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O Funk Carioca é Montagem
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Lauro
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UpToDate – Algo me diz que São Paulo vai ter que engolir o movimento funk. Agora (em 1999) é que a moçada está se
ligando. Vocês não acham que o funk pode desembocar num grande movimento, misturando rap, dub, samba, choro, jazz, tudo?
Yuka – Eu acho que pode. É legal no funk carioca esse negócio de subúrbio, o funk eletrônico que se faz na periferia. Quando a
gente esteve na Inglaterra para mixar o primeiro álbum, era no começo do movimento jungle, que hoje se chama drum’n bass, isso foi em 1994.
UpToDate – Mas o jungle começa mesmo é no final dos anos 80, com as rádios piratas
e que, na época, quase todo mundo ignorava.
Yuka – Ali já era o começo da popularidade do jungle. Era a onda do momento, só que no começo, o que o jungle era? O cara que era
traficante começou a apostar nos caras que faziam esse tipo de música. Ele começou a lavar o dinheiro, bancando os discos porque quando colocava nas boates, aumentava o consumo de drogas.
Os discos não tinham uma estrela de jungle. Não existia o Goldie, não existiam nomes. Era um selo branco e todo dia o cara fazia uma música nova para as
rádios piratas tocarem no mesmo dia. E as lojas que vendiam não falavam pelo nome: ‘ah! eu quero aquele artista’. Você falava ‘eu quero jungle’. O cara ia
colocando, esse é mais jazz, esse é mais raggamuffin, meio psicodélica, meio misturada. Isso está acontecendo com a ‘montagem’ do funck carioca. Todos os
dias nas rádios, nos programas de funk você tem uma montagem nova e aqueles caras não são artistas, não tem nome.
Falcão – Sabe o que estourou no Rio? Estourou uma frase que o Mano Brow disse antes de cantar alguma coisa no show. Gravaram
um trecho que ele fala alguma coisa assim, como ‘se não pudesse vacilar’, tipo ‘não pudesse dar mole e vamos todos ficar com Deus, nos unir não sei o quê’.
Yuka – Por exemplo, aquele famoso bordão, ‘ah! eu tô maluco’. Isso aí, lá no baile funk, um cara subiu no microfone, e a base tocando, e
todo mundo dançando... E ele curtindo, começou ‘ah! eu tô maluco’ – e pulou de lá de cima. O cara da mesa de som gravou e depois fez uma montagem, e virou sucesso. Isso é muito anárquico! Isso está muito na
frente! Agora, cá entre nós, se tem uma estrela do funck carioca, o nome dele é Mr. Catra (wea). Você tem que ouvir o Catra, ele é muito forte.
Falcão – Quem produziu foi o pessoal dos Racionais. O Catra é um cara do Rio que gosta dos Racionais; e quando os Racionais ficaram
lá ele ‘esbarrava’ com os caras. Todas as músicas do Catra fala do X9, que é o Mister M, o cara que entrega o bandido. Lá no Rio, X9 e Mister M é a mesma coisa, é o dedo duro.
Yuka – Uma coisa é bom deixar claro aqui, que esse funk que eu estou falando do Catra, é feito, tocado e difundido no subúrbio
carioca. E que aqui em São Paulo eles chamam de Miame Bass. Lá no Rio eles sampleam até berimbau para fazer funk. O hip hop no começo era muito forte no Rio. Era mais forte que em São Paulo. Você pega os
DJs daqui e eles vão te falar. Neguinho saía daqui de Sampa para ir ao baile no Rio e voltava para comprar disco lá, porque lá era o quente, entendeu?
Falcão – Por quê o Humberto (o DJ Hum) se interessou por essa coletânea (‘Rima Forte’, da Trama) que tinha parada em Sampa?
Porque ele gosta disso! O Mano Brow se liga em Jorge Benjor! O importante para nós é pesquisar o Brasil e correr atrás dessas coisas.
Yuka – Esse funk que está se fazendo hoje é eletrônico, com bases. Lá no Rio se chama de ‘montagem’. Montagem de / fica com Deus /
fica com Deus /, / Bonde das vadias / dá de noite todo dia / (cantando). Isso é George Clinton puro!
UpToDate – Isso não tem em São Paulo...
Yuka – Aí tem uns caras daqui de São Paulo que falam horrorizados: ‘pô mano, que que é isso?! / Bonde das vadias.../ Meu, que cara sem
consciência’. Isso é anárquico, cara!
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