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Entrevista com Os Tribalistas, por Nelson Motta (parte 2):
Nelson - Nesse momento aí, quando vocês se encontraram e começaram a compor na Bahia, quais foram as primeiras músicas?
Marisa - A gente não se encontrou para compor um disco. Eu fui gravar com o Arnaldo, aí sabia que ia ficar uns dias com ele, busquei umas coisas aqui, ele tinha umas coisas pensadas lá, e naturalmente quando a gente se encontra, os três juntos, essas músicas começaram a ser feitas, a serem concluídas.
Nelson - Tem algum método, ou cada uma é de um jeito?
Arnaldo - Às vezes a gente parte de uma melodia que alguém já traz, um dos três, às vezes um pedaço de letra, e às vezes começa a fazer assim do nada mesmo.
Marisa - Às vezes uma coisa que eu e o Brown tínhamos começado, a gente termina com o Arnaldo, às vezes uma coisa que eu trouxe antiga, às vezes uma coisa que eles tinham começado e que eu faço algum detalhe. A gente quando viu tinha concluído em uma semana, quase, sei lá, 18, 20 músicas. Algumas inacabadas, algumas que a gente deixou de fora, e outras que a gente ficou cantando a semana inteira, toda noite, uma atrás da outra e cada noite a gente fazia mais duas e cantava as de ontem... No final a gente tinha essas músicas.
Arnaldo - Tinha dias que passava a noite. Um dia clareando, na casa do Brown, a gente fez ''Lá de Longe''.
Brown - É bem dia clareando. Mas aconteceu... todos os detalhes, chuvas e pratas e tudo que teve. Chuva nas piaçabas com beira-mar. A presença da natureza foi uma coisa muito gentil também a nosso favor. Acho que esse trio tem uma coisa de percepção que está nos três, há nele vários símbolos, como o triângulo Rio, São Paulo, Bahia…
Marisa - Engraçado, eu via os Titãs compondo assim quando eu convivia com eles. Saíam pra estrada, faziam duas músicas por dia dentro do ônibus.
Arnaldo - Com muita facilidade. Agora, com o Brown e a Marisa, enquanto a gente foi compondo, chegou uma hora que tinha tanta música que a gente falou ... a gente tem que gravar isso!
Marisa - Isso não era um projeto, era um sonho, um desejo para cada um de nós. Quando sai da Bahia tínhamos esse repertório que podia ser gravado por nós três juntos, e podia também não ser, e não tínhamos prazo, não tínhamos data, não tínhamos nada acertado. Era assim, Arnaldo ia lançar um disco, o Brown estava fazendo o dele ... eu estava terminando minha turnê. Era assim, vamos ver se mais pra frente, uma hora a gente se encontra e grava junto … seria lindo…
Arnaldo - É, a gente não compôs para um projeto de um disco. O projeto aconteceu.
Marisa - E a gente ficou um ano lapidando, germinando assim a idéia. Gravamos exatamente um ano depois daquela semana que eu passei na Bahia.
Arnaldo - Na verdade a gente saiu com uma questão assim, o que fazer com esse repertório, pode ser que a gente venha a fazer esse disco ou não. Não era uma coisa muito certa.
Nelson - E qual o momento da decisão de fazer?
Marisa - O momento foi de repente porque como o repertório estava pronto para ser gravado, porque eu acho que o repertório é como roteiro para cinema, é onde você vai estruturar todo o resto. E esse repertório estava pronto, a gente tinha de sobra. Aí a gente decidiu e uma semana ou duas depois entramos no estúdio e gravamos. Esse disco foi feito com dois dias de ensaio e treze dias de gravação.
Nelson - E desde o início teve esse conceito de que seria um disco praticamente acústico, quase sem baixo, com essa sonoridade bem diferentona dos padrões do pop atual?
Marisa - O conceito foi discutido entre a gente mais baseado na experiência prévia que a gente tinha e nas coisas que eu acho que eram mais bem-sucedidas que a gente tinha feito, as coisas mais gestuais, feitas num gesto, e que são as músicas que eu gravei com o Brown, o Magamalabares, Arrepio, ele veio pro estúdio em Nova York e a gente gravou cada música em um dia.
Arnaldo - Tudo começou a partir dos violões, os arranjos surgiram da gente tocando e cantando as canções ali na hora da composição. E a gente pensava, já tá legal assim. Não é muito longe disso que tem que ser o disco. Então foi isso que orientou a criação dos arranjos, a gente deixou que eles brotassem a partir do princípio das composições, que eram as vozes e os violões.
Nelson - Não são músicos profissionais, músicos acompanhantes, são vocês mesmos, compositores tocando, o que é muito diferente, né?
Marisa - E o Cézar Mendes e o Dadi.
Nelson - Estavam desde o primeiro momento?
Marisa - Não, o Dadi é um musico maravilhoso e meu vizinho, mora do outro lado da rua, foi só chamar.
Arnaldo - César também participou do meu disco. O Cézar e o Dadi também compõem, também fazem canções, também são parceiros nossos.
Marisa - O Cézar tem músicas que eu tinha levado aqui do Rio, que eu tinha feito com ele, que a gente botou letra lá e colocamos duas músicas dele no disco. Cézar é amigo em comum de todos nós, assim como o Dadi, eles vinham muito aqui durante esse ano, duas, três vezes por semana, e a gente tocava esse repertório. Então todo mundo já conhecia as harmonias, as levadas, todo mundo já tinha uma posição definida dentro de cada música.
Nelson - E o Dadi, hein? É engraçado porque todo mundo o conhece como um baixista e a participação dele no disco ... violão, guitarra, bandolim, pianos maravilhosos, um órgão Hammond lindo. Eu conheço ele há trinta anos, nunca imaginei. Será que ele mesmo tocou esse piano? (risos)
Marisa - A mãe dele era professora de piano. E aqui em casa, ele vem muito, a gente toca muito e ele nunca toca baixo. Eu acho que quando ele pega o baixo ele vira um músico profissional. E aqui em casa ele não é um músico profissional, ele é da tribo.
Arnaldo - Mesmo nas poucas músicas que tem baixo ele não tocou, foi o Brown.
Marisa - O Dadi toca uma guitarra linda, um violão lindo. E a gente sempre faz a cabeça dele para ele gravar o disco dele, tocando guitarra.
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