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"Todos os nossos problemas têm origem no ambiente familiar. Por isso, a terapia sempre deveria incluir a família, mesmo nas questões que pareçam individuais." Assim, a psicóloga, terapeuta de família e sexóloga, Cristina Milanez Werner define a maioria dos conflitos de pacientes que chegam a seu consultório. Aqui, ela explica porquê.
TopBaby - Qual a sua formação profisisonal?
Cristina Werner - Sou psicóloga, com especialização em Terapia Familiar Sistêmica, e também sexóloga. Sou vice-presidente da Associação de Terapia de Família/RJ e Delegada Regional, no Rio, da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. Atualmente, curso o Doutorado em Saúde Mental no Instituto de Psiquiatria da UFRJ. Estudo a influência do álcool e das drogas na violência doméstica, nos maus-tratos a crianças e adolescentes, principalmente o abuso sexual.
TopBaby - Por que você se especializou em terapia familiar?
Cristina Werner - Quando comecei a trabalhar com crianças e adolescentes, percebi que os sintomas no bebê (dificuldade para dormir, excesso de cólicas, agitação, irritabilidade) tinham origem em problemas conjugais, que muitos casais passam aos filhos no primeiro ano de vida. Decidi, então, me aprimorar para atender, também, a estes pais.
TopBaby - Em que casos é aconselhável procurar uma terapia de família?
Cristina Werner - Acredito que todos os nossos problemas têm origem na família; por isso, recomendo que se procure sempre esse tipo de terapia, mesmo quando a questão pareça individual. Um conflito no presente é resultado de comportamentos familiares aprendidos no passado. Por isso mesmo, todas as terapias deveriam incluir sempre a família.
TopBaby - A maioria das pessoas que busca a terapia de casal está prestes a se separar?
Cristina Werner - A maioria sim. E vem à terapia procurando uma aliada para salvar o casamento, não para sair dele. Já aquele que é trazido (o companheiro ou a companheira) vem porque quer se separar logo, trabalhar a aceitação do outro e ficar em paz, com menos problemas. Na verdade, quando um deles já chega decidido a largar tudo, fica difícil reverter a situação.
Costumo dizer que não caso e nem separo ninguém; quem faz isso são os próprios cônjuges. Se um casal vai ao consultório com essas questões, explico que aquele modelo de casamento acabou: ou eles se separam ou "recasam" com a mesma pessoa, mas em outras bases. Esse recomeço da relação só vale a pena se for bom para ambos.
TopBaby - Mas, quais são essas novas bases?
Cristina Werner - Quando casamos, assinamos um contrato civil e, na maioria dos casos, um outro religioso. Mas há um terceiro contrato, mais problemático, não explicitado, que trata de expectativas afetivas, sexuais e sociais. Porém, ninguém fala para o outro o que espera dele.
Em geral, a mulher quer um marido romântico, compreensivo na cama, companheiro para atividades familiares e religiosas. Já o homem, além de não interagir muito com a família dela, cria expectativas de que sua parceira será sempre atraente, vaidosa, sexualmente ativa e disposta a sair quando ele tiver vontade. Quanto ao sexo, vai procurá-la, com muita freqüência, mesmo que ela não esteja interessada todas essas vezes.
Com a chegada dos filhos, se ela fica mais gordinha e descuidada, prefere um simples cineminha a uma noitada, perde um pouco o interesse sexual, começam os desconfortos e o inferno conjugal. Em grande parte dos casos, um não sabe o que o outro quer e isso aparece na terapia, que ajuda o casal a entender suas expectativas.
TopBaby - O que muda, piora ou melhora com a chegada de um filho?
Cristina Werner - Simplesmente tudo. Não adianta acreditar que a criança vai salvar um casamento, por exemplo. Dados estatísticos do IBGE mostram que 30% dos brasileiros se separam antes do primeiro filho completar um ano de vida. "Se o casal está bem, a família se mantém". Esta é uma de minhas frases prediletas. Em um casamento feliz, a criança consolida a união. Mas em um relacionamento ruim, o marido ou a mulher irão transferir toda a sua paixão para o novo membro da família, altamente sedutor e carismático.
Pesquisas mostraram que, ao se apresentar uma foto de um neném, qualquer pessoa fica enternecida, acha uma gracinha e fala meio tatibitate. Mas, além de pai e mãe, somos marido e mulher, macho e fêmea. Antes do filho, vem o casal. Se o casal está seguro, a manutenção da família está assegurada também.
TopBaby - Existe amizade após o divórcio?
Cristina Werner - Não existe separação sem brigas. Se elas não acontecem na hora, vão aparecer no futuro. A história do "seremos bons amigos" é blefe. Todo divórcio traz ônus e bônus. Infelizmente, o divórcio legal e o divórcio emocional não seguem o mesmo ritmo. Há casais que deixam de fazer sexo, não dividem a mesma cama ou o mesmo quarto, não conversam, não se amam, mas estão legalmente casados. E outros, que se divorciaram, mas ela continua cuidando da casa dele e ele ainda troca a lâmpada na casa dela. Ou seja, não conseguiram separar o cotidiano.
Em um divórcio, só os laços da maternidade e da paternidade devem sobreviver. Não sou contra a tentativa de amizade entre ex-cônjuges. Mas, em 20 anos de prática clínica, percebi que isso é muito difícil, embora não impossível. Quando vemos um ex-casal muito amigo, em geral, apenas o divórcio legal aconteceu, o emocional não. Eles podem estar mais casados do que nunca.
TopBaby - Quem procura mais a terapia: o homem ou a mulher?
