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Do início em terras maranhenses
aos dias de hoje, Fauzi conta toda a trajetória e
as
trips que levaram
a Tribo a ser uma das maiores bandas de reggae do Brasil
Se você acha que a Tribo de Jah conseguiu
esse sucesso todo e se transformou em uma das bandas mais bem
sucedidas do reggae brasileiro em um piscar de olhos, está muito
enganado. O que esses caras já passaram até chegar ao sucesso
daria um livro que certamente viraria um filme cheio de canções
bacanas. Mas, por enquanto, você vai ficar mesmo é com essa reportagem
que agente fez com os caras - que aliás,estão divulgando o seu
novo disco lançado no final do ano passado "Guerreiros da Tribo".
A história da Tribo de Jah não pode
ser separada da trajetória pessoal de Fauzi Beydoun, líder e principal
vocalista do grupo. Nascido no interior de São Paulo filho de
pai libanês com mãe italiana, Fauzi não virou comerciante nem
tenor, como poderia sugerir a ascendência. Muito pelo contrário:
tornou-se um aventureiro com a obsessão pelo pé na estrada e uma
paixão imensa pelo reggae, o ritmo jamaicano que já virou mania
em todo o planeta.
- Essa minha paixão pelo reggae começou
quando morei um tempo na África, há mais de 20 anos. Embora o
reggae não seja um ritmo essencialmente africano, é uma música
que está vinculada ao continente. Além disso, o lado politizado
do reggae, que além de cantar Deus e a ganja, tem uma carga muito
grande de protesto e contestação, que me atraiu bastante.
Essa preocupação com questões políticas
e sociais também está ligada a formação de Fauzi pré-Tribo de
Jah.
- Em São Paulo, quando voltei dessa
temporada na África, acabei entrando para a Universidade, fazendo
Ciências Sociais que, na época, era tido como um curso formador
de terroristas, de subversivos. A época era o final dos anos 70,
início da lenta e gradual abertura política brasileira, que levaria
ao fim de um período de 20 anos de ditadura.
Fauzi viveu todo esse clima e essa
agitação, mas ainda não havia mergulhado de vez no reggae.
- Tanto que minhas primeiras bandas,
ainda em São Paulo, eram de rock.
Além de Fauzi, a Tribo é
formada por deficientes visuais que se conhecem desde
crianças e que aprenderam
a tocar com instrumentos precários
O reggae acabou entrando na vida
de Fauzi por questões de trabalho. A necessidade de ganhar a vida,
inerente a todo e qualquer cidadão que pretenda sobreviver no
sistema capitalista, levou Fauzi a descolar um emprego em uma
multinacional suíça que mandou o cara para o Maranhão, como uma
promoção profissional. Fauzi acabou virando gerente da empresa
em São Luís, onde trocou o emprego por sua vocação para divulgar
o reggae não só como música, mas como uma autêntica bandeira.
- Antes de chegar em São Luís, passei
por Recife. E lá em recife, acho que eu era o único cara que ouvia
reggae. quer dizer, devia ter mais gente que curtia, mas eu não
conhecia ninguém.
Quando desembarcou em São Luís
do Maranhão, a chamada "Jamaica Brasileira",
Fauzi simplesmente não acreditou no que estava ouvindo.
Todo mundo curtia reggae!
- Cara, você entrava no táxi
e o motorista ouvia reggae. Eu não acreditei.
Em São Luís, Fauzi decidiu
retomar a carreira musical paralelamente às atividades
como gerente da empresa Suiça. Parte da retomada passou
pela participação em festivais que o levaram a conhecer
mais a fundo toda a cena musical da capital maranhense. Além
dos festivais, rolavam shows em teatros e onde desse, mas uma
coisa incomodava Fauzi: ele não conseguia fazer exclusivamente
o reggae que tanto amava.
- A verdade é que, trabalhando
com músicos free-lancers, como eu fazia, você não
consegue direcionar um trabalho por que são muitas tendências,
muitas influências musicais. A coisa não toma rumo.
