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“Um giro pelo universo do reggae” |
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Textos por Leo Vidigal |
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O Observatório do Reggae vai fazer de vez em quando uma pequena ronda pelo que anda acontecendo no universo do reggae no Brasil e no mundo. Vamos iniciar nossa jornada pela Jamaica, onde tudo começou. Muita gente torce o nariz para a música que se faz na ilha hoje, mas a verdade é que se conhece muito pouco da atual produção jamaicana, o que faz com que a questão fique mais no terreno do que as pessoam acham que deveria ser e menos no que realmente é realizado. É algo que muitos reduzem à oposição roots X dancehall, mas para mim essa oposição é mais relativa, existe em algumas situações ou para alguns artistas, mas praticamente não existe para outros, é algo mais elaborado do que parece à primeira vista. Para ficar mais claro o que penso sobre a querela roots x dancehall dêem uma lida no artigo “Dancehall”, de Mauro França, que foi publicado no site Massive Reggae. Então vamos lá.
O reggae e os “dançumentários”
Quando os jamaicanos começaram a desenvolver estilos musicais que eram claramente diferentes dos produzidos pelas ilhas vizinhas, no vibrante arquipélago cultural do Caribe, logo pensaram em atá-los a um tipo específico de dança. Era a época em que gêneros musicais como o cha-cha-cha e twist faziam grande sucesso. Os artistas desse tipo de música lançavam seus LPs de vinil com seqüências de fotos na contracapa que mostravam como se devia dançar “corretamente” o que se ouvia, geralmente a dois. Foi o que tentaram fazer com a música jamaicana. No filme documental “Jamaican Ska”, produzido pela JFU (Jamaica Film Unit) no início dos anos 1960, aparecem grupos de pessoas dançando o ska (ver site Massive Reggae) de um jeito engraçado, com os joelhos curvados e esticando os braços para frente e fazendo-os balançar para cima e para baixo, cena que foi reproduzida em vários outros documentários. A dança era tão valorizada que a delegação jamaicana que representou o país caribenho na Feira Mundial de Nova Iorque, em 1964, foi para lá com um contigente de músicos e também de dançarinos. Na época do rocksteady (ver mais sobre esse estilo na página do Massive Reggae) ainda se lançavam discos com fotos de passos de dança (estilo caracterizado no texto impresso no disco como “oleoso”), mas no final dos anos 1960, gêneros musicais que tivessem uma dança considerada como “apropriada” passaram a ser considerados fora de moda. O reggae se impôs com um tipo de batida que convidava à dança livre, cada um na sua, sem coreografias ou passos a dois.
Um resgate dessa ligação dança-e-estilo-musical veio justamente do Maranhão, onde a criatividade dos dançarinos e o modo como o reggae caiu nas graças da população (como um tipo de “música lenta” que desse oportunidade para a formação dos casais na pista) fez com que surgisse o reggae dançado aos pares, prática não registrada em outras partes do mundo. Programas documentais da televisão brasileira, como o antigo “Netos do Amaral” da MTV, o “Documento Especial” da Manchete e programas jornalísticos da Globo, mostraram a dança maranhense para todo o país (leia mais sobre o jeito maranhense de dançar no artigo “Reggae no Maranhão”, na seção “Cultura Reggae” do site Massive Reggae). Na Jamaica, a ascensão do dancehall teve o efeito de fazer o povo de lá voltar a dar importância para a dança e isso não passou despercebido pelo pessoal do cinema e do audiovisual. Isso ficou claro com a produção do documentário “It's All About Dancing: A Jamaican Dance-U-Mentary”. Dirigido pelo jamaicano Jason Williams, ele registra toda a movimentação em volta da cena cultural que se formou em torno dos dançarinos e dos concursos de dança na ilha caribenha. Traz entrevistas com os principais representantes da dança de rua na Jamaica (lá existem também as companhias de dança-espetáculo, para ser apresentada nos teatros, mas que não são abordadas), como Ding Dong, John Hype, Ice e Sadiky, além de ensinar passo a passo mais de 60 tipos de dança, a maioria bastante simples. É uma espécie de equivalente atual das contracapas dos antigos LPs de vinil. Muitas cenas foram gravadas no clube Passa Passa, o mais famoso de Kingston na atualidade. O dançarino Ding Dong ficou tão conhecido por causa desse filme que deve gravar um Cd ainda este ano. O documentário ainda não está disponível para venda no Brasil, mas pode ser encomenddo pela Internet, bastando procurar por seu nome nos sites de busca.
