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TIKEN JAH FAKOLY
Françafrique
O Rebelde Quieto!!!
Acordem e vejam! A África está em
pior forma do que nunca e cada vez menos pessoas parecem se preocupar.
Um único exemplo é suficiente para ilustrar esta amarga verdade:
desde 2002, enquanto grande parte do mundo estava preocupada por
estar fazendo menos dinheiro, a África despontou como o único
continente com crescente pobreza. É triste chegar à conclusão
de que a atenção da mídia não estará focada no que acontece do
lado sul do Mar Mediterrâneao.
Como resultado, estudos universitários
profundos e sem perspectivas futuras, a guerra pela sobrevivência
se parece mais e mais com o texto de Rat Race de Bob Marley. A
juventude africana continuará se perguntando o que fez para merecer
tal destino... Com Françafrique, seu primeiro álbum para o selo
francês Barclay (BMG), o sexto de sua carreira musical que começou
agosto de 1991 num teatro em sua cidade natal Odienné, no noroeste
da Costa do Marfim, perto da fronteira com a Guiné e Mali, Tiken
Jah Fakoly tem pouca chance de prevenir novas tragédias.
Ele, que também usa o nome do Tenente
Fakoly (líder de guerra de uma conquista mítica, Sundjata Keïta),
tem tudo o que é necessário para ser o porta-voz da jovem geração
africana, recusando-se a ser sacrificado no altar da globalização
e da corrupção.
O que pode-se dizer é que um continente
inteiro esperava por seu álbum, Françafrique, onde Tiken Jah,
um muçulmano do grupo étnico Dioula, foi avançando com dificuldades
até chegar onde queria, martelando seu ponto de vista na faixa
de introdução. O que é mais universal, na verdade, do que o pulsante
reggae de raiz para levar a mensagem de Françafrique mais longe
que o oeste da África e dos países de língua francesa, tendo feito
a faixa Mangercratie, apresentada aqui juntamente com o jamaicano
DJ Anthony B, com um sucesso enorme (mais de 400.000 cassettes
vendidos) em 1996? E o que é mais emblemático entre a nova geração
de artistas africanos do que o palavreado militante e bem colocado
de Tiken Jah Fakoly da Costa do Marfim? No espaço de uma década,
este jovem homem em seus trinta anos restabeleceu o pedigree de
um reggae africano que perdeu o seu caminho em virtude de muitos
compromissos políticos.

Para o rebelde quieto, ao contrário
de seu predecessor Alpha Blondy, não há dúvidas em jurar obediência
ao partido da situação ou se perder no misticismo. Como Tiken
Jah reconhece, mesmo uma figura de oposição de longa data como
Alassane Ouattara, um "mandingue" como ele mesmo, não escaparia
à crítica no caso de um dia estar no poder. O único partido de
Tiken Jah, de fato, é o dos "bramogos", o povo jovem dos guetos
de Abidjan em Yopougon, Abobo e Adjame. É um partido além da origem
geográfica e étnica que se sente constantemente abandonada pelos
políticos.
Desde a morte do presidente Félix
Houphouët-Boigny em 1973, pai da nação Costa do Marfim, a distância
entre a classe dominante e a juventude tem aumentado constantemente,
através da crise econômica, de atitudes não patrióticas, e na
caída do preço do cacau.
Primeiro, foi o desastre do governo
Bédié, chamado de "Conan, o Bárbaro", marcado, entre outras coisas,
por uma repressão terrível às greves estudantis. Depois veio a
efêmera quimera que foi o regime do General Guëi - a quem a faixa
Le Balayer é dedicada - e que terminou com o massacre de 57 jovens
em Yopougon em outubro de 2000. Desde então, tem sido a vez do
presidente Laurent Gbagbo navegar o navio estatal. Agora, se algum
progresso notável foi feito desde a posse do líder do FPM (Frente
Popular da Costa do Marfim) - a longa conferência de reconciliação
nacional no outono de 2001 pretendia reunir antigos rivais -,
a situação dos jovens ainda não mudou.
Basta ouvir a comovente Le Pays Va
Mal para entender que Tiken Jah Fakoly continua insatisfeito.
Os políticos mudam, mas os problemas persistem e muitas vezes
pioram. Divisões reinam. País-símbolo franco-africano, que contém
uma comunidade francesa de mais de 20.000 expatriados, a Costa
do Marfim continua à mercê de uma nova explosão de revolta da
sua população descontente, que está encarando crescentes e óbvias
desigualdades entre o governo e o povo.
Politicamente engajado no sentido
mais nobre, e ouvido pelo povo, Tiken Jah Fakoly é um artista
que denuncia uma série de problemas: injustiças, pós-neocolonialismo,
tribalismo, corrupção, Serra Leoa, Congo, Angola, etc. Ele também
admite, na faixa Délivrance, a fadiga por sempre ter gritado no
deserto.
