Nessa edição do Observatório, vamos iniciar uma parceria com Lucas
Magalhães, historiador formado pela Universidade Federal de Ouro Preto, em
Minas Gerais, que vem pesquisando e colecionando o melhor da música
jamaicana há muitos anos. Também conhecido como corpo-santo, foi um dos
fundadores do sound-system Dub Versão, coletivo que agita as noites dub de
São Paulo. Atualmente está em carreira solo, mostrando o melhor do dub
jamaicano, inglês, além de pérolas do ska, rocksteady e early reggae, tudo
em Lps e compactos de vinil de 7 e 10 polegadas.
Nessa coluna, Lucas chama a
atenção para um lado pouco considerado ou pesquisado da música popular: a
sua relação com a tecnologia, sempre mutante, um fator que, no caso da
produção musical na Jamaica, talvez seja mais importante para o processo de
transformação artística do que a performance ao vivo. A coluna sobre a fala
peculiar dos rastafaris, que seria a segunda parte do texto sobre a língua
jamaicana, fica para a próxima.
TÉCNICA E ARTE
Lucas Magalhães
A musica jamaicana é vasta e interessantíssima, assim como a
brasileira. Porém, a tecnologia alcançada para seu registro e divulgação,
algo determinante na música da Jamaica, que faz parte das antigas Índias
Ocidentais (nome que era dado nos tempos coloniais para aquela parte do
mundo, que até hoje ainda é usado para denominar, por exemplo, a West Indies
University, a principal da região caribenha), é sem dúvida um ponto de
diferença entre a música brasileira e a da ilha caribenha.
Estou falando de estúdios de gravação e dos chamados Sound Systems. Não
deve ser difícil imaginar que na segunda metade dos anos 50, equipamentos
ingleses de gravação chegaram à ilha. Obviamente não se tratava de
equipamentos de ponta, pelo contrário, é provável que a cada avanço da
tecnologia de registro sonoro na metrópole, uma leva de antigos gravadores,
microfones, mesas e máquinas de corte chegasse na Jamaica.
Acredito que logo, ainda nos anos 50, os jamaicanos que se debruçaram sobre
esse maquinário, afim de registrar a musica local, tiveram de ousar e muito
para que a sonoridade do que gravavam fosse a mais fiel com a musicalidade
gravada. E nisso, foram verdadeiros mestres.
Ouvindo antigos compactos, principalmente de dois estúdios, o de Prince
Buster (Blue Beat) e o de Coxsone Dodd (Studio One), ouço ali que toda
precariedade e relativa defasagem dos equipamentos utilizados foram
sabiamente postos a favor da sonoridade desejada. O som desses compactos
monos, mesmo rudes, é de um peso e presença de som invejáveis a qualquer
Odeon de primeiro mundo. A música ali impressa é forte, alta, com graves
marcantes!
Mas a genialidade desses afro-caribenhos em se tratando de tecnologias
de som não parava ali e, no começo dos anos 70, ela passava a ser parceira
da própria musica, no caso, o reggae e sua forma crua e bruta, o dub. O
interessante nesse movimento todo é que desconheço precedente histórico em
que um povo pobre recrie e reinvente equipamentos antigos, pondo-os a
serviço de uma sonoridade específica, que por sua vez soava em parceria com
a música local!
Tento exemplificar comparando Jamaica ao Brasil.
As melhores prensas de discos brasileiros ocorreram nos anos 60 em alguns
selos (ou etiqueta, como era mais comum). Até os anos 70 ainda se tirava uma
sonoridade interessante dos LPs nacionais. Mas a partir dos anos 80 esse
quesito – tênue, não nego - perdeu-se. O som que se ouve nos LPs brasileiros
a partir desse época é flat, com pouca ou nenhuma vivacidade, um puro e
simples registro, sem milímetros, ou decibéis além. Isso me leva a crer que
as boas prensas dos anos 60 foram ocasionais e isoladas, ou seja, a técnica
não era endêmica, mas incidental.
Na questão da sonoridade dos discos jamaicanos, talvez o X da questão
possa estar nos Sound Systems. Através dessas equipes de som, os estúdios
promoviam noitadas dançantes onde, alem da diversão local, eram divulgados
os recentes hits gravados e ainda eram testados na prática a sonoridade dos
discos, aperfeiçoando-a através da prensagem única dos dubplates. Que
interessante dialética tecno-musical!
Com o advento do dub essa dialética, como num jogo de espelhos, se repete
infinitamente num estonteante diálogo entre forma e conteúdo.
Obviamente que tão refinado sistema, em que a arte dominou magistralmente
suas vias, não seria tão significativo não fosse a riquíssima musicalidade
do povo jamaicano... uma mistura musical dos índios locais, com a de negros
de diferentes partes da África e depois influenciada através de ondas curtas
vindas de New Orleans.
Nota:
Depoimentos colhidos ao longo dos anos entre os produtores da Jamaica
relatam como foram desenvolvidos alguns dos efeitos que hoje ouvimos nos
dubs “clássicos” (aqueles realizados entre o começo da década de 70 e meados
da década de 80 na Jamaica). King Jammy, que trabalhou com King Tubby a
partir de 1976, conta que ele havia adquirido do estúdio Dynamics, então o
melhor de Kingston em termos tecnológicos, uma antiga mesa de quatro canais
que havia sido feita especialmente para eles por uma companhia americana, a
MCI. Ela tinha efeitos que mesas mais modernas não possuíam mais, como os
filtros “high-pass” que fabricaram alguns dos sons pelos quais os primeiros
dubs ficaram conhecidos e que nunca mais foram reproduzidos, dando uma
sonoridade única para tais faixas. Ele permitia modificar as freqüências
dos graves, de acordo com a habilidade do operador da mesa.
Da mesma forma, distorções, rupturas, acumulações, fragmentações,
reverberações e inserções sonoras foram combinadas com manipulações nos
circuitos dos equipamentos, na velocidade das fitas magnéticas, microfonias,
ecos, entre outras intervenções que foram testadas durante esse período.
Leia mais sobre dub no site Massive Reggae, como a incrível história do
irmão esquecido de King Tubby, o descobridor de alguns efeitos sonoros
consagrados nos laboratórios secretos jamaicanos. (Leo Vidigal)
Fotos:

Orbourne "King Tubby" Ruddock foi o engenheiro de
som que mais experimentou com as técnicas do dub e foi o primeiro a"assinar" suas intervenções musicais como se fossem suas próprias músicas, no melhor estilo de Marcel Duchamp.

Lee Perry, que se apresentou no Brasil
em 2007, acusou King Tubby em sua biografia de ter copiado suas idéias, mas concorda que sua parceria com Ruddock foi uma das melhores de sua vida. |