"O religioso ele mesmo consiste em camuflar a violência atrás do sagrado. (...) Platão exprime diretamente esta idéia de que, se falamos muito da violência religiosa, quer dizer dos mitos no que eles têm de horrível -como o fez, por exemplo, Homero em 'A Ilíada'- arriscamos a desestabilizar a sociedade. Hoje, a antipatia pela pornografia ou a violência no cinema se explica da mesma maneira. Para o homem moderno, é normal pensar que, revelando a violência, podemos torná-la contagiosa."

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  poesia TRADUÇÃO
 
O ruído da escrita
por Simone Homem de Mello

 

Três poetas contemporâneos de língua alemã: Raoul Schrott, Kling e Barbara Köhler



“um mapa só para a escala dos olhos e o alcance das mãos mas desmedido e vazio em sua consonância”: assim finaliza Raoul Schrott um de seus poemas em “Hotels” (“Hotéis”, 1995), traçando uma imagem que poderia ser vista como moto de uma certa tendência da poesia de língua alemã pós-reunificação.

Diante da reintegração da Alemanha, do deslocamento das fronteiras européias e da lenta revisão do dualismo ocidental/oriental, a geração dos poetas jovens que testemunharam a queda do Muro parece ter se proposto a recartografar seu espaço de atuação.

O ímpeto de se reposicionar nesse terreno instável foi reforçado pela rápida propagação das novas tecnologias de informação, que aboliram outros limites, gerando a ilusão de acessibilidade ilimitada. Mesmo em meio à euforia da ruptura, este espaço transitório não deixou de se configurar como risco de um novo “waste land” : uma terra incógnita onde as fronteiras nacionais já deixa(va)m de forjar ou legitimar identidades culturais e onde o rolo compressor da globalização aparentemente ameaça(va) achatar diferenças. É neste contexto que alguns poetas se põem a caminho, com o intuito de dispor e/ou detectar novos marcos e limites em território (des)conhecido.


Poesia em trânsito

O austríaco Raoul Schrott (1964), nascido a bordo de um navio (a indicação biográfica de um de seus livros menciona São Paulo (!) como local de nascimento), se propôs sair em viagem na virada de milênio, a fim de fazer um “inventário do século XX”.

Em sua nova série de poemas, “Trionfi” (publicada no jornal “Frankfurter Allgemeine”, 28/12/2002, e ainda inédita em forma de livro), Schrott prossegue -na Sicília- seu contínuo diário de bordo, formatado em publicações anteriores, como “Hotels” e “Tropen” (“Tróp(ic)os”, 1998), no romance “Finis Terrae” (1995) e na novela “Khamsin” (2002).

O renano Thomas Kling (1957), residente nas imediações da estação de mísseis de Hombroich, no Baixo-Reno, oscila -em seu “textsafari“- entre o pitoresco das paisagens locais (Neanderthal, Alpes...) e o ecletismo das culturas urbanas (Viena, Nova Iorque, Colônia, Düsseldorf...).

Barbara Köhler (1959) abandonou a Alemanha Oriental no início da década de 90, trocando Leipzig pelo cenário industrial de Duisburg (região do Ruhr), de onde realiza suas incursões interculturais, como em “cor responde” (1998), por exemplo, um experimento bimedial e bilíngüe com Portugal.

Já em “Deutsches Roulette” (“Roleta Alemã”, 1991) e depois em “Blue Box” (1995), Barbara Köhler elege cafés, cinemas, trens e interiores como espaço de uma poesia-flaneur intimista, em que coleciona diferenças (masculino/feminino, mediático/imediato), a serem posteriormente desdobradas em experimentos com a retórica deconstrutivista e a poética de gêneros, como em “Wittgensteins Nichte”, de 1999 (o título implica um trocadilho com o plural de “não” e o substantivo feminino “sobrinha”, algo como “A Nega(ção) de Wittgenstein”).

Thomas Kling enfoca cenários pós-históricos (o inferno da urbe, campos de batalha, pogroms e bunkers) e coleciona idílios da modernidade (parques industriais, rodovias, solários artificiais, aeroportos), iconizando os subprodutos da sociedade industrial num zapping através de dialetos, gírias e diferentes códigos mediáticos.

Raoul Schrott segue a rota dos arqueólogos, projetando suas observações contingentes no espaço histórico e cosmológico da antiguidade greco-romana, recriando uma moldura ou aura civilizatória para os sinais esparsos compilados em seu itinerário.
No ensaio “Berlin Transit” (1994), Durs Grünbein (1962), talvez o mais “mainstream” dos poetas contemporâneos alemães, diagnosticou a formação de uma “geração de ‘jet setters’, sempre em viagem, transitando de uma esfera de vida para a outra, ocupados com a comparação de fusos horários e com traduções”.

Embora Grünbein tenda a apelar em seus poemas a um “pathos” metafórico alheio aos autores aqui mencionados, ele também pertence à linha destes poetas que reconheceram o “seu território de caça nas terras de ninguém, nos intervalos, nos terrenos não demarcados”. No entanto, ao contrário do que proclamava Grünbein em meados da década de 90, Berlim -“‘setting’ ideal para este filme de imagens em constante superposição”- não veio a se tornar o centro desta geração. Ao contrário de agrupamentos anteriores, como a Prenzlauer Berg Connection, a última vanguarda da Alemanha Oriental, estes poetas se identificaram mais com uma diáspora voluntária.

“Eles não se sentem em casa em parte alguma”, talvez apenas no “espaço transitório da mídia”, notou Grünbein. Os três poetas em questão não foram os únicos a se entusiasmar com experimentos intermídia, sobretudo com a tensão entre foto e texto (Kling: camouflage, com Ute Langanky, 1998; Köhler: cor responde, 1998, com Ueli Michel; Schrott: Palazzo Passionei, com Christine Ljubanovic, 1996).