Entrevista com Os Tribalistas, por Nelson Motta:

Nelson - Aceitei com prazer o convite de vocês para uma conversa sobre ''Tribalistas'', primeiro porque me encantei com o que ouvi e depois pela forma como foi produzido. Desta forma caseira, sem pressa e sem pressão. E isso se reflete no resultado musical. Essa nossa conversa aqui é para informar com sinceridade tudo sobre o disco. Como é que começou isso tudo? Quem ligou para quem? Como surgiu a idéia?

Marisa - Não surgiu de cara como idéia de um disco. Eu fui gravar uma participação no disco que o Arnaldo estava fazendo, produzido pelo Brown, no ano passado. A gente ficou junto uma semana e, como sempre acontece quando a gente se encontra, fizemos um monte de músicas. E a gente não pensava em gravar um disco juntos naquele momento.

Nelson - Como já fizeram outras vezes...

Marisa - Como nunca tínhamos feito com tanta intensidade. A gente mora cada um numa cidade então é muito raro os três se encontrarem fisicamente para compor. A gente tinha feito isso uma vez, que eu me lembre, que foi o ''Água também é mar'' que a gente fez junto.

Arnaldo - Não só o ''Água também é mar'', mas umas três ou quatro músicas que a gente fez aqui na sua casa.

Brown -Não só o Brasil, mas o mundo inteiro parece se encaminhar a compreender o seu interior como um todo, não só o seu interior como cidade, não só o seu arredor, mas interior como um lugar onde você realmente habita e os tribalistas trazem isso; trazem na canção porque traz essa fertilidade, como quem planta milhos…

Nelson - É uma música urbana com muita informação rural.

Brown -O fato de existir um conjunto entre os tribalistas, que é a afinação total e química, traz para o pensamento de equipe a contribuição de um com outro... termina fazendo um novo artífice que não são os três e os três não fariam isso separadamente, o que fosse cada um. Isso é uma soma dos três, que é um... que é o tribalista. Mas Marisa foi além. Ela foi além porque terminou se liderando também, ela como produtora. Ela terminou se liderando, terminou também fazendo uma coisa que talvez seja difícil pela total personalidade do que é o trabalho dela ou do que seja o trabalho dos três aqui. Aceitamos Marisa como a coordenadora de tudo, como a produtora de todas as coisas. Então a ouvimos muito e o fato de ela ter nos acolhido em sua casa... Então essa coisa do que eu falo do interior vinha nos biscoitos, é um sabor, vinha no pão de queijo, nos bolos, na comida, vinha no contato com o cão...

Nelson - É um disco... literalmente caseiro.

Arnaldo - A gente nunca tinha se reunido para compor um volume tão grande de canções em poucos dias, como aconteceu em Salvador. Agora, de alguma forma, há muitos anos já que a gente vem compondo coisas, ou eu e Carlinhos, ou eu e Marisa, ou Carlinhos e Marisa, ou nós três juntos. Isso vem acontecendo com uma certa freqüência, apesar da gente viver em cidades diferentes. E eu acho que existe aí uma questão de afinidade de linguagem mesmo, que é rara. Eu componho com muita gente, tenho muitos parceiros. E com ninguém é tão fluente. Na verdade só com os Titãs, na época em que eu estava na banda, eu acho que era assim fácil... como ainda é compor com eles hoje em dia, apesar de muito menos freqüente.