Nos
bastidores com a banda Mystical Roots - Parte 2
Entrevista, edição e notas: Leo Vidigal
Central
Reggae -
Como é a rotina de trabalho de vocês?
Junior - Geralmente a gente ensaia uma vez por semana
com a banda inteira e duas vezes por semana ensaia só a base,
geralmente baixo, batera, guitarra e teclado, sem os vocais, com a "metaleira"
junto quando dá tempo [nota do e.: metais são os instrumentos
de sopro, saxofone, trumpete, trombone etc.]. Como cada um tem um serviço
diferente na banda, nem sempre dá para juntar todo mundo, mas
é sagrado fazer uma reunião uma vez por semana.
Central Reggae - E dentro desta divisão de trabalho,
como fica a composição das músicas?
Giuliano - O processo de composição parte normalmente
da contribuição
individual de cada um, mas é coletivo. Por exemplo, a Luciana
ou o
Junior vem com a letra e a melodia, aí o Ivan harmoniza, eu coloco
a
levada, o Ricardo a linha de baixo, o Márcio os metais e os teclados
e
assim vai. É um trabalho de maturação, às
vezes a gente larga uma música
e pega ela daqui 6 meses e logo acerta. A "Black & Gold"
(faixa do álbum "Pras Bandas de Lá", com letra
de Márcio Diniz), por exemplo, saiu em um ensaio onde estava
o Márcio, o Ricardo e eu. O Márcio mostrou a música,
o Ricardo arrumou aquela linha de baixo, a introdução
foi sugerida por mim e o Márcio ficou depois em casa trabalhando
os metais até encontrar a maneira correta de encaixar. É
um trabalho de equipe mesmo. Muita coisa nasce sem querer, em jams que
a gente faz, às vezes fica 2 horas tocando livremente e aí
sai algo e pronto, pega aquela partezinha e usa, e assim vai. Foi desse
jeito com a "Black and Gold".
Central Reggae - No disco existem várias músicas
compostas por vocês em inglês, que é algo comum nas
bandas do Maranhão. Queria saber o porquê desta opção
de vocês, se tem a ver com o mercado internacional ou com o mercado
interno mesmo.
Junior - Quando é para compor um roots reggae, a primeira
melodia que a gente solfeja já sai em inglês, mesmo que
seja em "embromation", aquele que você só canta
"bla, bla, bli, bla, bla", fica com cara de inglês e
depois que é "traduzido" para o português. De
tanto ouvir o reggae, o seu subconsciente fica com aquela melodia em
inglês. É muito raro que eu comece uma composição
de cara em português. A Luciana é professora de inglês,
o Márcio também fala um pouco, eu morei na Inglaterra,
a maioria fala inglês na banda, então dá para fazer
canções em inglês com uma certa fluência.
Se você pensou em inglês, pode escrever, analisar, corrigir
e pronto. Por outro lado, você não pode só se limitar
ao português, agora com a Internet pode ser que os "gringos"
gostem de alguma faixa nossa. A gente quer também sair, tocar
fora, mas não tem como medir o tamanho da repercussão
de cara, então não dá para descartar o público
de fora. Mas não é uma coisa forçada, tipo "Vamos
fazer agora uma música em inglês", é mais natural.
Giuliano - A música tem vida própria, independente
da língua em que você compõe. Você pode fazer
um reggae roots em francês, seja em que língua for, porque
se a música tiver a verdade nela, ela vai tocar as pessoas. Eu
gosto de músicas em francês em que não dá
para entender nada do que o cantor está dizendo, mas a melodia
e a vida da música entram pelo seu corpo, te ganham. Mas você
também pode fazer uma música em português e não
acontecer absolutamente nada, não tocar ninguém porque
não rolou aquela força necessária, a música
não ganhou personalidade. Mas, querendo ou não, o inglês
é a língua universal, os formadores de opinião
em todo mundo vão entender. E é a língua de onde
nasceu o reggae.
Luciana - Além disso, para quem é do Maranhão,
existe uma influência muito forte do lovers rock [nota do e.:
estilo de reggae romântico praticado por Gregory Isaacs e outros
artistas do reggae], que a gente ouviu a vida inteira, nas radiolas.
Nas nossas músicas em inglês tem essa carga romântica,
existe esta influência do que a gente viveu em São Luís,
afinal só estamos em São Paulo há três anos.
Central Reggae - Falando em São Luís, é
comum que as bandas de destaque de lá tenham que vir para o sul
para sobreviver da sua música, queria saber porque elas não
conseguem se firmar lá.
Luciana - A verdade é que São Luís é
uma cidade pequena, então para sobreviver de música é
complicado, não é porque o reggae é marginalizado.
A gente chegou no topo lá, aparecia na Tv toda semana, no jornal
quase todo dia. Temos uma base superforte em São Luís,
tocamos direto lá. Para a gente foi muito bom vir para São
Paulo, os nossos próprios fãs deram uma força para
isso. Os músicos da MPM, música popular maranhense, também
saem para dar shows no sul, principalmente em São Paulo, porque
é onde as coisas rolam. O pessoal de Pernambuco também
vai para lá, mora lá, bandas da Bahia, também vão,
porque é lá que o fluxo de shows acontece.
