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Entrevista com Os Tribalistas, por Nelson Motta (parte 3):
Nelson - Duas coisas me chamaram muito a atenção no disco: essa sonoridade de violão náilon junto com violão aço que é a base rítmica/harmônica; e bem " vazia ",a percussão aparece nas suas sutilezas, não é uma percussão pesada, é tocada. Então isso aparece muito mais nítido e dá um timbre ao disco muito diferente do que se ouve no momento. Como são poucas intervenções, elas têm um realce muito maior.
Brown - Essa percussão feita nesse disco na verdade é extraída deles. Por mais que fosse eu tocando, eu imaginava assim, como seria Arnaldo tocando na mesma posição? Então eu imitava o gestual de Arnaldo ...
Nelson - "Recebia" um Arnaldo? Como num terreiro de candomblé? (risos)
Brown - É exatamente isso. Então, como o que eu conheço dele, dá para saber que ele tem uns movimentos assim. Ou as formas mais delicadas de Marisa, como seria ela tocando naquele momento? Então a percussão procurou, de um certo modo, identificar esses artistas, porque é muito mais fácil ver neles do que me enxergar, na hora de tocar. É como se eu estivesse vestindo aquilo como uma roupa.
Arnaldo - Acho lindo como o Brown pôs a percussão no disco porque ele tinha o tempo inteiro a consciência do disco como um todo, então em cada faixa ele tinha a preocupação de ... não, esse timbre eu já usei ali…
Nelson - Uma imensa variedade de timbres, que sumiriam numa big-band, você não conseguiria perceber. E o que é interessante também, como o disco está saindo em DVD, em imagem, as pessoas também verem os instrumentos que estão sendo tocados. É o balde, o cano, é a lixa de unha, até sininhos natalinos em Anjo da Guarda ...
Brown - Na verdade aquilo é um pilão para pilar cravo do reino bem pequeno mesmo, que dá aquele som. Ele termina tendo aqueles harmônicos todos e isso é muito bom para disparar coisas…
Arnaldo - Isso da sutileza que você falou, de você ouvir detalhes, acho que nisso também tem a mão do Alê ( produtor ) ....., ele foi muito importante nesse processo, os filtros eletrônicos que foram usados, as timbragens.
Marisa - E o Alê é músico. Ele conta no trabalho como qualquer um de nós, só que ele não aparece ali tocando. Mas o cara é músico mesmo, ele interferiu como músico. Ele foi o tempo todo uma referência importante para todo mundo.
Nelson - Como foi produzida essa parte dos vocais, da timbragem, da distribuição de vozes? Vocês já tinham gravado alguma coisa cantando juntos?
Marisa - Os três não, mas tudo aqui já tinha acontecido, eu com o Brown, eu com o Arnaldo, Arnaldo com o Brown. Mais de uma vez, eu acho. A gente já tinha cantado junto no palco, no Ibirapuera. Mas as coisas de voz, no sentido harmônico, cada um já encontrou seu caminho naturalmente.
Brown - Marisa é muito boa condutora, de vocais, de back vocals. Então a condução de uma emissão de voz para uma pessoa que às vezes não tem conhecimento, é tudo, porque você termina aprimorando. Então é ela que fez isso neste grupo. É uma generosidade de aprimorar o melhor de cada um para o melhor de uma coisa dos três.
Arnaldo - A gente não mapeou as músicas antes. Cada um ia lá e cantava e depois a gente ouvia e ia montando as vozes música por música.
Marisa - Nisso que o Brown está falando, da intenção da interpretação, nem acho que é por eu ter dirigido assim, acho que é mais por eu cantar e eles poderem ouvir. Tem música que a gente canta para um, tem música que a gente canta para muitos, tem músicas que a gente canta no pé do ouvido, tem músicas que a gente canta para fora. Só dei uma ou outra sugestão. Eu não acho que eu dirigi assim também não.
Nelson - Uma coisa é você cantar solo. Outra, quando você está cantando junto, que exige mais precisão, humildade e disciplina, é muito diferente.
Marisa - Mas isso já é natural entre a gente. Antes de gravar, quando a gente cantava aqui no sofá, já era assim. Um gosta muito de ouvir o outro, sabe? Isso que o Nelsinho está falando, essa simbiose talvez seja o principal traço conceitual, não que tenha sido assim uma coisa conseqüente, mas uma coisa que permeia o trabalho é a qualidade da comunhão da gente. É um disco que é uma hóstia mesmo, que é uma comunhão. Não é nem um mérito, é uma sorte. A gente talvez esteja vivendo isso há 10 anos assim e agora viveu com mais intensidade e eu acho que pude oferecer nesse disco uma coisa que eu não faria no meu trabalho individual.
Nelson - Se vê claramente isso. É só você ouvir os últimos discos de cada um de vocês. Muito diferente, o jeito de cantar e uma intimidade que é uma coisa dificílima de conseguir
Marisa - Uma intimidade, um relaxamento, um conforto.
Arnaldo -Tem muito improviso no disco, nas vozes.
Brown - Assim dá muita segurança. Que a gente não vai com a coisa de querer cantar. A gente vai, assim, suave.
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