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Evaldo Mocarzel

Do Luto à Luta tem estréia prevista para outubro. Premiadíssimo em vários festivais, o filme mostra que o portador da Síndrome de Down pode trabalhar, dirigir, namorar, levar uma vida normal. Seu autor e diretor, o cineasta Eduardo Mocarzel, é o pai de Joana, sete anos, que interpreta a Clara, em Páginas da Vida, e inspirou o documentário.  

  Em conversa com TopBaby, ele fala sobre seu trabalho, a descoberta da Síndrome, quando a filha nasceu, o dia-a-dia de Joana e a luta incansável para derrubar o preconceito em relação à anomalia e a seus portadores.


TopBaby – Como surgiu a oportunidade da Joana entrar na novela?
Evaldo Mocarzel – Ela foi chamada para um teste, quando estávamos de férias no Rio de Janeiro. Na verdade, meu filme Do Luto à Luta teve uma repercussão muito grande nos festivais e foi premiado em Gramado. O Jayme Monjardim, diretor de Páginas da Vida, era um dos jurados de lá.   

  Depois, durante o trabalho de pesquisa para a sinopse da novela, o autor, Manoel Carlos, me pediu uma cópia do documentário, que ele queria assistir. Mandei e chegou uma nova solicitação, desta vez para dar aos pesquisadores e uma terceira para alguns atores. Mas não pensei que fossem chamar a Joana.


TopBaby – Você aprovou o convite?
Evaldo Mocarzel – Eu relutei muito e pedi à Letícia, minha mulher, que declinasse, delicadamente. Nós moramos em São Paulo, as gravações são no Projac, no Rio de Janeiro; eu não achava uma boa idéia. Mas eles insistiram bastante, explicaram que seria uma recreação filmada e não um teste. Então, a Letícia acabou levando a Joana. Depois de dois meses, a produção nos ligou, dizendo que ela havia sido aprovada. Mandaram o contrato para eu assinar, porém, mesmo assim, fiquei inseguro.


TopBaby – E como resolveu esse impasse?
Evaldo Mocarzel – Foi uma decisão de todos. Consultei o geneticista, a terapeuta ocupacional, a fonoaudióloga e a fisioterapeuta, além da minha mãe e minha sogra. Todos concordaram que a novela serviria de estímulo para a Joana, que seria ótimo. Então, a Letícia foi ao Projac e passou um tempo lá com a nossa filha. Quando voltaram para São Paulo, eu perguntei: Filha, você quer fazer a novela? Ela respondeu: Pai, eu vou! Foi a palavra final.


TopBaby - Ela já havia demonstrado algum interesse em se tornar atriz?
Evaldo Mocarzel – Bem, ela participou de Do Luto à Luta. Além disso, meus filhos são cinéfilos mesmo, assistem a muitos filmes, vão sempre ao cinema. Eles têm uma relação forte com imagem.


TopBaby - Como ela está encarando o trabalho?
Evaldo Mocarzel – Ela gosta, ficou estimulada. Tem consciência que trabalha na novela Páginas da Vida, que sua personagem se chama Clara. E recebe elogios pela espontaneidade.


TopBaby - Sua rotina foi muito alterada com as gravações?
Evaldo Mocarzel – Minha mulher e eu temos a Casa Azul Produções; Letícia é produtora. Então, combinamos que as gravações aconteceriam dois dias por semana. Fica mais fácil assim. Ela viaja para o Rio com a Joana e depois voltam. É lógico que tumultua um pouco os horários, mas esse estímulo é muito bom. Nos outros dias, tudo normal. Joana vai à escola junto com os irmãos, a Laura, de dez anos, e o Matheus, de quatro, no turno da tarde. Pela manhã, tem sessões com a fonoaudióloga e a fisioterapeuta.


TopBaby - Como é o relacionamento dela com os outros atores? E com o diretor Jayme Monjardim?
Evaldo Mocarzel – Ela teve uma empatia muito grande com todos, especialmente com a Regina Duarte e o Jayme Monjardim, que parece ser uma pessoa muito delicada. O entrosamento deles foi total. Joana o chama de Tio Jayme, ele a levou no aniversário do filho; enfim, se dão bem.


TopBaby - Como você acha a personagem Clara pode ajudar a diminuir o preconceito em relação à síndrome e estimular os portadores a fazer trabalhos como este?
Evaldo Mocarzel – Acredito que a novela vá semear uma nova visão sobre a Síndrome de Down e ajudar a contaminar o público a acabar com o preconceito. O Ariel Goldenberg, por exemplo, que aparece em Do Luto à Luta, é casado, trabalha e ainda fez uma participação em um episódio do seriado Carga Pesada.


TopBaby - Você só descobriu que a Joana tinha a Síndrome quando ela nasceu?
Evaldo Mocarzel – Sim, foi uma surpresa. Com cinco meses de gestação, um exame revelou que havia um descompasso da pulsação umbilical; somente isso. Mas o Doppler deu um ótimo resultado e não chegamos a fazer a amniocentese. Depois do parto, é que o médico veio me contar, com muita delicadeza, por sinal. Diferentemente de alguns que dizem coisas horríveis, como seu filho é mongolóide, por exemplo.


TopBaby - Como você reagiu?
Evaldo Mocarzel – Costumo dizer que é como se um edifício de 60 andares tivesse desabado na minha cabeça. Com o tempo, vi que eram 40 andares de preconceito, 19 de desinformação e somente um do problema em si. Mas, assim que a Joana nasceu, a Helena Werneck, mãe da Paulinha Werneck, portadora da Síndrome que estrelou a campanha Ser diferente é normal, mostrou-se muito solidária. Como temos uma amiga em comum, a Helena foi se encontrar comigo e me deu uma verdadeira aula sobre Síndrome de Down. Essa aula, inclusive, virou a gênese do roteiro de Do Luto à Luta. Aliás, é ela quem faz a consultoria específica para a novela do Manoel Carlos.


TopBaby - Com a sua experiência no tema, você pode arriscar e dizer quem rejeita mais, se é o pai ou a mãe?
Evaldo Mocarzel – Durante o documentário percebi que, em geral, os pais rejeitam mais do que as mães. A mulher leva nove meses gerando o bebê. O homem, não. No meu caso, por exemplo, a Letícia reagiu de uma maneira bem tranqüila. Contei a ela aos poucos. Mas, algumas vezes, a rejeição vem da mãe e o pai precisa segurar as pontas.


TopBaby - Você já disse que Do Luto à Luta é o filme que gostaria de ter assistido quando a Joana nasceu. Qual o conselho a uma grávida ou aos pais que acabaram de ter um filho com Síndrome de Down?
Evaldo Mocarzel – Em primeiro lugar, se informem. Depois, estimulem a criança e levem uma vida normal. É um problema, mas com muitas luzes no fim do túnel. Tanto que chega um momento em que os pais de uma criança especial percebem que ela é um presente, pela sua lição, por tudo o que vão aprender e superar juntos. Além disso, também aconselho que assistam ao meu documentário para entenderem melhor sobre o assunto.


TopBaby - Algum projeto novo em andamento?
Evaldo Mocarzel – Estou trabalhando agora em um documentário sobre a periferia de São Paulo, que vai se chamar Jardim Ângela.




Danielle Mora




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