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Tom Jobim - Em 62, nos levaram para fazer o concerto no Carnegie Hall. Peguei aquele avião, eu não queria sair do Brasil, fui à força. Mário Dias Costa, cônsul do Brasil em Nova Iorque, apareceu na minha casa, eu morava na Barão da Torre, 107. Eu disse: "Não vou, isso aí é uma bagunça, eu não quero ir. O barco da Bossa Nova vai bater num rochedo e vai afundar". Dias Costa disse: "Você é o capitão do barco, você afunda com o navio". Peguei o avião no dia do concerto, um avião da Panam, que saía às oito horas da manhã, cheguei aos Estados Unidos na hora do concerto, botei aquele smoking e corri para lá. Tinha aquela turma toda, Agostinho dos Santos, Luiz Bonfá, e a turma mais propriamente dita da Bossa Nova: o Menescal, o Carlos Lyra, o João Gilberto e mais os outros. Foi o Caetano Zama, tinha aquela cantora paulista, uma loura, a Ana Lúcia. Tinha uma porção de gente.

Tom Jobim - A imprensa brasileira meteu o pau no concerto, dizendo que tinha sido um fracasso total. Eu só fui lá porque a Bossa Nova já estava bem estabelecida nos Estados Unidos. Se fosse para começar tudo, eu não teria ido. Entrar lá de emigrante, contra tudo, contra a língua, contra todos... Eu fui porque vi que o negócio do Itamarati estava baseado no sucesso das músicas. "Desafinado" já tinha passado de um milhão de discos vendidos. E o Stan Getz, um cara de altos e baixos, caprichoso, tratou da gente bem. Disse: "Adoro vocês, vocês são brasileiros, eu já comprei uma casa com o dinheiro do "Desafinado". Portanto, eu agora vou dizer uma coisa lógica, eu queria gravar esse disco com o João Gilberto". E o João dizia coisas terríveis para ele, ele dizia coisas terríveis para o João. Eu era o intérprete, o único que entendia o que eles estavam dizendo. João disse assim: "Diz a esse gringo filho da puta que..." E o Stan Getz, ouvindo aquilo, arregalava aquele olho azul, perguntava o que ele estava dizendo e eu dizia que ele estava orgulhoso, não sei o quê. E o Stan Getz, me dizia: "Não soa assim". Chegou a um ponto em que o João Gilberto saiu porta fora. Aquela neve e nós dois com aquelas roupinhas de algodão. Stan Getz a dizer que dava 15 mil dólares para gravar com o João. Nós estávamos morrendo de fome lá em Nova Iorque, quinze mil dólares para nós era muita grana. Então, eu disse: "Agora não, João. Nós entramos naquele avião, você achou que o avião ia cair, o avião não caiu. Nós estamos aqui, com essa neve caindo, nós estamos fodidos e você vai gravar com o homem". Segurei o João, ele não queria, mandei ele tomar naquele lugar.
Depois, achei aquilo tudo um absurdo, porque tudo foi virando jazz. Escreveram depois que a Bossa Nova era jazz. O barco anda de um jeito que a gente não pode prever. De repente, o João Gilberto estava fazendo show nos Estados Unidos, em todo lugar, com a Astrud, cantando em inglês. Eles iam para Massachussets, para Los Angeles, para não sei onde. E eu não ia, não. Getz falou comigo: "Mas é um pacote. Você não pode desfazer um pacote. A gente vai acontecer".
Logo em seguida, quando todo mundo resolveu voltar, nós decidimos não voltar. Eu tinha feito 36 anos, em janeiro de 63. Resolvi ficar nos EUA. Era preciso. O João sabia disso. A gente tinha passado a vida no Brasil, falando português, e depois se apresentou àquele mundo diferente, com aquele frio. E veio a neve. No final de dezembro, começou a nevar; em janeiro e fevereiro, foi aquele inverno sem fim, aquilo não acabava nunca, e a gente não podia tocar porque não tinha permissão. A imigração falou que quem tocasse ia ser deportado. A falta de dinheiro era colossal.
Gravei nessa época um disco com o pseudônimo de Tony Brazil. Foi com um pianista que tocava demais. Ele queria a batida da Bossa Nova como o Getz fez. Ficava um conforto total. O camarada improvisava aqueles acordes todos em cima de uma base rítmica da Bossa Nova. Lá ia eu tocar. Como eu tinha um contrato com outra companhia, ele me perguntou: "Que nome eu vou botar? Quero te dar crédito".

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