Junior - Quando a gente começou, somente tinha a banda
Guetos tocando reggae. A Tribo de Jah estava na estrada, baseada em
Fortaleza. Demos os primeiros shows com o nome de Mystical Roots no
final de 1994 e no reveillon de 1995. O público que existia era
o que gostava de Bob Marley, que ouvia reggae em casa, e os que gostavam
das radiolas. Só tinha a banda Guetos, que sozinha não
conseguia saciar todo esse público. Mas em São Luís
o pessoal preferia lotar uma radiola do que ir para um show ao vivo,
de quem quer que fosse. A gente tinha que cativar este pessoal e outro
público também, mais caseiro. Começamos a tocar
covers de músicas dos anos 70, algumas da Inglaterra, misturamos
com versões de músicas brasileiras, tocamos Gilberto Gil,
Tim Maia em ritmo de reggae, Luiz Melodia, Beatles, tudo isso com a
pegada roots. Então nos nossos shows tinha esse público
que ia nas radiolas, que era cerca de 30%, que continua fiel às
radiolas até hoje, e outra parte mais ligada no nosso som. As
pessoas foram se identificando com essa mistura, a banda tocava "Ando
Meio Desligado" [nota do e: dos Mutantes], João do Vale.
Nosso som era ritmo, fusão e dub. Então a banda já
tinha uma personalidade, era capaz de fazer muita coisa, não
era uma banda só de "lovers", por exemplo. Existem
bandas lá que, quando começam, precisam tocar o que rola
nas radiolas para conquistar o público, mas isso se deve também
ao gosto dos músicos. Quando você começa a ouvir
reggae, os melhores exemplos são Joe Higgs, Desmond Dekker, Eric
Donaldson. Então acaba gravando a música que você
mais gosta, por exemplo, "Are we a Warrior", do Ijahman, que
é um hino em São Luís, é apaixonante, é
algo que você ouve lá desde criança, então
quem monta uma banda vai querer tocar.
Central Reggae - Para encerrar queria saber mais sobre a vibração
da banda, dá para sentir no show que vocês têm uma
preocupação em não apenas tocar a música,
ficar famoso e tal, mas também de mostrar a cultura por trás
do reggae.
Junior - As músicas têm vida e isso influencia
nosso lado cultural, institivo, emocional e profissional. A música
vai além da técnica, vem da alma.
Ivan - Esta é a nossa profissão, é o que
nós gostamos de fazer.
Junior - O que move a gente não é a grana. Temos
sete anos de banda, a gente podia estar tocando outros estilos, podia
ter fechado com a primeira gravadora que apareceu, a Luciana recebeu
convite para fazer carreira solo, mas não aceitou. Outros ainda
vêm para querer te transformar em uma coisa onde o artista fica
mais importante que a obra. Isso não faz sentido, porque todos
vamos morrer e o que vai ficar é a obra, não é
você. Acho que cada um aqui se sente assim, a gente não
é tão vaidoso como artista. Quando a gente compõe
é como fazer um filho, cada música é um filho nosso.
O que fazemos é mostrar nossos filhos para a galera.
Márcio - E a vibraçãodo palco é
maravilhosa, é uma das coisas que mais me dão prazer e
acho que para todo mundo na banda também. Quando você tem
um tratamento de som razoável, a mística vem daí,
desse estado de espírito, de estar feliz ali, é uma celebração.
Nenhum de nós faz isso como um trabalho rotineiro, todo mundo
aqui poderia estar fazendo qualquer outra coisa, em qualquer outro lugar.
Se está ali é porque quer mesmo, é uma comunhão
de felicidade, e isso acaba sendo transmitido para as outras pessoas.
Como todo mundo eu já estive do outro lado como espectador, então
quando você vê alguém passando a verdade em cima
do palco isso contagia qualquer um, você saca logo que ali tem
algo mais.
Luciana- Com certeza, quando a gente está no palco,
está celebrando a união, como o Márcio falou, a
alegria de estar junto, a gente se olha feliz, é um casamento
que deu certo. Tem uma troca uma energia muito forte no palco. Tem também
uma vibração natural e espiritual de passar essa coisa
boa que está dentro de nós para quem está lá
embaixo nos vendo. É uma onda de felicidade, de harmonia e de
paz que a gente busca no nosso dia-a-dia, junto com a preocupação
pela evolução do espírito. Nunca vamos para o palco
contrariados, com problemas maiores do que a satisfação
de estar lá em cima tocando e passando essa energia, essa "irie
feeling" [nota do e. : irie é uma saudação
jamaicana que também denota algo agradável, legal].
Giuliano - A banda pensa na música, na letra, na parte
harmônica e também buscamos sempre evoluir espiritualmente
e fazer com que isso seja passado na música. A mensagem musical
vem junto com a mensagem espiritual, não apenas com as palavras,
mas que algo que bata também no coração e nos chakras
da pessoa [nota do e.: chakras, segundo a medicina hindu, são
pontos energéticos localizados em nosso corpo], uma mensagem
que faça com que as pessoas se sintam bem. Nossa preocupação
é sempre melhorar e se "purificar", para o nosso conteúdo
musical ficar cada vez mais forte. Estamos sempre querendo dar mais
para o público, fazer um show sempre melhor que o anterior, esperando
que essa corrente vá aumentando com o passar dos anos, para que
cada vez que alguém vá em um show nosso possa ver algo
que não viu antes, uma execução melhor, mais vibração.
Estamos sempre correndo atrás disso, fazer o groove bater direto
no peito do regueiro, na moleira.
Central Reggae - Obrigado a todos, valeu pela entrevista.
Luciana - Valeu, a gente está muito feliz de estar aqui
hoje.
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Ver
a primeira parte da entrevista.