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O Rei Bob Marley esteve no Brasil
em 1980, um ano antes de sua morte
Confira
tudo o que rolou nesta super reportagem que o Central Reggae preparou
para você!
Bob no Copacabana Palace Hotel
Bob Marley, Junior Marvin (guitarrista
dos Wailers), Jacob Miller (vocalista do Inner Circle), Chris
Blackwell (diretor da Island Records) e a esposa Nathalie Blackwell,
vieram ao Brasil em um jato particular para participar da festa
que inaugurou as atividades do selo alemão Ariola no país.
A Island, gravadora original dos Wailers, era então um selo da
Ariola. Bob interrompeu as sessões de gravação que resultariam
no álbum 'Uprising' para vir ao Brasil.
Na descida em Manaus, para reabastecimento,
o jato ficou retido por algumas horas. O governo militar certamente
não estava vendo com bons olhos a vinda daquela comitiva enfumaçada.
Depois de alguma negociação as autoridades acabaram cedendo, mas
sem liberar vistos de trabalho, o que desestimulou os que pensaram
em improvisar uma apresentação deles em solo brasileiro. Depois
ainda desceram em Brasília e rapidamente decolaram em direção
ao Rio de Janeiro. Chegaram no aeroporto Santos Dumont às 18h30m
do dia 18 de março, terça-feira.
Logo foram cercados pelos repórteres.
Bob era mais conhecido na época por ser o autor de "No Woman No
Cry", música que havia vendido 500 mil copias na versão de Gilberto
Gil. Suas primeiras declarações foram sobre a música brasileira:
"O samba e o reggae são a mesma coisa, tem o mesmo sentimento
das raízes africanas". Sobre Jah, o Deus do rastafarianismo ele
apenas disse: "É como o seu Deus, pouca gente O conhece". Cansado
da viagem, o grupo rumou logo para o Copacabana Palace, onde ficariam
hospedados.
No dia seguinte, pela manhã, eles
trataram de dar algumas voltas pela Cidade Maravilhosa, fizeram
questão de conhecer a favela da Rocinha, que acharam bastante
parecida com os guetos da Jamaica. Como não haviam trazido um
cozinheiro para Ihes preparar a comida I-tal - cozinha natural
seguida pelos rastafaris - Bob, Junior e Jacob só se alimentaram
com sucos de frutas. Segundo um acompanhante brasileiro, cada
um bebeu quinze copos de suco e Bob gostou mais dos de manga e
maracujá.
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Depois os três partiram para
as compras e percorreram as lojas de material esportivo
atrás de uniformes e outros equipamentos.
Os instrumentos musicais também
não foram esquecidos e os três rastas levaram violões, maracas,
atabaques e cuícas.
Os artigos esportivos tiveram
a sua estréia no famoso jogo no campo de Chico Buarque.
O trio jamaicano chegou as 16hOO
no km 18 da Avenida Sernambetiba
- três horas atrasados - quando
os funcionários da Ariola jogavam
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animadamente contra alguns dos contratados
da gravadora no Brasil, como o anfitrião Chico B u a r q u e,
Toquinho, Alceu Valença e outros.
Logo que eles chegaram os times foram
rapidamente rearrumados e ficaram assim: Bob Marley, Junior Marvin,
Paulo César Caju, Toquinho, Chico e Jacob Miller de um lado; e
do outro Alceu Valença, Chicão (músico da banda de Jorge - ainda
Ben) e mais quatro funcionários da gravadora. Antes de começar
o jogo Bob ganhou uma camisa 10 do Santos e sorriu, dizendo "Pelé"
para depois explicar que jogava em qualquer posição. Mas ele foi
mesmo para o ataque e o placar foi de 3 a 0 para o seu time, com
gols dele (documentado pela TV - veja fotos desse jogo abaixo),
de Chico e de Paulo César.
Acima:Junior Marvin, Toquinho,?
Abaixo:Jacob Miller, Chico Buarque, Paulo César Caju e
Bob Marley
Este, que jogou na copa de 70, foi
o mais festejado por Bob, que lhe disse: "Sou fã de seu futebol",
ao que Paulo César respondeu, "E eu, de sua musica". Bob lembrou
o campeonato mundial que marcou a ilha do reggae: ''Rivelino,Jairzinho,
Pelé... o Brasil é o meu time. A Jamaica gosta de futebol por
causa do Brasil". Mas a principal razão para a vinda dos jamaicanos
era a big festa da gravadora e logo que o jogo acabou eles voltaram
para o hotel.
A festa no alto do Morro da Urca
foi no mesmo dia - 19 de março - e teve mais de 1000 convidados
e penetras, com direito a engolidor de fogo, cartomante e fogos
de artifício. Bob Marley chegou com os amigos às 22h00, e foi
logo para um camarote.
