"O religioso ele mesmo consiste em camuflar a violência atrás do sagrado. (...) Platão exprime diretamente esta idéia de que, se falamos muito da violência religiosa, quer dizer dos mitos no que eles têm de horrível -como o fez, por exemplo, Homero em 'A Ilíada'- arriscamos a desestabilizar a sociedade. Hoje, a antipatia pela pornografia ou a violência no cinema se explica da mesma maneira. Para o homem moderno, é normal pensar que, revelando a violência, podemos torná-la contagiosa."

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Do cubo branco à caixa preta
por Giselle Beiguelman

 

Exposições de arte digital e eletrônica correm o risco de canonizar modelos modernistas



O aumento do espaço institucional da produção artística que se vale de meios digitais e eletrônicos no Brasil é notório (1) . No momento em que escrevo esse artigo, em julho de 2004, o Santander Cultural de Porto Alegre, o Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília e o Itaú Cultural, em São Paulo, apresentam mostras de arte exclusivamente devotadas à exploração das mídias eletrônicas e digitais.

Simultaneamente, o Sesc de São Paulo apresenta uma exposição que evidencia o impacto da digitalização na produção fotográfica contemporânea -"A foto dissolvida"- e promove "Zona de ação", uma série de intervenções de coletivos nacionais e estrangeiros na web e na cidade e no Estado de São Paulo.

Em agosto, e ainda em São Paulo, é a vez do Paço das Artes abrir as portas para a exposição dos premiados da 4ª edição Prêmio Sergio Motta. Em setembro, a cidade deve pegar fogo com a realização de duas mostras de arte midiáticas no contexto do Sonar Brasil.

O ano se encerra com o File (Festival Internacional de Linguagens Eletrônicas), que vai ocupar o Centro Cultural da Fiesp, com mostra expositiva, a Casa das Caldeiras, com ações e apresentações de VJs e DJs e o British Council, onde se realizará o simpósio do evento. Tudo isso, novamente em SP-SP.

A quantidade de foros está longe de implicar relação direta ou inversamente proporcional à qualidade dos projetos expostos, o que demandaria uma reflexão crítica direcionada à questão e feita por alguém que, preferencialmente, não estivesse, como eu, envolvido no (s) seu (s) contexto (s) expositivo (s).

Ainda que evitando uma discussão dos projetos expostos e suas particularidades, é difícil não perceber o quanto essa notória conquista de espaço denuncia o isolamento desse tipo de produção no cenário cultural brasileiro como um todo. Afinal, não questionar o fato dessas exposições se realizarem apenas dentro de circuitos exclusivamente ligados ao uso de tecnologias digitais e eletrônicas é querer encobrir um de seus impasses críticos mais óbvios.

Não apenas essa produção se realiza em contextos protegidos, sem ter que (nem poder) ser confrontada com outras formas de criação e experimentação, como também ilude o público e a mídia sobre uma suposta versatilidade nacional que não existe, haja vista que essa gama de exposições em cartaz reproduz em seus expedientes, basicamente, um mesmo grupo de criadores e críticos.

Um mesmo grupo que parece viver um desconcertante paradoxo: desenvolver projetos que, pela sua natureza, impõem o confronto com os espaços tradicionais de fruição e reflexão da e sobre a arte e adaptar-se à condição de objeto expositivo, a fim de romper a distância com o público e o próprio circuito de artes e da cultura.


Não-objetos na parede

Exemplo esclarecedor aqui poderia ser o premiado "OP_ERA", de Rejane Cantoni e Daniela Kutschat, um projeto de exploração e investigação de espaços em quarta dimensão que demandou não só desenvolvimento de softwares específicos, mas a implantação de toda uma rotina de programação na Cave (caverna adaptada à realidade virtual e sistemas imersivos) do Laboratório de Sistemas Integrados (LSI) da Poli, na USP.

Pois bem, sem esse espaço laboratorial o projeto não pode ser experimentado e, dificilmente, pode ser compreendido. Exposto no Itaú Cultural, pela primeira vez, e atualmente no Santander Cultural e no CCBB de Brasília, ele tem sido apresentado a partir de um DVD com finalidades documentais.

A solução é traiçoeira, pois transforma em imagem o atributo mais radical do projeto: sua rigorosa pesquisa científica e tecnológica, que conjugava uma experiência estética com uma vivência espacial, capaz de teletransportar os interatores do projeto à quarta dimensão. E isso é impossível de documentar...

Talvez o contato com os diários de pesquisa dessas duas criadoras, seus e-mails e suas diversas equipes, programas de computador que não funcionaram, máquinas queimadas etc., pudesse ser mais apropriado como documentação do projeto.

Contudo, será que isso conseguiria ocupar o espaço expositivo nos termos que público e instituições estão acostumados? Certamente, não. Rejane e Daniela nunca conseguiram sequer convencer uma instituição a alugar uma van e um horário na Cave para levar o público para o laboratório.

Não se pense, entretanto, que o problema se concentra nos projetos que demandam estruturas laboratoriais ou programação específica. Basta lembrar casos de projetos on line, baseados em Internet fixa ou móvel. A priori, esses projetos não precisam estar no recinto expositivo. Podem ser acessados em qualquer lugar dotado, minimamente, de um computador e uma linha telefônica, ou de um reles celular.

     
   

 
 
1 - Esse artigo dá seqüência e discute algumas reflexões de Lisette Lagnado em "O que fazer com o audiovisual no museu?" e em "Arte e universidade: uma relação conflituosa?". Esses dois textos estão acessíveis no "link-se" no final deste artigo. É fruto, também, de um debate realizado no dia 6 de julho com Tadeu Chiarelli, no Sesc Pompéia, em São Paulo, a propósito do lançamento do catálogo da exposição "A foto dissolvida".