Resolvendo apostar em sua carreira
musical e no reggae, Fauzi abriu mão do emprego. Enquanto
tentava montar uma banda, acabou criando e apresentando um programa
de rádio - sobre reggae, claro. Foi um pouco depois que
ele conheceu a galera que viria a ser a Tribo de Jah.
- Eu estava procurando equipamento,
instrumetos, todo o material necessário enfim, para montar
a minha banda como caras que estivessem a fim de rolar o mesmo
som que eu queria. Alguém me indicou um dono de conjunto
que estava se desfazendo de todo material. Era um grupo chamado
Reflexus. Eu fui lá um dia, falei com o cara , perguntei:
"Vende tudo?". Ele disse: "Vendo". Daí
eu reparei nos caras da banda que estavam ensaiando e pensei:
"Pô, esses caras aí vão ficar desempregados".
Fauzi foi conversar com os músicos,
todos cegos. Ele já os conhecia de ouvir falar.
- O pesoal comentava: "Ô
lá, tem um grupo de cegos que toca muito, os caras são
bons demais". E eles tocavam em bailes e faziam reggae também.
Na verdade, eram músicos experientes. Antes de fazerem
o Reflexus, eles já tinham integrado o Jota Som Seis, outro
grupo de baile de São Luís.
Quando Fauzi foi conversar com os
músicos, sua voz foi imediatamente reconhecida como a do
cara que fazia um programa de reggae no rádio. A identificação
foi imediata, e eles toparam ser a banda de Fauzi. Surgia a Tribo
de Jah, com Frazão (teclado), Zé Orlando (vocais
e percussão), Aquiles Rabelo (baixo), João Rodriuges
(bateria) e Neto (guitarra).
Daí foi só sucesso e
alegria, já está pensando você, seu apressadinho.
Mas não foi bem assim. Ainda se passram sies anos até
que a Tribo gravasse seu primeiro disco em 1991.
- Nesse tempo, eles continuaram fazendo
seus bailinhos, e eu, com meu programa de rádio. Rolavam
alguns shows, mas muito poucos. São Luís tem um
fenômeno cultural e musical que são os caminhões
de som mecânico que acabam imperando sobre as bandas.
O primeiro disco rendeu também
a primeira viagem para o sul. Foi uma fria total
- Um produtor de Porto Alegre nos
chamou para fazer show. Fiz uma gambiarra com algumas passagens
que agente tinha ganhado e acabamos indo para o sul.
Logo na chegada, o vocalista desconfiou
de que a coisa não ia dar muito certo.
- O cara foi nos buscar com uma caminhonete
Veraneio. depois nos largou em um hotel ali na Avenida Farrapos
(região do baixo meretrício local) e sumiu por três
dias. Agente estava sem dinheiro pra nada. E eu ainda fiquei doente.
O dono do hotel foi bacana e me levou em um hospital. Daí
o produtor voltou três dias depois falando que ia rolar.
O show foi em São Leopoldo (cidade da região metropolitana
de Porto Alegre) em um lugar onde só rolava dance music.
Eu olhei aquilo e pensei: "esses caras não devem nem
imaginar o que seja reggae."
Alguns anos depois, quando estavam
começando a se tornar conhecidos, a galera da Trido de
Jah voltou a Porto Alegre para um belo show no auditório
Araújo Vianna. Mas, dessa vez, o calote tornou a Tribo
conhecida do povo do sul do Brasil.
- Eu tinha passado uns 500 cds da
banda para os caras venderem. O negócio foi feito naquela
base: o cara vende, tira o dele e me passa o dinheiro. Para encurtar
a história: Nunca vi essa grana.
Mas Fauzi admite que graças
a esse calote, a fama da Tribo de Jah começou a se espalhar
pelos estados do sul. Mas ele sabe que praticamente todo o sucesso
e reconhecimento que o grupo conseguiu em cerca de dez anos é
fruto do trabalho dos próprios músicos. Perseverança
é a palavra chave. Afinal, depois do disco de estréia,
a Tribo de Jah construiu uma discografia respeitável a
partir da metade dos anos 90.
