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OBSERVATÓRIO DO REGGAE

 

Patois ou jamaicano?
A língua da Jamaica em questão – parte 1

 

Textos por Leo Vidigal

 

Para quem quer entender as letras que compõem as canções do reggae cantado pelos artistas jamaicanos, a língua às vezes é um obstáculo quase intransponível. Isso porque, apesar do idioma oficial da ilha caribenha ser o inglês, a maioria da população fala praticamente outra língua, que organiza as palavras através de uma gramática derivada das línguas da África Ocidental. Os termos usados vêm variados línguas africanas e outras de origem inglesa, indígena, espanhola, chinesa, indiana e portuguesa. Ela reflete a variedade dos grupos humanos que povoaram a Jamaica desde quando os primeiros índios lá aportaram. Por não ser considerada como língua oficial ela não tem um nome fixo, alguns a chamam de patois (pronuncia-se patuá), outros de inglês jamaicano, outros simplesmente de jamaicano. Para quem acompanha tudo isso de fora e gosta de ouvir o reggae e o ska (e o dub, mento, rocksteady etc), também é interessante notar como o ritmo da língua falada influencia os ritmos trabalhados na música popular. Mas como essa língua se desenvolveu o qual são os sentidos dessa polêmica para nós?

Origens

Línguas como essas, também chamadas de creoles, são faladas em diversas ilhas do Caribe, como o Haiti, Aruba e Curaçao. Estas duas últimas, por exemplo, falam uma mistura de holandês e português que chamam de papiamento, que se desenvolveu a partir da chegada dos escravos trazidos pelos holandeses do nordeste do Brasil, depois de terem sido expulsos de lá em 1654. As primeiras “línguas de contato” entre colonizadores europeus, africanos escravizados e indígenas são chamadas de “pidgin”, que foram se formando espontaneamente pelo equilíbrio (ou desequilíbrio) entre as necessidades de comunicação e pelas políticas de restrição. Os escravos que chegavam da África geralmente eram proibidos de falar suas línguas nativas, mas também não conheciam o idioma inglês (no caso da Jamaica), por isso os donos das fazendas tinham que permitir alguma mistura das línguas. Outra tática usada pelos donos era de comprar escravos de várias etnias e línguas diferentes para evitar que se comunicassem, o que os forçava a usar o idioma inglês para falarem entre si. Palavras essenciais que não eram encontradas no inglês, como nomes de plantas, animais e atividades (especialmente as religiosas e as musicais) eram tiradas da língua indígena (como o próprio nome “Jamaica”, ou forças da natureza atuantes no Caribe, como “hurricane”, aqui aportuguesado para “furacão”) e de uma variedade de línguas da África Ocidental. Mas outras línguas também participaram dessa construção da fala. Um exemplo é “pickney”, termo muito usado pelos jamaicanos para designar crianças, que viria do português “pequenino”, o que pode ser explicado pelo fato dos portugueses terem monopolizado por algum tempo o tráfico negreiro nas Américas.

Os falantes do “pidgin” certamente não a tomavam como língua materna, mas os seus filhos sim. Provavelmente foi assim a criação da língua jamaicana. Depois que a escravidão foi abolida nas colônias inglesas, em 1838, chegaram na Jamaica imigrantes da China, Síria e Índia, acrescentando novas palavras para o vocabulário local, como “bangarang”, que vem do hindu e significa “tumulto”. Com a independência do país, em 1962, a educação foi democratizada, mas a língua baseada no uso oral se manteve, o que gera até hoje conflitos entre as crianças, que aprendiam  uma língua diferente da que falavam em casa, interpretada na escola muitas vezes como “errada”. Esse conflito acontece até hoje porque a língua jamaicana nunca teve sua escrita padronizada, como aconteceu com as línguas européias (idiomas como o italiano ou português foram por muito tempo chamados de “latim vulgar”, até que fossem desenvolvidas regras mais rígidas de ortografia e gramática).

Hoje

Mas em uma cultura onde a oralidade é predominante, como na Jamaica, isso não aconteceu. Lá se escreve a língua local como se fala e todas as letras grafadas são pronunciadas, nenhuma é redundante.  Por isso a escrita tem muitas variações, como na canção de Tosh, “Them a fe get a beatin”, que pode também ter o nome de “De ma fi get a beatin” (eles têm que ser vencidos). Falando em  Tosh, as novas palavras que ele inventou, como “downpressor”, mostram que a fala jamaicana também envolve apropriação e criatividade, ao mesmo tempo que mantém uma matriz muito antiga. Um exemplo claro dessa continuidade são os xingamentos jamaicanos, como “bumba clot” (nome de outra canção de Tosh),  que são usados há mais de trezentos anos apesar de claramente anacrônicos, de uma época em que panos (cloth) eram a única opção para a higiene pessoal.

 

 

 

 

 

"Miss Louise Bennett, cantora e escritora recentemente falecida e muito querida na ilha, foi uma das primeiras artistas a usar a língua jamaicana em suas publicações".

 

 

 

 


As novas palavras ou expressões foram sendo formadas por uma grande variedade de processos. Algumas foram por combinações, como em “boasie”, que mistura o yorubá “bosi” (orgulhoso) com o inglês boastful (prepotente), outras por adaptações como a já citada “pickney” ou “picky picky head” (dreadlocks pequenos, em formação), ou ainda originadas de onomatopéias, como “cho” ou “rahtid”. A fala dos rastafaris é um capítulo à parte, com sua complexa alteração de palavras com o acréscimo do prefixo “I”, que segundo alguns estudiosos, representaria a unidade do ser humano, a natureza e a divindade de Selassie, como em “I-tal”, “I-nity”, etc (o que será assunto da segunda parte dessa série).


Mesmo que não tenha se tornado um idioma padronizado, a língua jamaicana há muito tempo rompeu a barreira da fala. Hoje ela pode ser lida nos jornais, em livros de prosa, como na novelização de Michael Thewell para o filme The harder they come e também de poesia,  como na dub poetry de Linton Kwesi Johnson, Mutabaruka e Oku Onuora, chegando ainda aos textos acadêmicos, como os da professora doutora jamaicana Carolyn Cooper. Mas ela ainda é mais audível na TV, no rádio e nas canções do reggae, dancehall, mento, ska, rocksteady. Ela é muitas vezes depreciada em seu local de origem, principalmente pela classe mais abastada, que sempre falou o inglês convencional e nunca se preocupou com uma língua que considera “degenerada”. Mas também pode ser bastante valorizada em outros lugares. Entre os promotores e freqüentadores dos sound-systems japoneses, europeus ou sulamericanos, quem domina a língua jamaicana ganha “capital cultural”.


 

 

"A professora Carolyn Cooper ensina na West Indies University da Jamaica".


 

 

 

O ritmo da língua foi determinante na composição dos diversos estilos musicais na ilha caribenha. O sotaque característico da Jamaica também se modificou desde os tempos da escravidão e hoje apresenta diferenças sutis de região para região. Em outros artigos vamos analisar alguns exemplos do uso da língua jamaicana no reggae.

Um “dicionário rasta-patois-português” pode ser lido no site Massive Reggae.

 
   
 
 
   
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