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OBSERVATÓRIO DO REGGAE

 

“Mento – música tradicional na Jamaica”

 

Textos por Leo Vidigal

 

Depois de termos uma idéia melhor de como os jamaicanos comemoram o Natal, vamos continuar nossa viagem por esse universo cultural, abordando um pouco das particularidades da Jamaica e do Caribe. Essa nova série vai tratar de duas bases importantes para a formação do reggae como o conhecemos hoje: a música tradicional caribenha e a língua jamaicana. No último texto vimos como as festividades de Natal na Jamaica têm muitas similaridades com as que ocorrem em outras ilhas do Caribe. Isso acontece principalmente nas ilhas que fizeram parte do antigo Império Britânico, como Jamaica, Trinidad e Tobago, Bahamas, Bermudas. Todas foram povoadas por grupos humanos de origem semelhante, isto é, primeiramente por indígenas arawak e carib, depois por espanhóis, pelos africanos de etnias ashanti, hausa e yoruba (trazidos como escravos até o início do século XIX) e, por último, pelos ingleses. Essa base comum iria ter suas conseqüências na produção musical. Por exemplo, até o final dos anos 1950 a música da Jamaica e Trinidad parecia muito semelhante, mas quem se dispusesse a ouvir os grupos musicais de cada ilha certamente notaria algumas diferenças. A influência mútua entre os dois países pode ser sentida até hoje, mas era mais audível nessa época. Voltando à Jamaica, vamos começar a tratar do estilo de música tradicional mais associado com essa ilha, que é chamado de “mento”.

 

Mento

 

O pesquisador americano Daniel Neely define o mento como “um estilo de dança, um tipo de canção, um ritmo e o nome de um gênero que era a música popular da Jamaica até os anos 1950”. Hoje em dia muitos o consideram como música folclórica, mas ele está bem vivo, como mostra a pesquisa de Neely, ou diluído em muitas canções do ska, reggae e até mesmo do dancehall. O mento é também a matéria–prima das canções de muitos artistas que se tornaram muito conhecidos no Maranhão, como Stanley Beckford, Eric Donaldson ou Justin Hinds. Mas antes de chegar na “Jamaica brasileira”, vamos começar pela “Jamaica caribenha”. Lá, até meados do século passado, todas as pequenas cidades e os vilarejos tinham o seu grupo, que tocava mento, quadrilha entre outros tipos de música, para que as pessoas dançassem. Na década de 1950 foram gravados os primeiros discos na Jamaica, que eram de mento ou “jamaican calypso”, como alguns chamavam. Eram de artistas como Count Owen, Count Lasher, Lord Tanamo, Chin’s Calypso Sextet, Count Alert, Lord Fly, Lord Messam e talvez o mais conhecido, Lord Flea (que chegou a gravar nos Estados Unidos e participou de alguns filmes de lá, mas faleceu prematuramente em 1959). Eles acabaram criando um mercado bastante dinâmico para a música popular, o que acabou se voltando contra eles, porque as populações urbanas, que compravam mais discos, começaram a rejeitar o mento. Isso porque tais canções são muito ligadas à Jamaica rural, derivando muitas vezes do trabalho dos escravos, como presenciou desde a infância a pesquisadora Olive Lewin. Ela conta que o ritmo do mento é composto por células de quatro batidas, com um acento na última, correspondendo ao movimento acentuado para baixo da enxada, quando esta é cravada na terra. Tais canções amenizavam a dura labuta nas plantações de cana e banana dos tempos coloniais, um tipo de vida que muitos habitantes das cidades queriam esquecer.


Assim, ainda antes da independência da Jamaica, em 1962, o mento acabou ficando à margem do mercado fonográfico da ilha. Mas na verdade ele continuou onde sempre esteve, isto é, nunca deixou de ser tocado no interior, embora boa parte da platéia e do sustento dos músicos tenham sido tirados pelo êxodo da população para as cidades. Ao longo dos últimos anos, muitos voltaram à fonte e continuaram a levar o mento adiante, montando grupos folclóricos como Lewin, além dos que continuaram a tocar, como Theodore Miller e sua banda, que pode ser ouvida num trecho de um documentário da BBC chamado Repercussions, filmado em 1982
[http://www.youtube.com/watc h?v=C181G_ s7h-s]. Nesse filme, antes do grupo de Miller fazer uma versão de “Linstead Market” (chamado nas notas de um disco antigo de mento de: “hino informal da Jamaica”), com rabeca, banjo e rumba box, a cantora e pesquisadora Louise Bennett, ou simplesmente Miss Lou, dá um depoimento arrebatado sobre como a música, do mento ao reggae, deve muito ao ritmo da língua jamaicana (vamos falar dela em outra coluna). Ela conta também que conversou com um senhor que tocava em uma banda de mento e perguntou: “de onde vêm todas essas canções?”, ao que ele respondeu “nós as plantamos!” [“wi grow it!”], o que lembra outra história, a de que as noites dedicadas ao mento aconteciam no dia em que o milho ficava pronto para colher. Nesse dia tão especial para os que dependem da terra, todos na fazenda ou no vilarejo colhiam o milho, depois o guardavam num canto e saíam para beber, contar histórias e dançar o mento até de manhã: “corn night, mento till daylight”, é justamente o que diz o provérbio jamaicano.


