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OBSERVATÓRIO DO REGGAE

 

Stanley Beckford (1942-2007) – uma vida reggaementando a música,

 

O cantor jamaicano de reggae e mento enfrentou a mais dura batalha de sua vida nesse ano, vindo a falecer no final de março.
 

Textos por Leo Vidigal

A série sobre mento do Observatório do Reggae foi encerrada de uma forma que ninguém poderia querer. Quando escrevia o primeiro texto sobre a linhagem básica do reggae, publicado no Central Reggae no começo de março, o cantor e compositor Stanley Beckford logo se destacou, merecendo assim um texto inteiramente dedicado a ele. Depois de enviá-lo para ser publicado, fiz uma viagem e somente na minha volta fiquei sabendo que ele havia falecido pouco antes. Por isso fui forçado a modificar o que já tinha escrito. Mas o que não mudou foi a admiração por esse artista extraordinário, cuja partida causa imensa tristeza a todos os que o conheceram pessoalmente ou por intermédio de seu trabalho.

Stanley Beckford nasceu em 17 de fevereiro de 1942, no condado jamaicano de Portland, vindo a perder os pais muito cedo, tendo, por isso, que sair de sua terra para se estabelecer em Kingston, junto com sua irmã Beryl. Depois de cantar em igrejas e participar de concursos de calouros, Stanley se juntou aos Starlights em 1960 e gravou com eles diversos discos até 1978. Dois anos depois formou o grupo Stanley and the Turbines com Vallin Powell e Milton Ford, para se apresentar no Festival da Canção Popular da Jamaica, o mais importante do país. Com eles ou como artista solo, Beckford ganhou quatro vezes esse festival, com as canções “Dreamin' Of A New Jamaica”, “Dem Haffi Squirm”, “Dem A Pollute” e “Fi Wi Island a Boom”, a responsável por sua última vitória, em 2000. Nesse ano ele ainda ganhou o troféu de melhor performance no palco. Quem presenciou os seus shows garante que ele sempre se apresentava com uma reserva de energia inigualável, combinando sua música com o gingado característico. O estilo vocal de Beckford, que segundo estudiosos é muito semelhante ao cantor de mento Harold Richardson, era perfeito para versões de antigas canções tradicionais, como "Balm Yard", "Big Bamboo", "Dip Dem", "Samfie Man", "Chi Chi Bud", "China Man From Montego Bay", entre outras, fazendo com que sua música fosse às vezes denominada de “mento-reggae”. No começo dessa década ele passou a se apresentar com a Rod Dennis Mento Band no circuito de hotéis e, depois de um tempo sem gravar, lançou discos no mercado francês, como “Reggaemento”.

Mas ele também era um compositor de sucesso, com músicas como “Soldering”, “Donkey Man”, “Broom Weed” e “Mama D”. As suas origens na tradição oral do campo se fazem sentir quando compõe uma música. Em uma entrevista garantiu que para criar só precisava “de um pouco de rum, um cigarro e um violão”. “E para saber o que fiz”, acrescentava, “você precisa me ouvir, porque não escrevo nada no papel, fica tudo na cabeça”. Suas letras tratavam da vida no campo e suas peculiaridades, algumas vezes carregando no duplo sentido e mostrando que a vida sexual das velhas gerações era mais apimentada do que muitos pensam. Apesar da sua popularidade, principalmente no interior, estava difícil gravar na Jamaica ultimamente, porque segundo ele, “a indústria musical está em baixa”, mas de vez em quando fazia dubplates para sobreviver, colocando voz em versões exclusivas de músicas dele e de outros, para sound-systems do Japão e da França. “Se o produtor certo aparecer e trabalhar para valer, gravo para ele”, garantia. Mas isso não era nada para quem sempre trabalhou duro: “já trabalhei como chef em um restaurante e também cozinhei para a polícia”. Mas seu maior orgulho nos últimos anos era o sucesso que fez no Maranhão, o que certamente foi decisivo para que ele pudesse reerguer sua carreira.

Para o jornal jamaicano Daily Gleaner, Beckford declarou que “quando vou lá a polícia tem que fazer um esquema especial no aeroporto. O pessoal fica louco quando vê o Eric Donaldson, o Jimmy London e eu. Cantamos lá para mais de 250 mil pessoas”, mostrando depois para o jornalista um pouco de português que aprendeu no Brasil. A primeira vez em que Beckford se apresentou em São Luís foi no I Festival da Integração realizado em setembro de 1993. Ele voltou à capital maranhense por mais duas vezes e em outras três ocasiões fez shows em Salvador, sendo que uma delas foi transmitida pela TV educativa baiana. Mas já fazia algum tempo que ele não voltava às terras brasileiras, o que pode ser creditado aos problemas de saúde que vinha tendo nos últimos tempos.

Sobre isso, uma matéria da imprensa jamaicana, do final de 2006, não trazia notícias muito boas, dando conta de que Stanley teria sido diagnosticado como portador de um tumor na garganta. Na época ele comentou para o jornal que “Graças a Deus estou me sentindo melhor do que antes agora que comecei a tomar a medicação”. Contando com a preciosa ajuda de sua esposa Thelma, ele dizia que “não posso me queixar, pois ela está pronta para cuidar de mim”. Sobre sua carreira, dizia que ainda conseguia cantar, mas que não sabia se poderia continuar a fazer shows e compor regularmente, “estou nas mãos de Deus”, ele afirmou, mas não se sentia triste porque “compus tantas canções que foram para o topo das paradas, como ‘Soldering’, ‘Kisiloo’, ‘Brown Gyal’, além das que ganharam os festivais”. A única coisa que o aborrecia é que os artistas veteranos muitas vezes não recebiam o que deveriam pelos discos gravados em tantos anos e pelos shows: “não recebemos nossa parte de direito”.

Infelizmente o tumor foi diagnosticado tarde demais e o tratamento não foi suficiente para revertê-lo. Beckford morreu nos braços da sua esposa no último dia 31 de março, deixando ainda cinco filhas e dois filhos, todos vivendo fora da Jamaica. Stanley Beckford deixou um legado importante para a música jamaicana, retomando e reelaborando algumas das formas musicais mais básicas produzidas na ilha. Deixou também uma legião de fãs no Brasil e na Jamaica, unindo os dois países na admiração pela música do cantor e compositor, que cantava a vida simples com lirismo e irreverência.

 

 
   
 
 
   
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