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Nos bastidores com a banda Mystical Roots
Entrevista, edição e notas: Leo Vidigal

 

A banda Mystical Roots vem se destacando como uma das mais incansáveis, originais e informadas da cena reggae brasileira. Nessa entrevista densa eles contam mais sobre o seu repertório, como começaram na música, como é a sua filosofia e o seu método de auto-organização, que não passa pela intermediação de uma gravadora nem de um empresário de fora (mas que os expõe em demasia aos problemas comuns no showbusiness brasileiro).


Depois de sete anos de estrada, o grupo tem muito a dizer, tanto através
de sua obra, como de sua atuação e, claro, de suas idéias, expressas aqui no Central Reggae. Esta entrevista foi realizada em Vitória (ES) um dia após o Festival Capixaba de Reggae, no dia 11 de maio deste ano.

 

Central Reggae - Estou aqui com a banda Mystical Roots, que lançou em dezembro de 2001 o disco "Pras bandas de Lá", uma produção independente, que agora está divulgando em todo o Brasil. Vamos começar do começo, porque a Mystical Roots tem uma história inusitada, começou no Maranhão, veio para São Paulo, queria que vocês contassem com mais detalhes.


Luciana (vocal) - A banda foi formada há sete anos atrás, inclusive o vocalista que formou a banda era o Steve Jackson, um jamaicano. O Junior já fazia parte dela quando eu entrei. Dessa formação original, ficaram o Ricardo [Jansen] (baixo), o Junior e eu. Há três anos atrás a gente chegou em São Paulo, com a banda toda. A gente veio junto com a banda Manu Bantu, moramos com eles por um tempo. Viemos através de um selo independente, a Companhia Paulista de Hip-Hop. Com eles gravamos um disco, mas não deu certo, o disco não foi nem mixado direito, nem prensado. Enfrentamos muitas dificuldades, alguns integrantes voltaram para São Luís, a banda foi se dissolvendo.


Central Reggae - Como vocês chegaram nessa formação atual?


Luciana - A gente teve muita sorte porque encontramos logo naquela época as pessoas certas, encontramos o Márcio [Diniz] (vocal e teclado), o Ivan [Monteiro] (guitarra solo) e o Giuliano [Laurenza] (bateria), mais ou menos ao mesmo tempo. A gente estudava na ULM, Universidade Livre de Música, e nos encontramos com eles lá.


Central Reggae - Como foi a gravação do disco novo? A produção chama bastante a atenção por ser cristalina, os instrumentos aparecem com uma nitidez incomum, é difícil ver aqui no Brasil um som tão bem trabalhado. E o disco ainda traz versões dub (reggae instrumental e experimental remixado de faixas vocais ou originalmente produzido como instrumental) de quase todas as músicas, algo também fora dos padrões da cena nacional. Como foi esse processo?


Junior Echoes (vocal e guitarra base) - A produção das faixas foi nossa mesmo, contando muito com a ajuda de ótimos técnicos. A gente teve a sorte de encontrar o Aden e o pessoal do Regatha Mulambo, gente viciada em dub que também tem uma banda de reggae. Eles trabalham há muito tempo com isso, tinham os equipamentos certos, space echo e tal. A gente foi gravando e contou para eles que todos na banda gostavam de dub. Então ele fez um dub de uma música que já havia sido gravada e todo mundo achou maravilhoso. Então ele falou: "Vou fazer vários aqui e depois vocês resolvem se vão colocar um, dois ou três". A gente escolheu seis. Ficou bem diferente, porque o disco tem oito faixas cantadas, tem uma introdução instrumental, que é a "Pajelança", e mais seis faixas dub, o que acabou resultando em quinze faixas no total. O único caso parecido que ouvi falar no Brasil foi o do CD do Cidade Negra que foi 100% dub [nota do entrevistador: o álbum "Dubs" na verdade é uma coletânea de versões de várias fases do Cidade. Algumas versões, particularmente as feitas pela dupla Sly & Robbie, caberiam mais na categoria remix, o que não desmerece em nada este ótimo álbum, que conta ainda com participações antológicas de U Roy, Lee Perry, entre outros], produzida na Jamaica, na Inglaterra, em vários lugares. Para quem não conhecia o estilo dub, pode começar a se interessar agora e vai ver que ele influenciou o drum & bass, por exemplo. Daí as pessoas podem querer saber mais sobre o trabalho de Lee Perry e companhia.

