|
Na pracinha, brincando com o bebê, ninguém saberia distinguir se ele é o papai ou o vovô. Nem pelos fios grisalhos. Há boas razões para isso: de um lado os casais estão deixando a gravidez para mais tarde; de outro, muitos homens se casam duas, três e até mais vezes, sendo pais depois dos 50, 55 anos. Alguns chegam a ter netos mais velhos que os próprios filhos.
Dupla função
Da parte dos adolescentes, houve muitas mudanças também. Eles, hoje, começam a vida sexual mais cedo, aumentando os riscos de uma gestação precoce, por mais que os pais e a própria mídia insistam na importância do uso de preservativos. A chegada inesperada de um bebê altera toda a estrutura familiar. De uma hora para a outra e sem serem consultados, os avós se vêem responsáveis por
ajudar a criar o neto, em sua casa. O que significa assumir a educação e o sustento da criança, justamente quando começavam a usufruir a liberdade de já terem os filhos crescidos e (quase) independentes.
Grandes amigos
A maioria dos vovôs, porém, não precisa exercer esta paternidade forçada. Assim, curtem muito ter um tempo especial para os netos. Cheio de energia e disposição, este avô quarentão é o companheiro perfeito para jogar bola, correr atrás do velocípede, passear no parquinho, levar para a praia, piscina, tudo. Não tem nenhum problema, também, em brincar de boneca ou de casinha, com a neta. Ao contrário, acha divertidíssimo. Rola pelo chão, enquanto o bebê engatinha, e apóia sua mãozinha, quando ele ensaia os primeiros passos.
Nada é motivo de aborrecimento: o neném é pura diversão. Assim como o vovô. Juntos, vivem momentos deliciosos e inesquecíveis para ambos. Qual criança não gosta de dormir na casa dos avós, de passar um final de semana com eles, sem papai e mamãe por perto?
Tal filho, tal neto
Nas famílias em que o homem se casa mais de uma vez, não é raro ele ter filhos com pouca diferença de idade dos netos, às vezes até para menos. Os papéis de cada um se confundem neste novo contexto. Não existe tio, tia; todos são crianças, brincam juntos, brigam, fazem as pazes, encontram um modo próprio de se relacionar e de nomear parentescos entre si.
O jovem vovô, agora, também, um papai maduro, vai adorar reunir filhos e netos em casa, sair com todos para um programa divertido, viajar de férias com a turma. A vida profissional está mais estabilizada e ele, mais disponível para curtir a família. Bom para todo mundo.
|
Palavra de avô
Felicidade, sem aflição
Quando chegou a noticia de que eu ia ser avô, tive dois sentimentos bem claros: uma felicidade enorme e a preocupação quanto ao criar um neto. Meu filho era muito jovem na época, tinha acabado de entrar na Universidade. No entanto, o fato era irreversível: eu seria avô!
Curti a espera da chegada do meu neto com quase a mesma ansiedade com que esperei meu próprio filho nascer. E, finalmente, ele nasceu! Menino lindo, normalzinho. Nesse momento, sim, começou a se desenvolver um sentimento diferente do que temos em relação ao próprio filho: a preocupação se desfez; permanece a felicidade de ver aquela criança crescendo.
Como não é filho, há um distanciamento operacional. Trocar as fraldas, ter paciência na dor de barriga, na choradeira são atribuições dos pais. Como avós, brincamos! Engatinhamos junto, fazemos cabana, bagunça, permitimos tudo o que os pais não permitem, para não criar maus hábitos. É só mais felicidade, sem aflição. Luan, meu neto, está com quase quatro anos. Carinhoso, conversa com a gente, é uma das minhas maiores alegrias.
Fernando Verani, 52 anos, antropólogo
Um sentimento desmesurado
Fui pai muito cedo, aos 23 anos. Tenho três filhos e uma neta, Júlia, de quatro anos, da minha filha do meio, Ana Lúcia. Sou médico e, por causa disso, tive pouco tempo para acompanhar o crescimento das crianças. Não tinha horário de chegar em casa, trabalhava sábado, domingo, feriado, mas procurei ser o mais presente possível.
A grande vantagem e conseqüência de ter sido pai ainda jovem foi poder ser avô aos 48 anos. É um momento de resgate, de reaproximação com os filhos que, à medida que chegam à adolescência, se afastam de casa. Quando se transformam em pais, retornam, como se fechassem um ciclo, recomeçando uma nova geração.
É muito gostoso estar com minha neta; exige uma certa energia, mas eu adoro. Saímos muito juntos, ela quer sempre dormir aqui em casa. Certamente que faço mais as suas vontades do que fazia as dos filhos, mas coloco alguns limites. Como disse Affonso Romano de SantAnna, em uma crônica, o avô é desmesurado. Eu concordo. Além de não termos a obrigação de educar, sabemos que, com os netos, vivemos, talvez, nossa última oportunidade de acompanhar o crescimento de uma criança.
Paulo Roberto Lopes, 52 anos, pediatra
Avô, o grande pai
Avô, palavrinha simples em português. Talvez por isso o avô não tenha a importância que tem em outras culturas. Veja o francês: chama de
grand-père o mesmo que os ingleses, grandfather, o grande pai. Parece até coisa de índio. Por falar nisto, os nossos índios chamam de pai do meu pai; olha que importante. O neto eles chamam de filho do filho ou da filha (no meu caso) dando aquela idéia de seqüência de DNA. E o que é ser avô? É o momento sublime de co-responsabilidade na educação, conduta, cuidado, é passar o bastão do comando. Interferir, sem ferir, orientar, sem conduzir.
Ser avô antes, durante ou após os 50 é uma bênção, uma dádiva da natureza. Queria multiplicar isso de avô dez mil vezes, de dez mil netos. É a alternância da maturação, da evolução do ser humano. É, antes de tudo, ser o avô, e não o pai de seu neto, pois este papel deve ser cumprido pelos pais. Aí a sutil relação entre todas as outras, pois o pai fala e manda mais. Como o avô, deve falar menos, calar mais e observar melhor, pois assim evita o conflito educacional.
Pela filha que tenho, pelo neto que tenho, não sei porque não fui antes. Que maravilha ser
avô (fui aos 49). Devia ter sido antes.
Helder Carvalho, 56 anos, professor de yoga, acupuntura e iridólogo
|
|
|