Tranqüilo, apesar de muito assediado,
conversou com Moraes Moreira, Marina e com os participantes do
jogo. As pessoas estranhavam o fato de ele não beber, o que era
explicado por suas convicções rastas. Baby Consuelo, que havia
feito uma versão de "Is This Love", tentou ir lá cumprimentá-lo
mas não conseguiu.
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Depois dos discursos dos diretores
da gravadora ele se afastou para assistir a apresentação
de Moraes Moreira, que começou às 24h00 e fez a pista de
dança encher. A agitação foi tanta que Bob deve ter percebido
o significado da expressão "Rio Babilônia". A esperança
geral era de que ele desse uma canja.
Moraes chamou Baby no palco
para cantar a sua versão e talvez fazer Bob se decidir.
Mas nessa hora ele já estava se levantando e arrastando
repórteres, fotógrafos e curiosos à sua passagem, falando
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com os jornalistas enquanto se encaminhava
para o bondinho.
Na manhã seguinte estava programada
uma coletiva para a imprensa que acabou sendo realizada às pressas
pois os jornalistas chegaram atrasados e a partida de Bob e sua
comitiva estava marcada para as 16h00. Sobre os brasileiros ele
disse : "É fácil perceber que as pessoas aqui têm ritmo e feeling,
não só no andar, mas no falar e no próprio interesse demonstrado
pela música em qualquer uma de suas manifestações''.
Para ele a mensagem do reggae tem
grande importância, pois "os músicos devem ser porta-vozes dos
grandes contingentes oprimidos. No nosso caso, a responsabilidade
é maior por causa das nossas crenças religiosas. A própria filosofia
do reggae explica tudo isso. O reggae surgiu do gueto e sempre
foi fiel às suas origens, levando ao mundo uma mensagem de revolta,
protesto e reinvindicação''.
O mundo à sua volta é percebido em
cores fortes. "O Apocalipse está nas ruas, no dia-a-dia de cada
um. É o meu povo que sofre, o povo da rua, o pobre. É dele que
estou falando".
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No entanto ele se mostrava profético
em seu otimismo sobre o futuro do reggae: "o reggae não
é nenhuma moda, agora está havendo um revival do ska, e
quem está ouvindo essa musica é a geração jovem, até brancos.
Isso é salutar como uma semente bem regada, não é uma moda.
Isso vai crescer. Espere só, mon".
Bob Marley e amigos partiram
na mesma tarde do dia 20 de março, quinta-feira, para a
Jamaica. Junior Marvin contou ao Massive Reggae que durante
essa viagem Bob começou a compor várias músicas que ficariam
inacabadas.
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Contou também que eles planejavam
incluir o Brasil na turnê mundial que aconteceria no segundo semestre
de 80 e o Inner Circle iria abrir os shows, o que foi citado por
vários jornais da época.
No entanto, dois dias depois de voltar
à Jamaica, no dia 23 de março, Jacob Miller morreria num acidente
de carro em Kingston. No final, do mesmo ano, Bob Marley sentiu
de maneira contundente os sintomas da doença que o levaria em
maio de 81. O sonho de uma apresentação de Bob Marley no Brasil
jamais se concretizou, mas ao menos tivemos a oportunidade de
conhecer outro lado de suas personalidade, mostrando que longe
dos palcos e dos estúdios ele era apenas uma pessoa como qualquer
outra.
Todos os jornais que cobriram sua
visita destacaram o fato de que ele se mostrava sempre acessível
e disposto, sem traço de estrelismo.
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Esta vinda ao Brasil foi ofuscada
na biografia de Bob Marley pela apresentação na festa da
independência cdo Zimbabwe, que aconteceria menos de um
mes depois. Mas para quem sente a sua música bater com toda
força sem causar dor, esta é uma lembrança inestimável.
As declarações de Bob Marley
foram dadas aos seguintes jornais: Jornal do Brasil, O Globo,
Folha de São Paulo, Jornal da Tarde. Colaboração: sr. Yassuo
Ono, sra Helena Faria (arquivo JB), sr. Geraldo Carvalho.
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Este artigo foi traduzido para
a língua inglesa e publicado na revista The Beat e no jornal Reggae
Roots International.
Créditos:
Por
Léo Vidigal -
Massive Reggae -
www.massivereggae.cjb.net
Confira nesta super
entrevista as impressões que o rei teve
do Brasil e as mensagens
passadas por ele
Na manhã do último dia que Bob passou
no Brasil, terça feira, 20 de março, uma conferência de imprensa
foi organizada às pressas, pois provavelmente ninguém pensou em
fazê-la na manhã anterior. Mas mais uma vez, os jornalistas
se atrasaram e a conferência acabou sendo bem curta.
Durante a entrevista, ele declarou
que " Músicos devem ser porta- vozes para as massas oprimidas.