 

Central Reggae - Esse show de vocês, que é baseado no disco, traz também algumas versões de clássicos do roots reggae, o que demonstra um trabalho de pesquisa aprofundado.


Junior Echoes - É, o nosso show apresenta as músicas do disco e também vários covers, como a de Eric Donaldson, "Rock and Gold". Ainda tem uma do The Police, "The bed is too Big without you", "No, No, No" da Dawn Penn e "Satta Massagana" dos Abyssinians . Além destas também tocamos uma do Rappa, todo mundo da banda gosta deles, eles têm um trabalho com a qualidade que a gente almeja.


Central Reggae - Vocês me disseram que não estão trabalhando mais com um empresário, que tudo é feito pela banda, mas será que esse esquema não é muito desgastante, toda essa parte administrativa?

Giuliano - A gente resolveu se organizar, dando uma função para cada um, assim não sobrecarrega ninguém. Acho que é assim que a gente vai levar de agora em diante, tivemos que abrir uma firma para ter uma produção independente, vender disco, fazer show.

Central Reggae - Como é a divisão de trabalho?

Giuliano - Bom, por exemplo, o Márcio é, vamos dizer, o nosso gerente de vendas, ele organiza a distribuição dos CDs. O Ricardo é o nosso tesoureiro, cuida do caixa. Junior é o contato, fala com a imprensa, rádios, produtores etc. Eu sou motorista e cuido da parte de Internet. A Luciana cuida do envio de material pelo correio. O Ivan é o nosso diretor musical. A gente acha que assim funciona bem, a gente só precisa de alguém para botar a cara na frente, se expor mais, para cuidar dos pepinos que acontecem na hora dos shows. A Carina também é uma amiga nossa que ajuda nessa parte da estrada. A gente gosta de ter ao lado quem a gente confia e não alguém que venha atrapalhar a vibração da banda. Com a gente não tem muito ego, não tem muita competição. Todo mundo vai evoluindo junto, isso tudo para nós é novo, a gente nunca teve uma firma ou coisa assim.

Central Reggae - Como foi que vocês tiveram a idéia de se organizar desta forma?


Giuliano - Essa divisão de trabalho tem pouco tempo, uns dois meses. A
gente já estava sem empresário e lançou dois mil Cds este ano, vendemos tudo, mas não soubemos administrar direito, ninguém sabia qual era a função de cada um. Foi aí que resolvemos nos organizar. Agora vamos vender mais mil cópias e já está mais organizado. Hoje, como já se pode gravar um CD e prensar por um custo baixo, acho que cada vez mais as bandas vão mais para o lado da produção independente, vão cuidar também da divulgação e da distribuição.

Central Reggae - E quanto às facilidades que a Internet oferece nessa área?

 

Giuliano - A gente está lançando um site novo (www.mysticalroots.com.br), vai ter uma versão para banda larga e outra normal, vamos colocar arquivos em Mp3 e videoclip. A Internet é uma área que nunca vai parar de evoluir, então a gente tem que estar lá dentro desde já, para poder fazer o melhor uso dela.

 

Luciana - A gente está feliz com a nossa posição independente, nossa situação está bem melhor do que muitas outras bandas, a gente sabe o que está acontecendo, cuidamos das nossas vendas, tocamos pelo menos duas vezes por semana, não tem aquele esquema de passar seis meses sem fazer um show, que às vezes acontece em uma gravadora. Muitos amigos de bandas às vezes ficam "no freezer", uma estratégia que pode até prejudicar a carreira. Na verdade a nossa preocupação maior é com a distribuição, que deve ser grande, assim a gente faz mais shows, mostrando o trabalho em outros estados, tocando direto. A banda está viva e a gente está feliz com a nossa situação.

 

 

Clique aqui para ver a segunda parte da entrevista.

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