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Tributo a Geraldo Carvalho |
Texto e fotos: Leo Vidigal |
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O primeiro texto que gostaria de escrever nessa nova fase no Central Reggae não poderia deixar de ser sobre o grande reggueiro Geraldo Carvalho, levado para Zion antes do tempo no dia 31 de julho desse ano. Geraldo foi um dos maiores responsáveis pela difusão da cultura oriunda da ilha do reggae em terras brasileiras, ganhando a vida como produtor, radialista e uma espécie de adido cultural oficioso do Brasil na Jamaica. Nascido em 1957 na cidade de Ipanema, interior mineiro, Geraldo desde cedo teve o reggae entre seus estilos favoritos, mas foi em 1980, quando presenciou a inflamada performance de Peter Tosh no Festival Internacional de Jazz, em São Paulo, que se apaixonou de vez. Depois de se mudar para Curitiba, passou a colecionar discos, jornais, fitas de vídeo e tudo o que tinha a ver com o reggae, além de gravar fitas, que distribuía pelos amigos músicos. Ao longo da década de 1980, segundo conta o jornalista, radialista e pesquisador Otávio Rodrigues, era a Geraldo e Patrícia Sato, sua esposa na época, “que eu recorria sempre que faltava um dado, uma informação difícil de achar. Não havia Internet, a importação de livros e discos era complicada, e quando não restava onde bater, era no prefixo 041 que surgia a salvação. Criei um apelido para a dupla: ‘Geraldo Tem & Patrícia Sabe’ (na foto abaixo, Geraldo, Yasus Afari e Patrícia). Depois eles tomaram caminhos diferentes, mas Geraldo continuou firme no reggae”.
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No início da década de 1990, período crucial na consolidação do reggae no Brasil, Geraldo, que já havia começado a produzir o influente programa de rádio “Conexão Jamaica”, iniciou o trabalho que o faria conhecido, realizando os contatos que trariam alguns dos grandes nomes do reggae para tocar em cidades brasileiras. Ele queria ir além da admiração e da pesquisa, queria contribuir para que o Brasil passasse a fazer parte da rota internacional dos artistas jamaicanos, o que acabou conseguindo. Além disso, começou também a apoiar as bandas de reggae locais. Fauzi Beydoun conta: “Na primeira descida da Tribo do Maranhão para o sul, Geraldo estava lá, em Curitiba, acompanhando a banda e dando uma força em seu primeiro show na cidade. Muitos foram os grandes nomes do reggae que vieram ao Brasil através dele. Muitos inclusive ficaram hospedados em sua casa, tal como a própria Tribo de Jah. A sua casa o bairro do Ahú, citada na faixa 'Curitiba Reggae Bound', do cd 'Reggae'n Blues', exalava o música em todas as suas dependências e era seguramente um dos mais importantes QGs do reggae no sul e no Brasil”.
Um grande marco foi em 1990, quando Geraldo conseguiu que um dos emblemáticos grupos da história do reggae, a Wailers Band, composta pelos músicos que acompanharam Bob Marley nos últimos anos de sua carreira, viesse pela primeira vez ao Brasil. Quando estavam em Curitiba o percussionista Alvin “Seeco” Patterson sentiu-se mal, sendo constatado que ele tinha um aneurisma prestes a estourar em seu cérebro. Era preciso operá-lo imediatamente, pois Seeco corria risco de morte. Geraldo conseguiu que um conhecido médico operasse o percussionista, salvando sua vida. Depois cedeu sua casa para que Seeco se recuperasse, o que levou alguns meses. A história se espalhou rapidamente entre os jamaicanos, fazendo com que Geraldo ganhasse definitivamente a confiança dos cantores e instrumentistas do reggae. A história foi lembrada pelo grande pesquisador e colecionador americano Roger Steffens, em depoimento a Otávio Rodrigues: “Geraldo foi uma grande força para muita gente, durante muito tempo. Talvez mais notavelmente quando amparou o Seeco depois da cirurgia no cérebro. Deixa saudades imensas, será sempre bem lembrado.”
