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Dr. Marcelo Zugaib

A Internet ajuda à Medicina? Quais as novidades da Obstetrícia? O pai deve participar do parto? Na Europa, há um retorno aos partos naturais; no Brasil, aumenta o número de cesarianas. Por que? Quem responde essas e outras perguntas é o Prof. Marcelo Zugaib, Titular de Obstetrícia da USP e consultor do livro 6720 Horas, Gravidez Sem Dúvida (Carnevale Editores).


TopBaby - Em geral, se diz "o obstetra fez o parto de determinada mulher". A expressão "fazer" é correta para traduzir o papel deste especialista?

Dr. Marcelo Zugaib - Não. A própria origem da palavra Obstetrícia, que provavelmente deriva do latim Obstetrix, tem uma conotação de acompanhamento da parturiente. Dessa forma, o mais correto é: o obstetra assiste ao parto. E, durante o processo, ele transmite o melhor de seus conhecimentos, no intuito de levar, à parturiente, conforto, segurança e tranqüilidade para esse momento.


TopBaby - Certa vez, o sr. declarou, em uma entrevista, que já não se fazem mais parteiros como antigamente. Por que a afirmação?

Dr. Zugaib - O aprendizado da Obstetrícia evoluiu, como todos os outros ensinamentos médicos. Nessa evolução, entretanto, existem aspectos favoráveis e desfavoráveis. Os obstetras do passado entregavam-se, incondicionalmente, ao estudo do parto e de seu mecanismo. Eram espetaculares e exímios nesta prática. Tinham pouco desenvolvimento tecnológico, porém intensa intuição e habilidades técnicas.

Atualmente, o acesso fácil às informações e tecnologia, fez um obstetra mais atento ao mundo e preocupado em prevenir e diagnosticar complicações. O seu foco saiu do convívio com a parturiente sendo desviado, principalmente pela extraordinária evolução do ultra-som e de métodos laboratoriais ligados à vida intra-uterina.


TopBaby - Qual a primeira referência que se tem de uma especialização médica em Obstetrícia? Conte um pouco sobre a evolução de sua especialidade.

Dr. Zugaib - Os primeiros relatos associando a Obstetrícia, como prática desenvolvida por médico, data de 2500 a.C. Contudo foi uma prática por muito tempo atribuída a parteiras, curiosas, curandeiras. Em 377 a.C., houve uma evolução marcante de toda a medicina e, conseqüentemente, da Obstetrícia, por meio da difusão dos pensamentos de Hipócrates na civilização grega.
Na Renascença há um ressurgimento da ciência e arte dos partos, com muitos livros publicados, na Europa, sobre o assunto. Em 1720, foi fundada na França a primeira clínica obstétrica com objetivos didáticos. No século XVI, nasceu, também, a Obstetrícia alemã, inaugurada com a Escola de Estrasburgo.

No Brasil, este estudo foi impulsionado com a chegada de D. João VI e a fundação da Escola de Cirurgia da Bahia, atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, e a Escola Anatômica, Cirúrgica e Médica do Rio de Janeiro, atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1808. A Clínica Obstétrica da Faculdade de Medicina da USP surgiu em 1917 e passou a ocupar o Hospital das Clínicas a partir da década de 30.


TopBaby - Existe, em certos países da Europa, um movimento de retorno aos partos mais naturais, feitos em casa com a presença de uma parteira e da família. O que pensa desta tendência?

Dr. Zugaib - A volta ao passado, invariavelmente, significa retrocesso. Dar as costas aos avanços conquistados pela Medicina, tais como anti-sepsia, anestesia, cuidados ao recém-nascido, em prol de "humanização" é questionável. Considero ideal aliar uma estrutura hospitalar, com todos os recursos para uma excelente assistência ao parto e ao recém-nascido ao respeito à parturiente. Ela deve poder contar com a presença de seus familiares, num ambiente o mais agradável possível. Em alguns países da Europa, após o aumento de complicações, a prática citada já está sendo questionada.


TopBaby - O que mudou de mais importante (e para melhor) desde o início de sua carreira até hoje?

Dr. Zugaib - A Medicina evoluiu bastante nas últimas décadas. Muito dessa evolução se deve ao desenvolvimento tecnológico. A Internet possibilitou uma enorme velocidade na troca de informações pelo mundo, o que incrementa o conhecimento da área médica. Mais especificamente em Obstetrícia, o desenvolvimento do ultra-som proporcionou um conhecimento muito preciso das condições do feto (crescimento, formação e vitalidade) e permitiu a ação do obstetra em inúmeras complicações ainda intra-uterinas. O desenvolvimento de medicações e técnicas de anestesia permite partos sem dor e mais humanizados.


TopBaby - Parto normal x cesariana. Por que esse boom de cesáreas no Brasil? Ganhamos ou perdemos com isto?

Dr. Zugaib - Não podemos esquecer que a operação cesariana foi um grande avanço na prática obstétrica em relação às inúmeras situações de risco para mãe e feto. É uma prática relativamente segura, dado o aperfeiçoamento das técnicas operatórias, de anti-sepsia e analgesia.
Contudo, o que existiu no Brasil foi uma proliferação dessa operação em detrimento do parto normal. E isso não atendeu aos interesses da mãe ou do feto, mas a outros tipos de interesse. O próprio médico foi, em grande parte, responsável por esse incremento.


TopBaby - Como escolher o obstetra ideal? Simpatia conta?

Dr. Zugaib - O principal laço entre o médico e seu paciente é um excelente relacionamento de confiança e respeito. A simpatia não é imprescindível, porém acaba ajudando em um relacionamento interpessoal.


TopBaby - Na era do celular e da Internet, ficou mais difícil para o obstetra ter paz e vida em família?

Dr. Zugaib - O celular e a Internet são ganhos imensuráveis na prática médica. A Internet facilita a atualização do profissional; o celular estreita a distância entre o médico e a gestante. Obviamente, tratando-se de relacionamentos pessoais, pode trazer alguns exageros, que, de uma forma geral, são irrelevantes e não chegam a afetar a vida do médico.


TopBaby - Qual o momento mais estressante de sua vida de obstetra, aquele em que quase perdeu as esperanças?

Dr. Zugaib - O obstetra, no seu dia-a-dia, trabalha com a vida de dois seres muito importantes: mãe e filho. Logo, sua condição é de alerta total sobre eles. No trabalho de parto, essa condição de alerta costuma-se intensificar. Os momentos mais estressantes, sem dúvida, são aqueles nos quais a vida de um desses dois está ameaçada, quando a decisão de um ato cirúrgico não pode demorar muito, por vezes, minutos ou segundos.


TopBaby - A participação do pai no parto complica ou ajuda? E a questão das fotos, filmagens, etc, como evitar os exageros?

Dr. Zugaib - A presença do pai no parto reforça sua importância no ciclo da vida familiar. Em termos práticos, traz segurança e conforto à parturiente e deve ser sempre estimulada. As fotos e filmagens são, também, elementos importantes no registro de uma situação de extrema felicidade para o casal. Obviamente, os abusos e exageros devem ser evitados.


TopBaby - Em matéria de Obstetrícia, como se coloca o Brasil em relação ao resto do mundo?

Dr. Zugaib - O Brasil, sem dúvida, tem uma Obstetrícia de boa qualidade, guardadas as proporções com o restante da área da Saúde. O potencial humano é excelente, porém depende de políticas adequadas das organizações competentes.



Sylvia Leal




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