"O religioso ele mesmo consiste em camuflar a violência atrás do sagrado. (...) Platão exprime diretamente esta idéia de que, se falamos muito da violência religiosa, quer dizer dos mitos no que eles têm de horrível -como o fez, por exemplo, Homero em 'A Ilíada'- arriscamos a desestabilizar a sociedade. Hoje, a antipatia pela pornografia ou a violência no cinema se explica da mesma maneira. Para o homem moderno, é normal pensar que, revelando a violência, podemos torná-la contagiosa."

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A teia e as mãos
por Lucia Leão

Detalhe da instalação "Web of Life"

A instalação “Web of Life”, de Gleich e Shaw, faz da internet um sistema de conexão de vidas



A teoria das redes é o ponto de partida do projeto multidisciplinar e multiplataforma “Web of Life”, conceituado por Michael Gleich e desenvolvido artisticamente por Jeffrey Shaw e equipe.

Composto por um livro (“The New Web of Life: the Art of Networked Living”), um site e uma instalação distribuída, presente no ZKM (Karlsruhe, Alemanha) e conectada a outras itinerantes, o projeto articula a lógica e o conceito de redes em vários níveis, do iconográfico ao simbólico.

A instalação principal, implantada no ZKM, foi inaugurada em março e permanece até dezembro de 2003. Lá, caminhamos por um labirinto escuro, com curvas e chão irregulares. Na sala de projeção multimídia, recebemos óculos para visão das animações em 3D. Um dispositivo colocado à frente de uma tela de projeção tem por função ler as linhas de nossas mãos. Já com os óculos, vemos as linhas escaneadas dançarem à nossa frente, num balé místico de quiroscopia.

Alguns instantes depois, visualizamos fragmentos de imagens que se movimentam e formam caleidoscópios. Flores, corpos em movimento, chips que desenham uma colagem dinâmica de imagens.

Passados alguns minutos de puro deleite com as mandalas formadas, percebemos um nome escrito abaixo: Frankfurt.

Outras pessoas colocam suas mãos no leitor e imagens diferentes são produzidas. Depois da sala de projeção, uma outra instalação com estruturas metálicas formando desenhos de linhas cruzadas e telas “touch screen” nos aguarda.

Agora, com a referência dos textos e do livro, entendemos o por quê do nome “Frankfurt”. Percebemos que outras pessoas, situadas em outras cidades, estavam se conectando conosco...

As instalações itinerantes podem ser de dois tipos: as móveis e os terminais de escaneamento das mãos (“hand scanning”) que recebem como “input” a informação da mão escaneada. Suas linhas são traduzidas gerando imagens caleidoscópicas que são transmitidas para o ZKM.

O livro de Michael Gleich nos fornece pistas valiosas para a interpretação dessa obra. Mais do que um mero apêndice do projeto, a obra tem vida própria e mapeia o assunto das redes de forma primorosa.

O livro inicia com um conto sobre a aplicação da lógica das redes no deserto. É interessante notar que Gleich vai além do conceito de redes que costuma se focar puramente nos cabos e interconexões (hardware da rede) e nos coloca a questão das redes dos sistemas vivos.

Entre os assuntos abordados temos: florestas, bactérias, teoria do caos, cibernética, complexidade, simbiose, diversidade, cérebro global e os conceitos que nortearam o projeto “Web of Life” propriamente dito.

Mas voltemos a pensar nas instalações. O sistema de “input” do projeto se alimenta com as linhas das mãos. Isso nos faz pensar em vários aspectos da tão aclamada interatividade.

Por um lado, o gesto de colocar a mão nessa interface é nitidamente uma atitude ativa. Por outro, a leitura e transcodificação das linhas das mãos faz referência a uma ciência antiga, a quiromancia, assunto em que Aristóteles e Julio César eram experts.

Mas a instalação não se resume a essa atualização do saber antigo. A poética se constrói a partir do momento em que a mão escaneada viaja e toca uma outra mão. A mão escaneada revela um destino e, nesse sentido, outros destinos se tocam e se traduzem em teia.

Lida sob a perspectiva da visão sistêmica de vida, como quer Fritjof Capra, “Web of Life” fala das interconexões entre todos os seres vivos, das interrelações entre todos os destinos que acabam por gerar e alimentar o todo, relativizando a técnologia como mito para celebrar a história como sociedade.