Tribo de Jah lança novo cd, The Babylon Inside !
"Fauzi Beydoun fala do novo cd da Tribo de Jah, da homenagem a sua cidade
natal (Assis e regiao, Iepê, etc.) e tambem das menções de
Trindade, Prainha Branca e muito mais.
RF: Este é o 12o cd da carreira. Curiosamente, a Tribo que fala tanto
do Maranhao aparece agora falando de Sao Paulo e especialmente de
Assis, tua cidade natal. Por que só agora?
Fauzi: A Tribo continua cantando o Maranhao como sempre cantou, afinal,
a banda é resultado tambem de toda a intensa cena reggae maranhense,
do proprio movimento reggae do Maranhao. O fato de fazer uma musica
falando de Assis coincide tambem com uma volta recente à região. Fiquei
muito tempo sem visitar a cidade e quando fui, é natural que tenha havido
um impacto emocional porque tenho ate hoje o mapa de Assis por inteiro
desenhado dentro da cabeça. Cada esquina, cada rua, trazem reminiscências
e emoções muito presentes. Iepê, uma cidadezinha proxima de Assis que é
a cidade de minha mãe,onde nasceu minha irmã tambem e onde eu passava
periodos maravilhosos na casa de minha tia, tambem marcou muito a minha
infância e adolescência.
RF: Alem de falar de Sampa, que esta tambem na capa do cd, as menções
de passagens por Trindade e Prainha Branca sao mesmo autobiograficas?
Fauzi: Na real a Tribo ja mora em Sampa ha um bocado de tempo e ja se
sente totalmente integrada na metropole.Sao no minimo oito anos em
Sao Paulo. É quase que inevitavel falar da cidade. NO caso de Trindade
e Prainha Branca é realmente uma menção autobiografica mas de um tempo
em que eu nem conhecia o Maranhao ainda. Falo mais ou menos da época de
80 ou 81, quando costumava ir acampar nessas praias e, é claro, que elas
eram muito mais preservadas naquela época. A Rio-Santos nem exitia e tinha
uns trechos da estrada em que o onibus que saia de Bertioga tinha que seguir
um bom trecho pela propria praia e depois era uma estradinha de terra bem
precaria ate chegar a Sao Sebastiao. Tudo que havia ali eram pequenas
aldeias de pescadores bem isoladas. Trindade entao nao tinha quase nada
a nao ser a natureza deslumbrante do lugar. E é claro tambem que só os
"muitos malucos" chegavam nesses lugares. O que eu falo na musica era verdade
mesmo; a gente saia sem grana, de carona, e se virava como podia mas tinha
sempre uma viola na parada. Rolou "carona" de trem de carga mas as vezes a
gente pegava trem de passageiro mesmo e como nao tinha a grana da passagem,
na hora que passava o cobrador a gente subia encima do trem. Eram tempos
mais "românticos" por assim dizer.
RF: E por que o titulo the Babylon Inside? A banda voltou a gravar alguns
temas em ingles dessa vez.
Fauzi: As canções em ingles agora se tornaram essenciais porque a banda
realmente tem viajado muito ao exterior e ha essa necessidade de uma
comunicação mais direta com o publico la de fora. É importante que a gente
seja compreendido pela mensagem que a banda sempre procurou passar
aqui no Brasil, mas de uma forma mais abrangente, pro mundo todo. Tem muita
banda de reggae alemã, japonesa, sueca, etc. que canta em ingles e acaba tendo
uma projecão internacional razoável.
A faixa titulo aborda o conceito de "Babilônia" de uma forma totalmente diferente.
Nao se trata neste caso de um sistema opressor mas simplesmente da negatividade
que ronda nossas cabeças, como sentimentos inferiores de ódio, inveja, vingança, etc.;
como uma frequência negativa poluindo o ar e que a gente tem que evitar. É aquela
estória de voce mudar o mundo começando consigo mesmo. Livre a sua cabeça de
todo o mal, cultive o bem, o amor, e assim, se cada um fizer o mesmo, naturalmente
o mundo vai ser melhor. É um enfoque diferente mas que reflete tambem uma evolução
natural da banda na sua temática e na sua ideologia."
"RF: Como é que voce e a banda avaliam esse novo trabalho agora que voces
estao completando 20 anos de carreira?
