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O que fazer com o audiovisual no museu?
por Lisette Lagnado
Obra de Hélio Oiticica oferece uma saída para a exibição de vídeos nos espaços tradicionais
De que maneira museus tradicionais de arte estão se adequando ao ingresso de obras tecnológicas? Por exemplo, como resolver problemas específicos de exibição em salas desprovidas de isolamento acústico, que deixam o som vazar de um ambiente para outro? E, segunda questão, o que pretendem os artistas ditos “plásticos” quando fazem filmes que não são propostos para o circuito (comercial) das salas de cinema, mas que integram projetos curatoriais museológicos?
Novas mídias no banco dos réus
No último dia 11 de abril, o leitor de domingo da “Folha de S. Paulo” se deparou com uma reportagem do jornalista Fabio Cypriano que levantava o problema da “inadequação dos espaços para a projeção”, a partir de um projeto de Arlindo Machado e Christine Mello no Paço das Artes. Desde então, instaurou-se um mal-estar, entre artistas, curadores e diretores de instituições, que o título da matéria inflamava além da medida: “Mostra de vídeos no Paço faz público dormir”.
O início do artigo não fazia rodeios: “Zzzzzzzz. Sentada num pufe branco, Rita de Cássia Alecrim, estudante do curso de multimeios da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, dormia diante da projeção de ‘Desenho Corpo’, de Lia Chaia, um dos 14 trabalhos da mostra ‘O Corpo entre o Público e o Privado', no Paço das Artes, que termina hoje. Das 14 obras, todas em vídeo, dez delas são projetadas em ‘looping’ numa mesma tela, levando o visitante a uma maratona de quase duas horas, se quiser conhecer todos os trabalhos da mostra, e a disputar um dos pufes disponíveis para maior conforto. As outras obras são exibidas de forma autônoma”.
Celeumas à parte (fiquei me perguntando, por exemplo, se o destino natural e político de uma mostra dessa natureza não deveria ser o Museu da Imagem e do Som)
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, considero da maior importância para o debate artístico retomar o conteúdo dessa reportagem e analisar as práticas desse “novo” desejo de ver (do público).
O tempo de projeção (duas horas equivaleria a uma sessão normal de cinema) era apenas a extremidade da grande massa de gelo que se formou entre as partes entrevistadas. A resolução desse problema é de uma simplicidade atroz: consiste em colocar a duração de cada filme na etiqueta, fazendo uma ficha técnica completa similar àquela que acompanha um óleo sobre tela -detalhe que precisa urgentemente virar norma. Qualquer cidadão numa metrópole, vida pautada pelo trabalho e o capital, não pode dispor de 51 minutos sem uma prévia programação. No entanto, diante de uma artista que fica continuamente riscando seu corpo com uma caneta até a tinta secar, uns minutinhos são suficientes para que seja lançada a sentença clássica e definitiva: “Já entendi”.
Desde quando compreender o procedimento revela a “totalidade” da obra? Não se sai o mesmo depois de assistir um fragmento, por mais repetitivo e monótono que pareça à primeira vista. O que acontece durante o processo de exposição do espectador à obra?
Como agravante, a fotografia da reportagem flagrava um espectador dormindo (como se não se dormisse às pencas no cinema desde que existe a sala escura com poltronas). “Em vez de seduzir, espantar”, alertava o repórter, mencionando a sofisticação das salas de projeção na última mostra de Kassel.
Mas, para um leitor avisado, não é somente o conforto do espectador que está sendo posto em questão.
Não se pode falar hoje de “filme de artista” sem engolfar-se no conceito de duração. A arte é apenas um pretexto. Essa é a perspectiva assumida por Douglas Gordon, cujas projeções reproduzem as mesmas regras do espectador sentado na sala escura do cinema. Em seu filme “24 Hour Psycho”, que basicamente desacelerava e esticava o filme “Psicose” de Alfred Hitchcock, a estratégia consistia em introduzir uma duração inédita no espaço museográfico e nas galerias de arte. Douglas Gordon enfatiza “a reutilização do museu no objetivo de burlar expectativas e preconceitos dos visitantes”. Contrapor-se à média de 27 segundos passados diante de um quadro não é tarefa fácil. “Procuro então persuadi-los a ficar mais um pouco.” É uma forma de “sequestrar” o espectador, de fazê-lo sair de uma situação em que pensava estar inserido.
Expor o espectador a uma duracão difícil parece sempre ter sido um dos motes da arte de vanguarda. O filme “Empire” (1964), de Andy Warhol, registra um olhar imóvel de oito horas sobre o prédio do Empire State. Foi rodado em filme sonoro, porém sem acrescentar som algum. Essa câmera fixa, sensível apenas à passagem das horas, esvazia a cena da inquietação do espaço. A extensão do espaço é substituída pela extensão do tempo e, nessa última, a mente do espectador fertiliza a erupção de outras imagens. Warhol dilata a duração do plano, e seu “frame” resiste ao congelamento da representação.
A crítica de Oiticica ao audiovisual
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