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Nova geração do reggae consciente
Uma nova geração do “conscious reggae” ou que ainda faz o som “roots and culture” (ou simplesmente “culture”) como se diz na ilha, está se consolidando na Jamaica. Depois dos pioneiros Garnet Silk, Luciano, Tony Rebel, Everton Blender, Anthony B, Sizzla, Capleton e Buju Banton (os três últimos de modo um bastante ambígüo, por terem lançados canções nada politicamente corretas que incitavam a homofobia arraigada dos jamaicanos), entre outros que tornaram as mensagens pacifistas, politizadas e espiritualizadas do rastafarismo novamente populares, a Jamaica assiste a ascensão de novos nomes dessa vertente do reggae. Warrior King, I-Wayne, Lutan Fya, Jah Mason, Ras Shiloh e Jah Cure, entre outros, estão mostrando que o reggae contemporâneo realizado na Jamaica é mais diversificado do que se imagina por aqui. A qualidade das produções varia, mas a temática é mais ou menos a mesma: anti-conformismo, resgate de valores esquecidos na era do slackness e do gun talk, louvor a Jah, entre outros. É uma cena que lentamente vai ganhando repercussão fora da ilha, mas que ainda não chegou perto do reconhecimento internacional de artistas como Demian e Ziggy Marley, Sean Paul e Beenie Man.
U Roy no Brasil
E o Brasil está assistindo novamente ao grande mestre U Roy. Nascido em 21 de setembro de 1942, em Kingston, foi ele quem popularizou o canto falado que MC’s de todo o mundo adotaram enquanto ele levava seus mais de 35 anos de carreira musical. Pode se dizer que ele também teve importância decisiva na história do dub, que passou de experimento de estúdio para presença obrigatória nos “lado B” dos compactos jamaicanos depois que U Roy se associou ao pioneiro King Tubby. Seguindo essa linha, podemos atribuir a ele uma papel considerável na consolidação da cultura dos “riddims”, devido ao sucesso instantâneo que fez com seus primeiros trabalhos, cantados em cima das bases instrumentais de músicas bem conhecidas do rocksteady. Mas U Roy sempre se mostrou humilde acerca da sua herança (ver entrevista com ele no site do Massive Reggae). Quando o dono da voz marcante de “Wear you to the ball” e “Rule the nation” veio ao Brasil pela primeira vez, tive a feliz oportunidade de presenciar as suas apresentações em São Paulo e São Luís, além de conversar um pouco com ele. Ewart Beckford (seu nome de batismo) se mostrava na época bastante impressionado pelo que tinha acabado de acontecer nos Estados Unidos (estávamos em outubro de 2001) e insistia que o reggae não tinha nada a ver com terrorismo e sim com resistência ante as injustiças e a celebração da paz entre os homens. Como a maioria dos veteranos artistas da Jamaica, U Roy preferia falar mais dos últimos trabalhos e de seus planos para o futuro do que do passado. Assim, ele se mostrava bastante alegre com a acolhida que vinha tendo na Europa, particularmente na França, país em que tem gravado seus últimos trabalhos (na época "Serious Matter' e "Now", pela gravadora Tabou1), ao contrário da Jamaica, onde é lembrado apenas pela velha geração. |
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O Mas ele ainda resiste e tenta continuar a deixar sua marca na ilha, promovendo o seu próprio sound-system, o Stur Gav, que segundo ele é o único na Jamaica a fazer um som exclusivamente “cultural”. O Stur Gav foi criado em 1978 e foi bastante ativo até meados dos anos 1980, sendo uma das principais escolas para DJs que marcaram aquela época, como Charlie Chaplin, Brigadier Jerry, Josey Wales, U Brown e Ranking Joe, mas ainda está na ativa. Hoje ele trabalha com veteranos como John Holt (que segundo U Roy foi quem o apresentou a King Tubby e o fez gravar seu canto falado em cima dos sucessos de rocksteady lançados por Holt), artistas consolidados como Anthony B e novos nomes. Seu último CD foi lançado em 2003 e se chama “Rebel In Styylle”. Nesse trabalho o pai do bordão 'Wake the town and tell the people', sampleado por 10 entre 10 sound-systems de todo o planeta, divide os microfones com os cantores Anthony B, o recentemente falecido Brent Dowe (vocalista dos Melodians), o bissexto Thriller U e o veterano George Nooks. Aos 64 anos e pai de dez (!) filhos e filhas, a mais nova com 10 anos, U Roy vai viajando por todo o mundo para sustentar sua prole e levar seu estilo inconfundível de ‘toasting’ para os cinco continentes. Dessa vez suas apresentações no Brasil foram cercadas de mais expectativa, como convém a um artista da sua envergadura, gerando uma cobertura maior da imprensa. Infelizmente não pude vê-lo este ano, mas espero que ele ainda volte ao Brasil em outras ocasiões.
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Bom, vamos ficando por aqui, esperando voltar para apresentar mais notícias para os leitores do Central Reggae.
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