|
No Brasil, 90% dos partos realizados na rede privada são cesáreas, contra 15% nos Estados Unidos e na França, e de 8% a 10% na Dinamarca e Alemanha. Um índice altíssimo, especialmente considerando-se o custo da cirurgia em relação ao parto normal. Falta de orientação da gestante, medo da dor do parto? Ou, pior, comodidade do obstetra, que não quer perder muito tempo e, ainda, ganhar mais dinheiro? Por que, afinal, a brasileira prefere ter seu bebê por cesariana?
Para esclarecer tantas dúvidas, TopBaby ouviu três obstetras: o Dr. Carlos Dale, do Rio de Janeiro, o Dr. Aristodemo Pinotti, de São Paulo, e o Dr. Carlos Henrique Mascarenhas Silva, de Minas Gerais.
TopBaby O Brasil é mesmo campeão de cesarianas desnecessárias?
Dr. Carlos Dale É, sim. Uma das razões, sem dúvida, está na baixa remuneração do médico. Ganhando mal, ele precisa ter vários empregos. Assim, não lhe sobra tanto tempo para acompanhar um trabalho de parto, aumentando a indicação de cesarianas.
Dr. Pinotti Há uma verdadeira epidemia de cesáreas no Brasil, sim, por diversas razões: é um procedimento mais rápido, paga-se mais pela cirurgia do que pelo parto normal. Resultado: o médico, mal-remunerado, correndo de um emprego para o outro, não tem muito tempo disponível para esperar por um trabalho de parto. Além disso, existe uma carência de parteiras, que são extremamente úteis para este fim.
Dr. Carlos Henrique Infelizmente, as pesquisas mostram que o índice de cesarianas realizadas no Brasil é muito alto, dos maiores entre os países em desenvolvimento. Um dos motivos é a má orientação das mulheres, que acreditam que a cesariana é mais rápida e menos dolorosa que o parto normal. Acham, ainda, que a cirurgia oferece menores riscos para a criança, que não precisa passar pelo trabalho de parto.
TopBaby Como este índice poderia diminuir?
Dr. Carlos Dale Primeiro, melhorando os honorários médicos e, depois, pagando-se melhor pelo parto normal.
Dr. Pinotti É preciso esclarecer que, quando bem indicada, a cesariana pode salvar vidas. Do contrário, apenas acrescentaria riscos. Estatisticamente, a mortalidade materna e do recém-nascido é de cinco a seis vezes maior em cesáreas do que no parto normal. Algumas medidas mais imediatas poderiam ajudar, por exemplo, o INSS pagar o anestesista no parto normal, já que, muitas mulheres optam pela cesariana alegando medo da dor.
Dr. Carlos Henrique Alguma coisa já esta sendo feita pela Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) que lançou, há quatro anos, uma campanha intensa de estímulo ao parto normal, através de orientação de gestantes e médicos. Além disso, é importantíssimo que os obstetras informem às grávidas que esta é a melhor opção.
TopBaby Os planos de saúde têm responsabilidade neste record?
Dr. Carlos Dale Muita, devido à baixa remuneração médica.
Dr. Pinotti Os planos pagam tão mal ao médico que acabam acarretando estes exageros.
Dr. Carlos Henrique Talvez tenham uma parcela de culpa, a partir do momento em que não valorizam, financeiramente, o profissional que realiza o parto normal.
TopBaby Quem opta pela cesariana: o médico ou da gestante?
Dr. Carlos Dale Muitas mulheres já chegam ao consultório dispostas a fazer cesariana. Mas a opção deve ser dos dois.
Dr. Pinotti Cabe ao médico indicar o tipo de parto mais indicado. Quanto à gestante, tem o direito de aceitar ou de questionar a escolha, caso haja essa possibilidade.
Dr. Carlos Henrique Muitas vezes, a paciente já procura o médico com o objetivo claro de optar pela cesárea. Há quem, após uma boa conversa, mude de opinião. Outras persistem na idéia. Mas, convém lembrar, que há casos específicos em que a cesariana é a melhor indicação.
