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A manufatura de “Cidade de Deus”
por Tata Amaral
Divulgação
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O diretor Fernando Meirelles conta como realizou seu filme, da preparação ao acabamento
As cenas de violência se alternam na tela com algumas de bom-humor. O
que mais me impressiona é a história bem contada. Uma história, aliás,
que precisava ser contada: a história do tráfico vista de dentro de uma
favela. Esta, aliás, foi a motivação de Fernando Meirelles, quando decidiu
adaptar o romance de Paulo Lins, "Cidade de Deus".
Após a projeção, ainda sob impacto do filme, não consigo formular nada:
preciso fumar um cigarro, dar um tempo, antes de entrar na conversa com
os amigos que me acompanhavam. Demoro. O filme continua a ribombar.
Impressiona-me, já disse, o talento de contar a história, mas também a
direção de atores, todos amadores e negros, com uma única exceção. Nunca
vemos muitos negros nas nossas telas. Sobretudo protagonizando os filmes.
Um filme, aliás, de muitos personagens. Decido, então, entrevistar o diretor
Fernando Meirelles, pois esta experiência é única, nunca havia visto nada
igual. Me interessa a manufatura do filme.
"Cidade de Deus" continua causando impacto: em cartaz, no Brasil, desde
agosto de 2002, o filme foi assistido por 3 milhões e 200 mil espectadores,
um recorde de público para cinema brasileiro. Foi indicado para o Globo de Ouro
e para o Prêmio Bafta, na Inglaterra, onde foi lançado com
enorme sucesso. Em fevereiro, o filme foi lançado na Espanha e na França. Depois será a vez da Itália, Argentina, Austrália e Japão. Neste mês, estreará em mais 15 países. No total foi vendido para 62.
Todas estas conquistas são as de um filme que se passa
numa favela carioca, com atores negros, amadores, e uma história não-linear,
sem comédia, sem romantismos -um drama realista. Pra lá de realista.
Por que você decidiu adaptar o livro de Paulo Lins? Como foi que o livro te sensibilizou?
Fernando Meirelles: O Paulo Lins foi criado na Cidade de Deus e ficou oito anos escrevendo o livro lá dentro. Ele conta que, às vezes, estava escrevendo e pela janela via passar um de seus personagens. Então ele descia, falava com o cara, tomava uma cerveja e subia para escrever as histórias que tinha ouvido. Ou seja, é uma história escrita pelo ponto de vista do cara que está lá dentro. Eu queria fazer um filme com este mesmo ponto de vista.
Quais foram as principais mudanças na adaptação do livro?
Meirelles: No filme quem conta a história é o Buscapé, um garoto que narra como os bandidos foram chegando à Cidade de Deus, começando a trabalhar com tráfico e finalmente tomando o controle do lugar. Fui criticado por não mostrar as razões desta violência ou os fatores externos desta história. Mas o fato é que a premissa do meu filme era a narração desse menino.
Se eu quisesse dar uma visão sociológica ou se quisesse explicar as razões externas daquilo ali, não seria mais este filme. Além do que seria chover no molhado. Todo mundo sabe qual é a visão da classe média sobre o assunto. Será que precisamos de um filme para nos dizer como a distribuição de renda no Brasil é vergonhosa?
O filme é construído a partir de múltiplas histórias, com diferentes personagens. Não há, aqui, a narrativa clássica que apresenta um personagem e sua trajetória até o desfecho final. Claro, existe o Buscapé que funciona como elo de toda a narrativa mas...
Meirelles: ...Ele esta fora da ação, não é? Ele conta o que os outros estão fazendo e não o que ele está fazendo. O livro é episódico, quase monótono. O Paulo, por exemplo, nos conta a história de um personagem, o camarada morre; ele apresenta outro, conta a história, o cara morre também e assim vai por 600 páginas.
O que eu acho interessante no roteiro do filme foi a maneira como vocês trouxeram estes múltiplos personagens que, como num mosaico, vão compondo a estrutura do filme e de Cidade de Deus.
Meirelles: É exatamente o tipo de construção que eu gosto de fazer. Pensamos nesta estrutura como uma oração coordenada. Lembra-se do seu terceiro ano, no ginásio? Nas orações subordinadas, uma frase leva a outra, estão ligadas diretamente, alinhadas. Na oração coordenada há uma sobreposição de idéias e não uma justaposição, as frases estão empilhadas. Uma frase, ponto. Outra frase, ponto. Quando você lê todas aquelas frases justapostas, elas criam um sentido. Conto muitas histórias separadas e deixo as ligações por conta do espectador. Mas o mérito da estrutura de “Cidade de Deus” não é meu, é do Bráulio Mantovani, o roterista. Ele é um cara muito criativo, bom de diálogos, mas especialista mesmo em estrutura. O mérito do nosso roteiro é muito mais dele do que meu.
Como foi exatamente o trabalho de adaptação do livro “Cidade de Deus?”
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