No nosso caso, a responsabilidade é ainda maior por causa de nossas
crenças religiosas. A filosofia do reggae explica tudo isso. O
reggae se propagou a partir dos guetos, e tem sido sempre fiel
a suas origens, trazendo ao mundo uma mensagem de revolta, protesto
e luta pelos direitos humanos."
"O apocalipse está nas ruas, na vida
diária de cada um. É o meu povo que sofre, o homem na rua, o pobre,
é deles que eu falo." Aqui estão mais alguns trechos da entrevista:
P: "Você está gostando desta viagem?
O que você acha da música brasileira?"
R: "Bom...Eu amo o futebol brasileiro,
e nós ouvimos falar muito do Brasil durante a Copa do Mundo. O
Brasil é sempre o primeiro time a ser mencionado na TV e nos jornais.
Paulo César é o meu jogador favorito."
P: "Gilberto Gil vendeu 500 mil cópias
de "Não chores mais" no Brasil. Como você explica isso?"
R: " Bom, é fácil de explicar...
O reggae tem o mesmo gosto que vocês conhecem, as mesmas raízes
e a temperatura que o samba tem. Nós somos próximos."
P: "Você vê Bob Marley como um superstar
do rock?
R: Não cara....isso é um engano sabe?
E eu toco reggae...não rock!!! (risadas). Eu não sou um "Mick
Jagger", minha música transmite outra mensagem. E o reggae não
é uma música momentânea como o Twist foi. Na Inglaterra, o Ska
está voltando às rádios, e quem está ouvindo é a nova geração,
até mesmo os brancos. O reggae está crescendo cara.....apenas
espere e veja...."
P: "Bob, você pode mandar uma mensagem
para o povo brasileiro?"
R: "Cara, é fácil perceber que os
brasileiros tem ritmo, tem bossa, não apenas no jeito que eles
se movimentam e falam, mas no interesse que eles mostram pela
música, em todas as manifestações musicais. Eu gostaria muito
de ter a oportunidade de um dia ter uma relação profunda com os
brasileiros. Eu acabei de passar apenas 2 dias aqui, mas tenho
curtido muito todo o tempo que passei, e tive a chance de conhecer
músicos que fazem um bom trabalho, como Gilberto Gil. Eu joguei
um pouco de futebol e vou voltar em setembro para jogar aqui e
para ficar mas próximo das pessoas."
Bob Tocando bandolin no Brasil
É particularmente interessante ouvir
Bob mencionando o ressurgimento do Ska, enquanto ao mesmo tempo
ele esteve gravando o álbum Uprising, que contém uma faixa de
Ska ("Bad card") novamente, depois de quase 15 anos desde que
ele gravou uma faixa de ska pela última vez. Ele também mencionou
seu interesse em gravar ska novamente em uma entrevista que deu
em Paris em 1978.
Bob, Jacob Miller, Junior Marvin,
Chris Blackwell e Nathalie Delon deixaram o Brasil na tarde do
mesmo dia às 16 hs. À última pergunta que foi feita por um jornalista
- "Qual a visão que Bob Marley tem de Bob Marley?" - antes que
ele embarcasse no avião, Bob respondeu: "Que ele é um sofredor."
No dia seguinte, Bob Marley, Jacob
Miller e Junior Marvin foram entrevistados no aeroporto de Saint
Martin, ainda em seu caminho para a Jamaica. No dia 23 de março
Bob foi entrevistado pela jornalista Helene Lee antes e estava
jogando futebol no campo da Tuff Gong quando Alvin "Seeco" Patterson
parou seu carro, desceu gritando que Jacob Miller tinha acabado
de falecer em um acidente de carro.
O acidente aconteceu na Hope Road:
Jacob estava cansado por causa da viagem ao Brasil e perdeu a
concentração quando tentava cuidar de seus filhos que estavam
no banco de trás do carro. (Ele estava na Tuff Gong 2 horas antes
do acidente acontecer.)
Como todos sabem, Bob faleceu um
pouco mais de 1 ano depois. Essas foram as duas razões pelas quais
um de seus mais interessantes projetos nunca se materializou.
Bob gostou tanto do Brasil que estava planejando organizar uma
turnê pela América do Sul e tocar no Brasil logo após as etapas
européia e norte americana da turnê Uprising, com Jacob Miller
e Inner Circle abrindo os shows.
Mas após 5 shows nos Estados Unidos,
a turnê Uprising teve que ser cancelada devido ao estágio avançado
do câncer de Bob. E Paulo César ainda se lembra de outro projeto
interessante que Bob tinha: " Antes de Bob voltar para a Jamaica,
ele me pediu para ajuda-lo com um projeto que tinha.
Ele queria criar uma escola de futebol
na Jamaica, mas ficou doente e infelizmente eu nunca pude vê-lo
novamente."
Fontes: Jornal do Brasil, O Globo,
Folha de São Paulo, Jornal da Tarde, Estado de São Paulo, Domingo
Magazine.
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