"O religioso ele mesmo consiste em camuflar a violência atrás do sagrado. (...) Platão exprime diretamente esta idéia de que, se falamos muito da violência religiosa, quer dizer dos mitos no que eles têm de horrível -como o fez, por exemplo, Homero em 'A Ilíada'- arriscamos a desestabilizar a sociedade. Hoje, a antipatia pela pornografia ou a violência no cinema se explica da mesma maneira. Para o homem moderno, é normal pensar que, revelando a violência, podemos torná-la contagiosa."

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Arte e universidade: uma relação conflituosa?
por Lisette Lagnado

"Bibliografia", de Carla Zaccagnini



Lisette:

salgado o seu tema para o próximo trópico...

foi meu pesadelo enquanto no mac-usp e que vi, depois sendo totalmente desvirtuado, digo, o museu e essa preocupação, pelos diretores que me sucederam e que transformaram o museu em sede de cursos (?), desatentos aos objetivos do mac-usp anteriormente, vinculado à experimentação e artes na cidade e Estado.

é que, a meu ver, a universidade no Brasil NÃO SE INTERESSA POR ARTE, e sim apenas por dar diplomas. nem a usp. minha experiência no mac foi, nesse aspecto muito amarga. há uma profunda ignorância e indiferença por parte dos membros do conselho universitário por esse tema ou preocupações. o laboratório na usp é para as ciências exatas. eles não sabem ver como disse ontem na tv o celso amorim, que cada vez mais no mundo, ciência, economia e artes estão interligadas em benefício da sociedade.

isso sem falar nos artistas que, como v. diz, transformam seu dotes intuitivos/criativos em profissão. complicadíssimo, sobretudo nos dias que correm. muito salgado seu tema. boa sorte!

aracy (21/06/2004)
(1)


Poderíamos fazer o seguinte teste: será que passa pela cabeça de algum de nós indagar se Cildo Meireles ou Tunga têm mestrado ou doutorado? A pergunta é absolutamente irrelevante para o entendimento dessas duas carreiras. Ora, se é verdade que o diploma universitário não faz o artista, ou seja, não lhe confere garantia de reconhecimento (tanto de mercado como até mesmo crítico), a crise econômica tem levado um contingente crescente de candidatos a enfrentar a burocracia da vida acadêmica com o objetivo de transformar em “profissão universitária” um tipo de saber que, pouco tempo atrás, era transmitido na vivência e informalidade dos ateliês livres e projetava seus freqüentadores para um circuito “selvagem”. Lecionar ainda é a saída mais honrosa para quem não consegue se sustentar da venda de seu trabalho.

No Brasil, o tema da formação acadêmica do artista é um fenômeno recente, enquanto as experiências de outros países nos chegam como uma fábula extraída das “Mil e Uma Noites”. Se existe um panteão para o paroxismo, certamente as aulas de Joseph Beuys merecem figurar nesse templo. O artista (1921-1986) atuou como professor de escultura monumental na Academia de Arte de Duesseldorf por mais de uma década. Ativista político e mestre de alunos renomados, como Anselm Kiefer, sempre frisou a relação entre a produção artística e sua sociedade. É autor de uma frase espetacular (1969): “To be a teacher is my greatest work of art” (Ser um professor é meu maior trabalho de arte).

Essa frase nos serve de gonzo para verificar a natureza das relações entre a criação artística e o ensino da arte. Antes de prosseguir, é preciso distinguir a academia de arte (algo que poderia ser assemelhado ao Parque Lage, no Rio de Janeiro) do meio universitário, com as disciplinas oferecidas numa faculdade de artes (plásticas, visuais ou qualquer outro termo adotado pela instituição). Quais são as razões que levam um artista a buscar um reconhecimento universitário -escolha que exige uma aptidão específica para redigir uma dissertação (no caso do mestrado) ou uma tese (no caso do doutorado)? Diante da dificuldade de se tornar um “teórico”, o aluno comumente foca no seu campo pessoal, “torcendo” o corpo curricular para nele caber seu projeto artístico. O crítico Guy Amado não poupou a comicidade da questão: o que significa tornar-se mestre ou doutor de seu próprio trabalho?

As mesas-redondas promovidas na Pinacoteca por Trópico têm procurado seguir um formato que convida um especialista “teórico” e uma personalidade mais engajada nas vias “práticas”. O tema de abril, “Arte e periferia”, parecia voltado para outra ordem de interesse. Em termos. O debate foi provocado a partir das apresentações da artista Mônica Nador e do professor e crítico de arte Paulo Sergio Duarte. O empenho de inserção artística de Nador em camadas sociais carentes tornou-se seu projeto de doutoramento no Departamento da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. É um caso que pretende levar para a Universidade uma pesquisa de campo (a implantação do Jamac - Jardim Miriam Arte Clube) que só poderá ser abordada de maneira ampla, estabelecendo uma correspondência entre as expectativas do trabalho artístico e científico com as bases para uma transformação social.

     
   

 
 
1 - E-mail de Aracy Amaral, professora titular (aposentada) em história da arte da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (transcrito com sua autorização). Dirigiu o Museu de Arte Contemporânea da USP entre 1982-1986.