Fauzi: Felizmente a avaliacao da banda foi totalmente positiva, alias, a gente
finalmente conseguiu fazer um cd como a gente queria e talvez por isso,
o resultado foi altamente gratificante para todo o grupo. Deu pra gente
sentir que o passar do tempo tem tornado o trabalho mais lapidado,
mais apurado. Isso nem sempre é uma regra ja que muitos musicos
ou artistas as vezes vao declinando com o tempo, e nao conseguem
reproduzir trabalhos de qualidade como os do inicio de carreira.
Isso vale pra muitas bandas de reggae jamaicanas inclusive que
fizeram muitos classicos na decada de 70 ou 80 e, depois, perderam
qualidade com o tempo. Acho que ao longo desses 20 anos a Tribo
conseguiu o prodigio de manter uma media invejavel quanto ao nivel
de seus muitos cds. Mesmo tendo uns melhores que outros mas, na
media, o resultado é totalmente satisfatorio. Porem, com relacao a este
ultimo trabalho eu acho que ha um consenso entre todos da banda
de que houve um progresso e que o resultado final atingiu amplamente
a expectativa. É que nos tempos que a gente tinha a gravadora na cola
rolava muita pressao: tinha que ser tudo muito rapido, com tempo
estourando, enfim, era tudo muito na pressa e a gente nunca tinha
tempo suficiente pra fazer as coisas como a gente queria. Este foi
o primeiro trabalho independente desde que saimos da gravadora e
pudemos faze-lo com o tempo e as condições ideais, talvez por isso
seja o único trabralho com o qual a banda tenha ficado totalmente
satisfeita, por incrivel que pareça.
RF: A versão de "War In A Babylon" de Max Romeo, apesar de parecer
muito bem executada, fugiu do tema original abordado pelo autor
na letra de "Guerra na Babilonia". Isso foi casual ou proposital?
Fauzi: Houve aí uma intençao explicita de trazer a musica para o
nosso tempo atual. Max Romeo compôs a canção original da decada
de 70 e ela foi banida das radios jamaicanas porque as autoridades
de lá acreditavam que ela tinha um teor muito explosivo. No entanto,
ela estava diretamente associada a realidade jamaicana daquela época,
quando a Jamaica vivia uma verdadeira guerra civil numa luta brutal
entre as facções dos dois principais partidos politicos jamaicanos.
Nao faria sentido fazer uma versão literal pra abordar uma realidade
vivida ha tantos anos. Na versão que fizemos procuramos revelar
o fato curioso de que a atual guerra no Iraque tem como palco a
região que na antiguidade era a Babilonia. A partir daí preferimos dar
enfoque a uma situacao "literal" a que o titulo da canção nos reporta,
ja que "há de fato uma guerra acontecendo na Babilônia (onde hoje é o Iraque)" e, de uma forma mais abrangente, essa é tambem uma
guerra que poderia ser assimilada dentro do contexto que usamos pra
definir a Babilônia nos dias de hoje. Na real, acho que foi uma grande
sacada, porque os rastas fazem una leitura diferenciada da Biblia e,
assim como o povo judeu foi levado cativo para a Babilonia de Nabucodonosor,
eles acham que eles tambem sao o povo de Deus que foi trazido cativo
da Africa para a "Babilônia atual", ou seja, o mundo capitalista ocidental.
RF: Pra finalizar, depois desse trabalho que parece ter sido uma grande
realização para a Tribo, o que mais vem por aí em termos de projetos fonográficos futuros? Já ha algo planejado?
Fauzi: Muita coisa. Sao muitos projetos. De imediato a banda lançara
brevemento um cd todo em ingles para o mercado externo (mas que devera
estar disponivel tambem no Brasil) que traz tambem as musicas em ingles
que ja estão no "The Babylon Inside". Este cd ja esta pronto.
No momento, a banda tá produzindo o seu primeiro cd de dub, que deverá
se chamar "In Dub" (titulo provisório). Devera estar pronto logo depois
do periodo de carnaval. E para o ano que vem, se Deus quiser, a gente espera
poder gravar o segundo dvd pra comemorar os 20 anos de carreira como o titulo
de "Refazendo". Tem muito trabalho pela frente...
Por: Rodrigo Fontes.