Entre Roots Reggae, de 1995, e o celebrativo
15 anos ao vivo, lançado em 2002, a banda comprovou a sua
capacidade de fazer uma música que mexe tanto com os quadris
quanto com a consciência.
- Veja bem, nós não
somos o tipo de banda que tem a atenção da mídia,
que tem música rolando na novela. Até reconheço
que aí no sul agente tem uma boa recepção
da imprensa, mas nacionalmente não. Então a banda
se mantém na estrada por sua própria força
e pela divulgação que o próprio público
faz da gente.
Quem fala isso é o líder
de uma banda que já andou por todos os cantos do norte
brasileiro, do interior do Maranhão a cidades da Amazônia
e até mesmo da Guiana Francesa, acreditando apenas na força
de sua música. Na primeira viagem a São Paulo, eles
enfrentaram três dias e três noites de estrada.
Se para fauzi a trajetória
da Tribo de Jah é a materialização plena
de uma idéia que ele nunca abandonou, para os demais integrantes
existe uma distância ainda maior entre a infância
como deficientes visuais internados em uma instituição
até os grandes palcos de hoje, não só no
Brasil mas também no exterior.
Fauzi fala do aprendizado da banda:
"Eles se conhecem desde criança. Aprenderam música
tocando em um piano velho já sem algumas teclas, em violões
sem cordas, improvisando baterias no tampo da mesa".
Fauzi acredita que essa "escola
da vida", pela qual todos eles passaram de uma forma ou de
outra, dá sustentação para que a Tribo de
Jah seja hoje uma banda plenamente madura. Isso aparece no novo
disco - Guerreriros da Tribo - e Fauzi afirma:
- É o nosso melhor disco, com
certeza. A bando amadureceu tanto no nível pessoal quanto
na parte musical. Todos nós já estamos na faixa
dos 40 anos, o que nos dá um entendimento muito maior das
coisas. Antes, a parte musical era muito intuitiva. Agora temos
conhecimento do material e sabemos o que a galera espera de nós.
O novo disco foi gravado em São
Paulo, no estúdio Mega. Eles tiveram tempo e calma para
fazer tudo como queriam.
- Agente teve todo esse apoio da gravadora
que nos permitiu fazer o melhor disco de nossa carreira até
hoje. Agente gravou muita música para poder escolher o
que iria entrar no disco. Foram quase 30 gravadas nesse período.
Desse total, doze músicas inéditas
vão estar no disco, sendo onze próprias e uma versão
de uma toada de bumba boi maranhense. Além delas, há
uma regravação de uma música antiga da banda,
uma regravação de uma música de Bob Marley
(Satisfy my Soul) e um dub, totalizando 15 faixas.
Para celebrar o novo disco, abanda
vai fazer o que mais gosta: cair na estrada, claro.
A Tribo esteve tocando e divulgando
este cd no Brasil e no exterior por passagens nos Estados Unidos
e México. A tribo cruzou os EUA de leste a Oeste com grandes
apresenteções e um compromisso firmado: o de voltar
a se apresentar este ano, não só na terra do Tio
Sam como em outros países ao redor do mundo.
As viagens para fora do país
também incluíram uma passagem obrigatória
pelo consagrado Reggae Sunsplash Festival, na Jamaica, em 1995.
Da Argentina à Itália o reggae da Tribo é
bem recebido pelas platéias.
Para fauzi, a Tribo está em
um momento de plenitude.
- A Tribo sempre foi uma banda de
estrada, confiante na sua auto-divulgação. Agora
atingimos um nível totalmente relax. Temos uma identidade
definida, sabemos porque viemos e a que viemos. Nosso objetivo
principal é tocar no coração das pessoas,
nossos shows são para isso. Um momento sublime. Apesar
dessa versatilidade de idiomas, de cantar em inglês no Japão
e em francês para os franceses, o que pega mesmo é
a levada cativante e a vibração da banda.
Fonte: Equipe Central Reggae
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