Home
Rádio
Notícias
Agenda
Fórum
Surf noCentral
Fotos
Contato
 Institucional
 Programa Localidades
 Outros Programas FM
 Rádio OnLine
 Contato
 Surf no Central
 Agenda
 Bandas
 Entrevistas
 Notícias
 Fotos
 Livros
 CD´s
 Roupas
 Vídeos
 DVD's
 Letras
 Cifras
 Fórum
 Coberturas
 Promoções
 Proteção de Tela
 Papel de Parede
 Selo Central Reggae
 Dagô & Radical Roots
 Mystical Roots
 Reggae Style
 Pure Feeling
 Macucos
 Nabby Clifford
 Tiken Jah Fakolly

 

 Fale com o Webmaster
 Midia Criativa Design www.midiacriativa.com

 

OBSERVATÓRIO DO REGGAE

 

TÉCNICA E ARTE

 

Textos por Leo Vidigal

Nessa edição do Observatório, vamos iniciar uma parceria com Lucas Magalhães, historiador formado pela Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais, que vem pesquisando e colecionando o melhor da música jamaicana há muitos anos. Também conhecido como corpo-santo, foi um dos fundadores do sound-system Dub Versão, coletivo que agita as noites dub de São Paulo. Atualmente está em carreira solo, mostrando o melhor do dub jamaicano, inglês, além de pérolas do ska, rocksteady e early reggae, tudo em Lps e compactos de vinil de 7 e 10 polegadas.

 

Nessa coluna, Lucas chama a atenção para um lado pouco considerado ou pesquisado da música popular: a sua relação com a tecnologia, sempre mutante, um fator que, no caso da produção musical na Jamaica, talvez seja mais importante para o processo de transformação artística do que a performance ao vivo. A coluna sobre a fala peculiar dos rastafaris, que seria a segunda parte do texto sobre a língua jamaicana, fica para a próxima.

TÉCNICA E ARTE
Lucas Magalhães

A musica jamaicana é vasta e interessantíssima, assim como a brasileira. Porém, a tecnologia alcançada para seu registro e divulgação, algo determinante na música da Jamaica, que faz parte das antigas Índias Ocidentais (nome que era dado nos tempos coloniais para aquela parte do mundo, que até hoje ainda é usado para denominar, por exemplo, a West Indies University, a principal da região caribenha), é sem dúvida um ponto de diferença entre a música brasileira e a da ilha caribenha.


Estou falando de estúdios de gravação e dos chamados Sound Systems. Não deve ser difícil imaginar que na segunda metade dos anos 50, equipamentos ingleses de gravação chegaram à ilha. Obviamente não se tratava de equipamentos de ponta, pelo contrário, é provável que a cada avanço da tecnologia de registro sonoro na metrópole, uma leva de antigos gravadores, microfones, mesas e máquinas de corte chegasse na Jamaica.


Acredito que logo, ainda nos anos 50, os jamaicanos que se debruçaram sobre esse maquinário, afim de registrar a musica local, tiveram de ousar e muito para que a sonoridade do que gravavam fosse a mais fiel com a musicalidade gravada. E nisso, foram verdadeiros mestres.


Ouvindo antigos compactos, principalmente de dois estúdios, o de Prince Buster (Blue Beat) e o de Coxsone Dodd (Studio One), ouço ali que toda precariedade e relativa defasagem dos equipamentos utilizados foram sabiamente postos a favor da sonoridade desejada. O som desses compactos monos, mesmo rudes, é de um peso e presença de som invejáveis a qualquer Odeon de primeiro mundo. A música ali impressa é forte, alta, com graves marcantes!


Mas a genialidade desses afro-caribenhos em se tratando de tecnologias de som não parava ali e, no começo dos anos 70, ela passava a ser parceira da própria musica, no caso, o reggae e sua forma crua e bruta, o dub. O interessante nesse movimento todo é que desconheço precedente histórico em que um povo pobre recrie e reinvente equipamentos antigos, pondo-os a serviço de uma sonoridade específica, que por sua vez soava em parceria com a música local!


Tento exemplificar comparando Jamaica ao Brasil.


As melhores prensas de discos brasileiros ocorreram nos anos 60 em alguns selos (ou etiqueta, como era mais comum). Até os anos 70 ainda se tirava uma sonoridade interessante dos LPs nacionais. Mas a partir dos anos 80 esse quesito – tênue, não nego - perdeu-se. O som que se ouve nos LPs brasileiros a partir desse época é flat, com pouca ou nenhuma vivacidade, um puro e simples registro, sem milímetros, ou decibéis além. Isso me leva a crer que as boas prensas dos anos 60 foram ocasionais e isoladas, ou seja, a técnica não era endêmica, mas incidental.
Na questão da sonoridade dos discos jamaicanos, talvez o X da questão possa estar nos Sound Systems. Através dessas equipes de som, os estúdios promoviam noitadas dançantes onde, alem da diversão local, eram divulgados os recentes hits gravados e ainda eram testados na prática a sonoridade dos discos, aperfeiçoando-a através da prensagem única dos dubplates. Que interessante dialética tecno-musical!


Com o advento do dub essa dialética, como num jogo de espelhos, se repete infinitamente num estonteante diálogo entre forma e conteúdo.
Obviamente que tão refinado sistema, em que a arte dominou magistralmente suas vias, não seria tão significativo não fosse a riquíssima musicalidade do povo jamaicano... uma mistura musical dos índios locais, com a de negros de diferentes partes da África e depois influenciada através de ondas curtas vindas de New Orleans.

Nota:


Depoimentos colhidos ao longo dos anos entre os produtores da Jamaica relatam como foram desenvolvidos alguns dos efeitos que hoje ouvimos nos dubs “clássicos” (aqueles realizados entre o começo da década de 70 e meados da década de 80 na Jamaica). King Jammy, que trabalhou com King Tubby a partir de 1976, conta que  ele havia adquirido do estúdio Dynamics, então o melhor de Kingston em termos tecnológicos, uma antiga mesa de quatro canais que havia sido feita especialmente para eles por uma companhia americana, a MCI. Ela tinha efeitos que mesas mais modernas não possuíam mais, como os filtros “high-pass” que fabricaram alguns dos sons pelos quais os primeiros dubs ficaram conhecidos e que nunca mais foram reproduzidos, dando uma sonoridade única para tais faixas. Ele permitia  modificar as freqüências dos graves, de acordo com a habilidade do operador da mesa.


Da mesma forma, distorções, rupturas, acumulações, fragmentações, reverberações e inserções sonoras foram combinadas com manipulações nos circuitos dos equipamentos, na velocidade das fitas magnéticas, microfonias, ecos, entre outras intervenções que foram testadas durante esse período. Leia mais sobre dub no site Massive Reggae, como a incrível história do irmão esquecido de King Tubby, o descobridor de alguns efeitos sonoros consagrados nos laboratórios secretos jamaicanos. (Leo Vidigal)


Fotos:


 

Orbourne "King Tubby" Ruddock foi o engenheiro de som que mais experimentou com as técnicas do dub e foi o primeiro a"assinar" suas intervenções musicais como se fossem suas próprias músicas, no melhor estilo de Marcel Duchamp.


 

Lee Perry, que se apresentou no Brasil em 2007, acusou King Tubby em sua biografia de ter copiado suas idéias, mas concorda que sua parceria com Ruddock foi uma das melhores de sua vida.

 
   
 
 
   
© Copyright Central Reggae - Todos os direitos reservados                                                                                        centralreggae@centralreggae.com.br