Cristina Werner - Na terapia de casal, busca ajuda quem está sofrendo mais. No caso de um problema com os filhos, em 100% dos casos, é a mãe quem pede socorro. Já entre as crianças, na minha clínica, 80% são meninos e apenas 20% meninas. Acredito que os meninos vêm em maior número porque são mais ligados à mãe (enquanto as meninas, ao pai) e a mulher, tende a adoecer mais e ter mais depressão na vida adulta. O filho homem acaba sofrendo o reflexo desta situação, mesmo sem saber o motivo exato.
As crianças também chegam ao consultório em conseqüência de uma educação altamente permissiva que recebem. Sem limites, elas extrapolam. Hoje se fala muito em Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade e Impulsividade. No entanto, acredito que antes de ser neurológica, a causa é educacional. Costumo dizer que não é o filho que é hiperativo, mas os pais que são "hipoativados". Ou seja, eles perderam a autoria e autonomia no gerenciamento da educação de seus filhos.
Na adolescência, o número de meninos e meninas se equilibra. Eles, por problemas de comportamento, como agressões e uso de álcool e drogas. Elas, por conta de anorexia, bulimia, obesidade e retraimento social.
TopBaby - Qual o seu foco maior no atendimento?
Cristina Werner - Casais e famílias. Nessa última, gosto de contar com a "co-terapia" das crianças, que muitas vezes falam, de primeira, o que os pais demoram a contar. Por exemplo, o menino diz que bate nos coleguinhas porque o pai faz o mesmo com a mãe. Também acho interessante trabalhar com avós, que são a memória viva da família.
TopBaby - Qual o intervalo ideal entre uma sessão e outra? Depende do caso?
Cristina Werner - Nunca atendi um paciente duas vezes na mesma semana; não é produtivo. Indico intervalos semanais; para casais e famílias, quinzenais. Precisa haver um tempo para a elaboração do que se compartilha nas sessões.
TopBaby - Existe um prazo para o final da terapia ou pode se estender por alguns anos?
Cristina Werner - Meu limite são dois anos. As pessoas não podem esperar demais. A terapia precisa focar o problema, sem aquela história do paciente deitar no divã, falar e o profissional só ouvir, sem interagir. O terapeuta não deve ter pudor em tocar nas feridas, nem fingir que não vê o problema. Não gosto muito de ficar buscando "os porquês", que são causa, passado. Prefiro o "para que", finalidade, que nos ajuda a olhar para o futuro. Fico realizada quando a pessoa, ao receber a alta, já esteja conseguindo se enxergar sob um novo ponto-de-vista e perceber as várias faces de cada situação.
TopBaby - Existe uma idade mais adequada para a criança começar a terapia?
Cristina Werner - A partir dos três anos. Mas existem bebês com depressão, que se mostram apáticos e pouco interativos. Nesses casos, faço um trabalho com a mãe, que pode estar sofrendo de depressão pós-parto, por exemplo.
TopBaby - Que sinais mostram que a criança precisa de tratamento?
Cristina Werner - O comportamento de uma criança é muito definido; se muda de repente é porque algo aconteceu. Ela comia pouco, passa a exagerar; dormia bem, fica com o sono agitado. Algumas voltam a fazer xixi na cama, sofrem de diarréia freqüentemente ou desenvolvem medos inexplicáveis. Na escolinha, começam a morder ou bater nas outras crianças. Ou choram por qualquer coisa, ficam emburrados, não participam das atividades. Tudo são indícios de alguma mudança que é preciso investigar. Na criança, o processo de recomposição é mais ágil. Da mesma forma que apresenta o sintoma mais rapidamente e "cicatriza", emocionalmente, também mais rapidamente.
TopBaby - O que torna uma criança "impossível"? Em que os pais influenciam?
Cristina Werner - Hoje se fala tanto em criança hiperativa, mas, em muitos casos, o diagnóstico correto seria criança bem dotada (o antigo superdotado), inteligente ou esperta demais. Há, também, aquelas mal-educadas, filhas de pais extremamente complacentes. Muitas vezes, a mãe se culpa por trabalhar fora. Quando chega em casa, à noite, não quer brigar e deixa o filho fazer o que quer.
Educar dá trabalho. É mais fácil não limitar, mesmo que depois as conseqüências sejam piores. Existe, ainda, a responsabilidade da própria Psicologia. Primeiro, ao dizer que não importa a quantidade, mas sim a qualidade do tempo que os pais passam com os filhos. Isso não é verdade. Eles precisam estar mais horas juntos sim, para participar, saber o que acontece.
Além disso, alguns psicólogos defendem que não se deve dizer "não" aos filhos, para evitar frustrações e traumas. Então, os pais ficaram cheios de pudores. É preciso resgatar a autoridade, mas com afeto; quem ama, cuida. É responsabilidade civil, moral e religiosa zelar pelos filhos. Tanto o "sim", quanto o "não" têm que soar com firmeza. O "vou pensar" deve ser praticado. Mas nada de "talvez", que cria dúvidas e insegurança, que não auxiliam em nada na educação.
TopBaby - A palmada ajuda?
Cristina Werner - Não. Bater gera raiva. Colocar de castigo é mais eficaz. Os pais devem conjugar mais vezes o verbo perder e usar a supressão do prazer. Por exemplo, "se você não fizer o dever agora, vai perder a festinha, o brinquedo, o parque". Isso funciona mais que uma palmada.
Porém, quando um adolescente xinga, humilha ou agride fisicamente os pais, aí sim, precisa de um solavanco, de um segurar firme pelo braço para ele saber quem manda na casa. Sou radicalmente contra agressões físicas e verbais em casa. Principalmente as dos filhos com os pais. Isto é aberração total, inversão de valores e de papéis; é inaceitável.
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