TopBaby Quando ela é realmente indispensável?
Dr. Carlos Dale Em qualquer situação de risco, para a mãe ou para o feto. Como o mau posicionamento da criança (de bumbum para baixo), especialmente se é o primeiro filho; em casos de pré-eclâmpsia, desproporção feto-pélvica (feto muito grande e gestante com bacia mais estreita), primeira gravidez em idade materna avançada, herpes genital no final da gestação, diabetes, etc.
Dr. Pinotti Quando há sofrimento fetal ou se o trabalho de parto se estende excessivamente, por exemplo. Cabe ao obstetra saber em que circunstâncias a cirurgia é a melhor opção.
Dr. Carlos Henrique Quando a criança não está completamente encaixada, não se encontra na posição correta e é o primeiro parto da gestante; placenta baixa, que impede a saída do bebê pelo colo uterino; peso baixo do feto (menos que 1,5kg/2kg); se a mãe tem problemas cardíacos; quando a placenta se descola do útero e, ainda, em determinadas patologias da mulher ou do bebê.
TopBaby Quais os riscos da cesárea para o bebê?
Dr. Carlos Dale Praticamente inexistentes, a não ser que a cirurgia seja realizada antes de o feto atingir sua maturidade plena. Neste caso, pode sofrer as conseqüências naturais de nascer prematuramente.
Dr. Pinotti Há o risco de disfunção respiratória. Isso porque, na cesárea, não acontece a compressão prolongada do pulmão do feto ao passar pelo canal do parto. Esta compressão possibilita que toda a secreção (líquido amniótico) contida no pulmão seja eliminada, para que o ar entre, normalmente, quando a criança nasce.
Dr. Carlos Henrique Os riscos são pequenos e estão relacionados a dificuldades de adaptação respiratória, após o nascimento. Esta situação pode ser minimizada com a assistência prestada, pelo pediatra, na sala de parto.
TopBaby Quais os prós e contras desta cirurgia para a mulher?
Dr. Carlos Dale Quando há uma indicação correta do procedimento, a maior vantagem é o risco menor para o feto. No parto normal, existe mais possibilidade de ele entrar em sofrimento ao descer pela pelve. A desvantagem é a mesma de qualquer cirurgia: o perigo de infecção.
Dr. Pinotti No parto normal, a mulher mal acaba de ter o filho, já está pronta para cuidar dele. A cesariana é uma cirurgia e, como tal, pode ocasionar sangramentos, infecções, etc.
Dr. Carlos Henrique Como ponto positivo, a retirada, mais rápida, da criança do útero materno. Pontos negativos: maior risco de infecção pós-parto, maior demora na recuperação da paciente e mais tempo de permanência no hospital.
TopBaby Marcar, com antecedência, é conveniente para o obstetra?
Dr. Carlos Dale Com toda a certeza, já que o médico tem, a cada dia, menor disponibilidade de tempo.
Dr. Pinotti Até pode ser mais conveniente, porém muito mais arriscado para o bebê e para a mãe. Na cesárea, marcada previamente, não existe a preparação do útero. Em conseqüência, há um sangramento maior.
Dr.Carlos Henrique Com a possibilidade de agendamento, sem dúvida, existe uma conveniência maior, tanto para médico, quanto para paciente. Mas, vale lembrar, que o parto normal também pode ser feito com dia marcado, através da indução.
TopBaby Depois da cesariana, pode-se fazer partos normais ?
Dr. Carlos Dale Depende. Uma mulher que teve um primeiro parto cesáreo, por causa de uma apresentação anômala, pode tentar o parto vaginal. Mas se a primeira indicação foi por falta de dilatação do colo uterino, há um grande risco de este colo não dilatar outra vez.
Dr. Pinotti Sim, mas existe sempre um perigo maior de ruptura uterina, o que faz com que as pessoas pensem que uma vez cesárea, sempre cesárea. Este, inclusive, é um dos fatores que contribuem para o aumento sempre maior do número de cesarianas em nosso país.