A partir de então, a maioria dos artistas da ilha do reggae que passaram pelo Brasil tiveram Geraldo como tour manager, o encarregado de providenciar as melhores condições de trabalho para todos, enquanto garante que as atrações irão cumprir os compromissos assumidos. Otávio Rodrigues relembra: “Ficou engraçado até, porque muitos empresários tentavam deixar ele de lado, faziam contato direto com os artistas ou seus representantes e, a certa altura, tinham de ouvir a costumeira exigência: ‘A gente só vai se o Geraldo estiver com a gente’. Ora, ele já conhecia o jeito e as manias de cada um. Com o tempo, os tubarões perceberam que o Geraldo era um agente fundamental no esquema, às vezes a única garantia de que os artistas iriam acordar em Kingston a tempo de pegar o avião”.
Outro grande legado de Geraldo foi o apoio às bandas brasileiras. Fauzi Beydoun conta que “Foi também através de Geraldo que a Tribo foi pela primeira vez na Jamaica, participar do Reggae Sunsplash Festival, no ano de 1995. O produtor do festival na época, Don Green, veio ao Brasil e ficou hospedado na casa de Geraldo onde ganhou um CD da Tribo. Em seguida, fez o convite oficial para a banda. É claro que Geraldo foi
com a gente, e a viagem, graças a ele também, foi muito divertida”. Outra banda que contou com seu apoio dele foi a Leões de Israel, que a partir de seus contatos conseguiu tocar no festival Rebel Salute, organizado pelo singjay Tony Rebel. Ele também foi importante na formação da vibrante cena reggae/ska de Curitiba, bandas como Djambi e Skuba, entre outras, tiveram em Geraldo um mentor e um divulgador. Graças a ele Curitiba é um dos principais destinos dos artistas de reggae internacionais no Brasil.
Aqui cabe uma lembrança pessoal. Em 1995 enviei alguns fanzines Massive Reggae para serem distribuídos em Curitiba e logo recebemos uma carta de Geraldo, que nos convidava a conhecer a cena da capital paranaense. Fui para lá e fiquei quase uma semana hospedado em sua famosa casa, conheci as bandas da cidade e os integrantes da formação de então do Black Uhuru, capitaneado por Derrick Simpson (ver foto ao final da matéria, com Derrick, Yasus, Geraldo e Leo Vidigal). Ficamos amigos e desde então ele colabora com o Massive Reggae, tendo escrito belas matérias sobre a Wailers Band, Gregory Isaacs e Alpha Blondy, além de assinar uma coluna chamada “Tambores de Jah” (que dividia com o dub poet Yasus Afari – ver foto abaixo Yasus e Geraldo na casa de Curitiba), esta última apenas na versão impressa da revista. Algumas dessas colaborações já estão no site do Massive Reggae, outras serão acrescentadas em breve. Encontramo-nos de novo pelos shows de reggae ao longo dos anos, em São Paulo e São Luís, principalmente. De alguns anos para cá ficamos mais próximos, pois ele estava se tratando de seus problemas gástricos em Belo Horizonte, minha cidade. Às vezes ele ficava hospedado em minha casa e conversávamos muito sobre os rumos do reggae e as novas atrações que ele iria trazer. Infelizmente ele parou de se tratar e acabou sucumbindo a uma crise de úlcera, vindo a falecer em Curitiba.
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Mas o que vai ficar é o Geraldo incansável e destemido, ora diplomático ora explosivo, sempre com uma boa história para contar sobre os bastidores do reggae, histórias que só ele poderia colocar no papel. Sabia muito bem que não era recompensado como merecia em termos financeiros, estava sempre correndo atrás de novas produções para se manter, mas também tinha consciência de que havia escolhido viver para a sua paixão pelo reggae e nesse sentido podia se considerar um vitorioso. Devemos muito a ele e por isso prestamos essa homenagem aqui no Central Reggae. Geraldo será sempre lembrado como um dos grandes embaixadores do reggae no Brasil – era integrante, como eu, da organização Reggae Ambassadors Worldwide (http://www.Reggaeambassadors.org). Espero que possamos levar o seu legado adiante.
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