha o Orestes Barbosa, tinha o choro do Casé. Passei a freqüentar o Dancing Brasil, lá no centro da cidade e vi o Radamés e o Zé Bodega tocarem o Bate-papo, do Radamés. Caí para trás que aquilo pudesse existir.
O Garoto, autor de Duas Contas, era formidável. A pessoa se dedica a esse negócio de acompanhar cantor, a vida passa e a pessoa fica nisso. Radamés ficou fazendo esse acompanhamento. Tanto que a obra séria dele ficou escondida na gaveta. Meia dúzia de concertos para orquestra ou uma dúzia para violão e orquestra. Coisas incríveis. Algumas, Laurindo de Almeida gravou nos Estados Unidos. Radamés falava que o Laurindo de Almeida foi muito bom para ele, porque divulgou esse lado erudito. Radamés dizia: "Quando não tem o negócio do rádio, o negócio da Globo, eu trabalho para mim". Ele chamava isso de trabalhar para ele. Fazia aquelas coisas lindas que só ele sabia escrever.

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