Mesmo depois da criação coletiva do ska, muitos artistas continuaram a fazer versões de música tradicional da Jamaica, como “Sammy Dead”, cantada por Eric “Monty” Morris, Stranger Cole, Desmond Dekker. Os grupos de ska foram pródigos em adaptar uma grande variedade de canções do mento, o que não é surpresa, dada a proximidade em termos de tempo e espaço. Clássicos como “Rukumbine” e “Penny Reel”, talvez mais conhecidos por suas versões em ska, foram originalmente mentos. Artistas como Lord Tanamo, Roland Alphonso e Tommy McCook também começaram suas carreiras gravando mento. Os Skatalites, banda-símbolo desse gênero (que contava com os dois últimos), gravou diversas versões de músicas tradicionais, como “Brown Skin Gal” (com os Gaylads), “River Bed”, “River come down”, entre outras. Prince Buster foi outro campeão do ska que adaptou o mento diversas vezes.

 

Isso aconteceu em todas as fases musicais da ilha. Mesmo grupos identificados com a vanguarda do reggae, como o Black Uhuru, adaptaram canções do mento (“Shine eye gal”). “Hill & Gully”, por exemplo, foi cantada em 1956 pelo ator e cantor trinidadiano Edric Connor no clássico do cinema americano Moby Dick, de John Houston, como uma canção típica do Caribe no século XIX, época onde se passava a história. Pois só ela já teve versões de I-Roy, Johnny Osbourne, Pinchers, Yellowman, Ini Kamoze, Tiger, General Trees e até do bad boy da vez Elephant Man. Em várias faixas de dancehall, podem ser ouvidas melodias ou letras tiradas de antigos mentos, revelando que a forma jamaicana de fazer música flui sobre uma base tradicional dinâmica, sem que as canções originais tenham se perdido.


Entre os representantes do reggae propriamente dito, Max Romeo está entre os que mais fizeram versões diretas de mento, como em “Chi chi bud”, “Sweet chariot” ou adaptações como “Babylon Burning” (aproveitando apenas a melodia de "Mama Me Wan Fe Work"), entre outras. Essa última faixa sugere que essa influência talvez tenha vindo do mago Lee Perry, que também apreciava as jóias do interior, como “Ten Penny Nail”, “Goosey” e “Finger Mash”. Grupos como Melodians, Maytones, Ethiopians, Culture, Meditations, Paragons, Pioneers, Techniques, Wailing Souls, entre muitos outros, incluíram mentos no repertório, na maioria das vezes adaptados.

 

Para não falar que não falei dos Wailers, o mento está certamente entre as lembranças de infância de Marley, que tinha um avô (Omeriah) e um tio que tocavam nos conjuntos musicais de Nine Miles. A primeira música gravada por Marley, o ska “Judge Not”, usa uma flauta de madeira, mais associada ao mento do que ao ska. “Seeco” Patterson, um dos maiores amigos de Marley e percussionista dos Wailers em sua última fase, havia tocado nos anos 1950 com artistas destacados do mento, como Lord Flea. Um dos skas que os Wailers fizeram para Coxsonne, “Rude boy ska” (depois regravada com Lee Perry como “Rebel’s Hop”, com a letra alterada), citava trechos do mento tradicional “Wheel and Turn Me" (que também é cantado e tocado na flauta de madeira por um jamaicano no trecho de Repercussions aqui linkado). Outra versão dos Wailers para Coxsonne, “Shame and Scandal" é uma das canções tradicionais caribenhas mais adaptadas em todo o mundo (até no Brasil, com versões alteradas de Renato e seus Blue Caps e Sergio Mallandro). “Rocking Steady” também aproveitava a melodia de uma canção antiga, embora trouxesse na sua letra uma louvação a outro gênero, o rocksteady. Peter Tosh (“Rasta Shook them up”, “Leave My Business”, "Whatcha Gonna Do”, entre outras) e Bunny Wailer (“Love Fire”, “Here In Jamaica” , entre outras) também regravaram ou adaptaram canções tradicionais.


Mas foram artistas como Jolly Boys, Stanley Beckford e Sugar Belly, mais focados no mento, e Eric Donaldson (ver biografia no site Massive Reggae), novamente Stanley Beckford e Justin Hinds, pelo lado do reggae, que adotaram a batida sincopada do mento com mais intensidade. Em praticamente todas as canções de Hinds, como “Carry Go Bring Come” ou “Hey Mama” existe um característico “sabor rural”. Eric Donaldson também deve muito de seu estilo vocal a artistas do mento, como o recentemente falecido Alerth Bedasse (Count Alert), assim como outro favorito da massa regueira do Maranhão, Stanley Beckford, que também é um dos poucos casos em que um cantor passou do reggae ao mento e não o contrário. Mas ele vai merecer uma coluna à parte, a próxima dessa série.


Nos últimos tempos, houve uma acentuada procura pelo mento, da parte de colecionadores de música, principalmente pesquisadores como Neely. Ele vem realizando um trabalho respeitável, procurando instrumentistas e cantores que já haviam se aposentado da vida artística e colocando-os em contato novamente, além de resgatar bandas que ainda tocam o mento no interior da Jamaica. É um estilo que ainda pode apresentar muitas surpresas, pois existem colônias de jamaicanos e descendentes espalhadas pelo Caribe em lugares como Belize, Honduras, Nicarágua e Costa Rica, que também praticam a música tradicional. Enfim, é uma rede musical e cultural que se estende tanto horizontalmente, no espaço, como no tempo e que faz parte da estrutura mais profunda do reggae e de outros estilos de inspiração jamaicana.

 

Saiba mais sobre o mento nos sites Mento Music e You and me on Jamboree, basta procurar em um site de busca.



   
 
 
   
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