Vende-se Silêncio - por Arlindo Machado

1,99 é uma espécie de O Anjo Exterminador da era da globalização e do neoliberalismo. Não é mais a aristocracia decadente da Europa que se deixa enclausurar numa mansão barroca, mas uma massa indiferenciada de hiper-consumidores que se enclausura num supermercado todo branco, frio e asséptico, quedando-se ali por tempo indefinido para lotar seus carrinhos de compra não exatamente com produtos utilitários, mas com caixas vazias onde o único valor à venda são slogans digestivos reproduzindo a linguagem otimista da publicidade, frases pré-fabricadas de efeito psicológico e toda uma sub-literatura de consolo ou auto-ajuda. É um supermercado, mas parece mais uma mega-drogaria, que vende remédios virtuais para uma massa de estranhos autistas. Formas inusitadas de jogos eletrônicos e toda sorte de máquinas de simulação de “viagens” alucinógenas, movidas todas a cartão de crédito, completam o esforço de preencher o vazio desses irremediáveis solitários, prometendo a felicidade em doses homeopáticas, o prazer sem risco e a saúde programada do corpo. As paisagens do mundo exterior só penetram nesse recinto quando mediadas por máquinas de projeção e simulação. Todo contato com o exterior se dá apenas por câmera, email ou celular. Para onde quer que se vá, as câmeras de vigilância são sempre uma onipresença e tudo vêem, tudo sabem, tudo reprimem. Ao longo do período de clausura, várias micro-histórias ameaçam acontecer a partir de encontros aleatórios, mas nenhuma delas chega a desenvolver-se, esfacelando-se rapidamente na apatia preponderante do ambiente. Qualquer forma de subversão, seja sob forma de grafitagem, roubo ou assalto a mão armada, é rapidamente detectada, controlada e absorvida pelos dispositivos de segurança.

continua
início
trilha 1,99