Imaginemos um filme que dialogue com a expressão plástica feita com a utilização de um vocabulário mínimo, e que, como ela, se mostre mais interessado em representar a estrutura das coisas que em fixar a sua aparência primeira, mais interessado em compor uma imagem que, clara, limpa, quase nada, funcione principalmente como um convite para que o espectador a invente.
Imaginemos, assim, uma imagem que nos leve à essência de um supermercado. Os produtos nas prateleiras, sem as marcas e as embalagens coloridas que os distinguem, reduzidos aos apelos que criam a necessidade de consumo - caixas brancas com palavras que não dizem a utilidade do produto à venda mas sim o sonho/desejo/necessidade/delírio que ele promete realizar.
Imaginemos ainda que esta imagem nos dê o supermercado como uma representação do mundo em que vivemos. Não o supermercado assim como ele efetivamente é, mas como um mecanismo que se faz à imagem e semelhança do que organiza a sociedade - mecanismo que, todo o tempo, enquanto parece atender ao que as pessoas precisam para viver, gera um ciclo de consumo que se encerra em si mesmo, cada novo produto produzido não tanto para solucionar uma questão determinada quanto para gerar/renovar um desejo indeterminado.
Imaginemos, propõe 1,99, o cinema como um projetor de imagens na cabeça do espectador, o supermercado como uma projeção da estrutura da sociedade na cabeça do consumidor.
Assim como certa vez a pintura reduziu seu vocabulário a uns raros traços ao lado de pedaços de jornais, de revistas de rótulos ou embalagens de produtos colados num plano, ou renunciou a toda forma e cor para pintar um quadrado branco sobre fundo branco, ou renunciou à tela e fez um quadro só vidro, transparência que quase não interfere no que casualmente se vê através dele, assim, bem assim é que 1,99 procura se fazer. Colagem, forma quase ausente, presença reduzida ao mínimo, o filme intencionalmente se reduz a um vazio branco para, numa lógica puramente visual, desenhar os personagens com as marcas que eles consomem - comida, bebida, vitamina, aspirina, ócio, negócio, antidepressivo, preservativo, carro, cigarro -, traduzir o que eles pensam em legendas feitas à maneira de um anúncio classificado de jornal: "Procuro mulher loira e ousada com muita celulite e que seja carente". "Devedora anônima procura relacionamento total". "Procuro homem tímido que goste de beber vinho e beijar na boca".
Assim como a música certa vez renunciou ao desenvolvimento melódico em favor da repetição infinita de uma mesma e pequenina frase - para ser, digamos, música que passa em branco -, assim, bem assim, é que a câmera se move em 1,99, em cuidadosos e longos e como que dançados deslocamentos laterais, travellings e panorâmicas que acompanham os consumidores no supermercado, entre a compra do que "faz parte de sua vida", "faz mais por você" ou garante que "você é o máximo".
"O mundo está ficando cada vez mais complicado". O comentário está escrito uma caixa na prateleira do supermercado. O filme começa aí, a câmera imóvel, colada neste canto da estante. Duas mãos de um homem entram em quadro para puxar o carrinho de compras quase todo fora de quadro, presente, e quase nem se nota, apenas uma pontinha no canto inferior da imagem; a câmera recua, descobre o casal, revela o supermercado, ele com o carrinho, ela escolhendo os produtos nas estantes, e a partir de então a imagem é principalmente o movimento lateral da câmera; ela se deixa levar primeiro pelo casal, se aproxima das prateleiras enquanto a mulher escolhe um "abuse e use" e um "chique é ser inteligente", mas logo descobre outros compradores, passa por um cartaz que propõe "escolha sua dívida", segue uma mulher indecisa entre o "pense diferente" e o "pense desiludidamente", chega bem perto das mãos dela, que examina as diferentes caixas, passeia pela estante como se estivesse ela mesma, a câmera, escolhendo algo para comprar, descobre um novo comprador na estante ao lado, vai até lá, circula em torno dele, parando um instante e se aproximando de seu rosto; retoma o movimento e enquanto ele se decide pelo "você é a única pessoa que pode fazer o que você faz", segue na direção dois outros compradores que escolhem entre o "macio", o "ágil" e o "único", vê o funcionário do supermercado repor na estante o produto escolhido e segue com ele, passando por outros consumidores, entre eles uma mulher que escolhe uns pequenos cilindros, vê ao longe um homem num caixa automático, pára ao lado de duas meninas diante de uma cesta de bolinhas brancas e fica ali até que a imagem é cortada por uma mulher de patins que vai até a porta do supermercado; a câmera desvia o olhar para acompanhá-la até a porta e então, e só então, temos o primeiro corte, o plano se interrompe.
Que o longo e movimentado plano inicial se interrompa deste modo, pouco depois da mulher de patins entrar de surpresa na imagem, é especialmente significativo, porque a câmera vinha até então deslizando pelo supermercado como se estivesse andando de patins; descobrindo as coisas e como que pressentindo a presença de um consumidor do outro lado da estante e indo até lá, ao encontro dele, jamais sendo surpreendida pela entrada inesperada de qualquer deles na imagem. E assim é que ela continuará, ao longo do filme, passeando pelo vazio fechado e branco como se estivesse de patins, passeando como quem conhece o espaço e sabe prever os movimentos dos consumidores. Se a mulher de patins não é exatamente um duplo da câmera dentro da imagem, é pelo menos a única personagem que, como a câmera, como os olhos do espectador, se move com gestos amplos e com liberdade que faltam aos consumidores ou aos que, na porta do supermercado, andam em círculos à espera de uma possível entrada no espaço de consumo.
Imaginemos, portanto, que o cinema seja para os olhos algo assim como um par de patins e a cena um ringue de patinação. 1,99, então, pode ser compreendido como um convite para correr em círculos e linhas sinuosas entre consumidores, estantes, carrinhos de compra, caixas automáticos, espaços de jogos, para se perguntar se um supermercado vende necessidades, vende fetiches ou vende a necessidade de fetiches.