E a apaixonada Y'en a Marre, o primeiro
"single" do álbum, onde ele não hesita em dar total vazão à sua
fúria. Mas por tudo isso, Tiken Jah Fakoly não é um artista que
desiste. Mais que nunca, ele é um oponente às novas linhas da
sociedade africana. E por trás dele, do sul-africano Kwaito a
Gana, do "zouglou" da Costa do Marfim ao novo "afrobeat" nigeriano,
há uma nova geração de porta-vozes finalmente chegando aos nossos
ouvidos, como o lamento de África, com percussão "niabinghi" acompanhada
de "mandingue kora".
Após as expectativas da "world music"
nos anos 80, levou-se mais de uma década para que essa nova onda
finalmente chegasse a nós. Há muito o que esperar de uma nova
geração que afirma ser o futuro da África, que se interessa pelo
problemas e que não quer viver do seu passado.
Sóbrio ainda que formidável, pan-africano,
feito em Kingston e em Abidjan, Françafrique vem com emocionantes
novidades, depois de tanta má notícia. E para todos os ocidentais
que o escutam, o álbum vem como um novo chamado: Ei, Mundo, já
não é hora de todos acordarem? Françafrique, o álbum Após uma
viagem à Jamaica para mixar seu álbum anterior Cours d'Histoire,
Tiken Jah Fakoly, que antes de mais nada considera Hailé Sélassié
como "uma cabeça africana ligada às origens da Unidade Africana
de Organização" e não como um ícone místico, finalmente conseguiu
gravar Françafrique. As bases rítmicas deste álbum de puro reggae
de raiz foram gravadas no lendário estúdio Tuff Gong em Kingston,
em setembro de 2001, onde anteriormente somente um africano -
Alpha Blondy - fez gravações.
As vibrações passaram o mais próximo
possível das de seu herói Burning Spear, que Tiken Jah cresceu
ouvindo. Construído sobre a fundação do mais famoso duo da história
do reggae, o baterista Sly Dunbar e o baixista Robbie Shakespeare,
e inspirado na guitarra do igualmente celebrado Earl "China" Smith,
Françafrique também marca o retorno do grande tecladista Tyrone
Downie. Inicialmente com The Wailers, e também um homem chegado
a Bob Marley, que desde então aproximou-se mais do som digital
da nova onda francesa (de Tonton David a Jackie & Benji), Tyrone
Downie produziu um álbum que mais parece da época de ouro do reggae
dos anos 70.
Porém, 100% africano, na imagem da
guitarra "mandingue" de Petit Conde e dos metais de Abidjan, com
um coro que fez tudo para derrubar os muros de Jericó. Com a mesma
qualidade e conivência espiritual, tanto individual quanto no
conjunto, enquanto Anthony B., um dos maiores DJ's da nova tendência
jamaicana "bobo-conscious", que desejou expressamente acompanhar
o grupo da reprise de Mangercratie, Ewart Beckford, o popular
U-Roy, o pai do DJ's jamaicanos, junta-se a ele em duas faixas
deste álbum de 12: a conhecida Justice e também Missiri, onde
o pai dos DJ's adapta a seu próprio molho as letras Dioula de
seu colega da Costa do Marfim.
Não se surpreenda em ouvir U-Roy contando
uma história de celular, pensando que seu jovem irmão africano
estava falando sobre telefones celulares! Entretanto, o contingente
francês não foi esquecido.
Em Y'en a Marre, o jovem francês
Yaniss Odua, um produto dos equipamentos de som das Índias Ocidentais
que foi primeiramente descoberto com Lord Kossity, dá seu lance
devastador.
Apesar de viajar entre as duas costas
do Atlântico, este álbum franco-inglês-"nouchi"-"dioula" fala
uma única língua e une as latitudes a serviço de uma única atitude,
como na faixa Soungourouba, sobre um povo africano que não desistiu
da luta e que divide seu sofrimento com outros países do sul.
Depois de Alpha Blondy e Lucky Dube,
a África encontrou seu novo profeta do reggae em Tiken Jah Fakoly,
assim como um álbum que se posiciona como a ligação genuína que
faltava em uma história de amor que começou 25 anos atrás entre
os guetos do continente negro e os da Jamaica.
Clique
aqui para saber mais sobre o cd Françafrique
Escrito por: Jean-Christophe Servant
Traduzido por: Maria Creusa Meza
Françafrique, lançado na França em
19 de fevereiro de 2002 e no Brasil em 01 de agosto de 2003.
Indie Records Ltda -
Central Reggae.
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