Dr. Carlos Henrique Pode, desde que, entre o último parto e o seguinte, exista um espaço maior que dois anos e que não haja indicação precisa para a cesariana.
TopBaby A dor do parto justifica a busca pela cirurgia?
Dr. Carlos Dale Acho que a dor é mais expressada, do que realmente sentida. Além de ser subjetiva (cada pessoa sente uma intensidade de dor diferente da outra), fica exacerbada pela ansiedade e expectativa da chegada do bebê. Hoje, com o auxílio da anestesia peridural, durante o trabalho de parto, a sensibilidade da mulher é mínima, portanto o medo da dor não justifica uma cesariana.
Dr. Pinotti Claro que não. As anestesias peridural e raquidiana tiram completamente a dor e são usadas tanto na cesariana quanto durante o trabalho de parto.
Dr. Carlos Henrique De jeito nenhum. É preciso que a paciente saiba que é possível deixar de sentir as contrações uterinas, responsáveis pela dor, no momento em que estas se tornarem desconfortáveis. A anestesia não elimina as contrações, deixando que o parto normal progrida naturalmente; apenas a mulher não sentirá dor.
TopBaby É possível controlar o medo do parto normal?
Dr. Carlos Dale Sim. Com um bom entrosamento entre a grávida e seu obstetra, que deve orientá-la sobre o que pode e o que vai acontecer. Feito dessa maneira, é grande a possibilidade de o parto transcorrer sem traumas.
Dr. Pinotti Claro. Explicando à gestante que a anestesia existe, justamente, para que ela não tenha que sentir dor. Basta que solicite ao médico.
Dr. Carlos Henrique Claro que pode. Uma orientação bem feita e um bom acompanhamento do parto, pelo médico, conseguem controlar e diminuir bastante o medo de grande parte das pacientes.
TopBaby As novas técnicas da cesariana diminuiram seus riscos?
Dr. Carlos Dale A cesariana, como técnica, praticamente não sofreu mudanças importantes. Mudaram os controles do sangramento, surgiram novas técnicas, cuidados mais eficazes contra as infecções, e, ainda, fios de sutura de melhor qualidade. Tudo isso faz com que a mulher, hoje, depois da cirurgia, se recupere mais rapidamente, podendo sair do hospital em dois ou três dias.
Dr. Pinotti A técnica da cesariana adquiriu uma característica que beira a perfeição. É uma operação bastante interessante e, quando bem feita, esteticamente muito bonita. Não aconteceram novas invenções nas últimas décadas. O risco, hoje em dia, não é menor, mas igual. Melhoraram as questões de anestesia, de transfusão, de antibiótico e, com isso, o risco diminuiu, mas a técnica da operação é a mesma.
Dr. Carlos Henrique Ao longo dos anos, a técnica cirúrgica foi aperfeiçoada, proporcionando maior rapidez e eficácia, com menor número de complicações e menor tempo de recuperação, também. As técnicas anestésicas também evoluíram, proporcionando a eliminação da dor com a manutenção da consciência, o que possibilitou à mulher aproveitar o momento do parto. Lembro, ainda, a melhor qualidade dos fios de sutura e dos medicamentos usados na cirurgia.
TopBaby Quantas cesáreas se pode fazer, sem prejudicar a saúde?
Dr. Carlos Dale O número vai depender da capacidade de cicatrização de cada mulher, levando-a uma melhor ou pior recuperação do útero. Com toda segurança, creio que de duas a três.
Dr. Pinotti Depende do tipo de cesariana. Quando se faz no segmento inferior, com a mulher já em trabalho de parto e a operação é bem-sucedida, não há maiores problemas em se realizar três, quatro ou até cinco. Entretanto, quando não se utiliza a técnica adequada, o número deve ser muito menor.
Dr. Carlos Henrique Depende da mulher. Cada caso é um caso, mas, de forma geral, o ideal é que não passe de quatro.
|