Brazilian Music Up To Date -Fev/96
The Interview: Jorge Ben Jor

D I S C O G R A F I A

por Ayrton Mugnaini Jr.

Jorge Ben Jor (é assim mesmo que ele assina, separadamente, e não Benjor; basta conferir nos discos) pertence ao seleto clube de Ray Charles, Stevie Wonder e outros reis do balanço e musicalidade negras e de apelo universal, de quem até os momentos menos inspirados fariam a glória de muito grande artista por aí. Inclusive, Jorge Ben adicionou o "Jor" em atenção ao cantor e guitarrista norte-americano George Benson, com quem vinha sendo confundido na hora de receber seus direitos autorais. Curiosamente, George Benson e Jorge Ben Jor compartilham não somente o nome como também o aniversário, 22 de março.

Não estamos exagerando quanto à influência mundial de Ben Jor. Basta lembrarmos que este eterno garotão carioca foi o primeiro brasileiro (e, até hoje, um dos poucos) a emplacar uma música no hit-parade norte-americano cantada em português em plena era do rock: "Mas, Que Nada", na interpretação de Sergio Mendes. (Mesmo antes da tal era do rock, o único precedente era "Mamãe Eu Quero", de Jararaca/Vicente Paiva, na voz de, quem mais, Carmen Miranda.)

Jorge também foi regravado por artistas estrangeiros diversos como Herb Alpert ("Zazueira") e José Feliciano ("Nena Naná"), além de brasileiros de várias gerações, apenas alguns sendo Caetano Veloso, Wilson Simonal, Elis Regina e Marisa Monte. E todos sabem que Rod Stewart (em parceria com seu baterista Carmine Appice) baseou-se em "Taj Mahal" de Jorge para compor seu hit "Do You Think I'm Sexy?" (Rod conseguiu escapar declarando que a melodia era do baterista!). Por sinal, "Taj Mahal" refere-se não ao templo, e sim ao bluesman norte-americano, que retribuiu com a música "Jorge Ben".

A grande façanha de Jorge Ben Jor foi fundir ritmos aparentemente tão antagônicos como o samba, o blues e o rock, mantendo o melhor dos três e criando um balanço que só pode mesmo ser definido como "Jorge Ben Jor". Não é à toa que Jorge sempre foi bem aceito por sambistas, bossanovistas e roqueiros. (Por sinal, João Gilberto já foi apontado como sendo a única influência do originalíssimo Ben Jor; e o apelido de infância de Jorge é "Babulina", resultado de suas entusiasmadas interpretações de "Bop-A-Lena", clássico do rock de Mel Tillis, sucesso com Ronnie Self.)

E seu estilo de canto falado, similar ao talking blues e ao folk norte-americanos e ao repente brasileiro, tornou-o capaz de dar melodia e ritmo às frases menos musicais; Jorge é capaz de sair cantando a lista telefônica e pôr todo o mundo para dançar antes de chegar ao fim da letra C. Poucos artistas aliam a criatividade à espontaneidade tão bem quanto Jorge; apenas um exemplo é "Tá Na Hora", que Jorge compôs em pleno palco, durante um show no Japão, "sayonara, domo arigato..." . E ritmos novos como funk, reggae e rap têm sido prontamente assimilados por Jorge e aumentado ainda mais seu apelo mundial. Aqui estão os LPs de Jorge Ben Jor (todos já lançados em CD, embora nem sempre prontamente disponíveis):

Samba Esquema Novo (Philips, 1964)
O disco que provou não ser a bossa nova privilégio de jovens brancos que vivem entre o apartamento e a praia. Inclui os megaclássicos "Mas, Que Nada" e "Chove Chuva", além de "Balança Pema", redescoberta por Marisa Monte trinta anos depois. Detalhe: Jorge tocou um violão tão completo que muitas faixas nem precisaram de contrabaixo.

Sacundin Bem Samba (Philips, 1964)
Na linha do anterior, teve como destaque "A Princesa E O Plebeu".

Ben É Samba Bom (Philips, 1964)
Os hits deste disco foram "Bicho Do Mato" e "Descalço No Parque" (esta sem dúvida inspirada na comédia teatral de Neil Simon (Barefoot in the Park, por Gene Saks) lançada com sucesso no ano anterior e que virou filme com Robert Redford e Jane Fonda em 1967).

Big Ben (Philips, 1965)
Alguns críticos acham que a gravadora tentou explorar ao máximo o potencial comercial de Jorge, obrigando-o a gravar vários LPs em pouco tempo. De qualquer modo, estes discos têm muitos pontos altos. O grande destaque deste LP foi "Agora Ninguém Chora Mais".

O Bidu (Artistas Unidos/Rozenblit, 1967)
Armado de uma guitarra de 12 cordas e acompanhado pelo grupo de jovem guarda The Fevers (não creditado no LP ou no CD por ser de outra gravadora), Jorge consolidou de vez o samba-rock. Os hits deste disco foram "Se Manda" e "Amor De Carnaval".

Jorge Ben (Philips, 1969)
Típico disco que parece coletânea de sucessos: "Charles Anjo 45", "Cadê Tereza", "Que Pena", "País Tropical", "Take It Easy, My Brother Charlie"...

Força Bruta (Philips, 1969)
Neste disco destacam-se "O Telefone Tocou Novamente" e "Oba, Lá Vem Ela".

Negro É Lindo (Philips, 1971)
Os clássicos deste disco incluem "Que Maravilha", parceria com o violonista Toquinho, e duas homenagens: "Rita Jeep" (para Rita Lee, então dos Mutantes) e "Cassius Marcello Clay".

Ben (Philips, 1972)
Sério candidato a melhor disco de Jorge com "Desert Island Disc", "Taj Mahal", "Fio Maravilha", "Quem Cochicha O Rabo Espicha" e muito mais.

Dez Anos Depois (Philips, 1973)
Para comemorar seu décimo aniversário na gravadora Philips, Jorge regravou vários de seus hits em pot-pourris (medleys), mostrando que seu repertório e estilo continuam atuais.

A Tábua De Esmeralda (Philips, 1974)
Outro possível melhor trabalho de Ben Jor e quase um álbum conceitual, com letras falando de alquimismo e esoterismo com um ritmo que nenhum cientista egípcio imaginou. Os hits deste disco incluem "Os Alquimistas Estão Chegando Os Alquimistas" "O Namorado Da Viúva" e "Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar", esta última curiosamente semelhante a "Lay Lady Lay" de Bob Dylan, porém ainda tipicamente Ben Jor.

Gil E Jorge (Philips, 1975)
Este encontro dos dois mestres do swing à brasileira tinha de acontecer, mais cedo ou mais tarde; foi só deixar as fitas rolarem e improvisar à vontade. O resultado foi um LP duplo que deixa os fãs pedindo mais (em vez do LP simples lançado mais tarde como resumo do álbum duplo). Mais uma prova da popularidade mundial de Jorge (e Gil) é o fato deste disco ter sido reeditado em CD nos EUA mais de um ano antes do Brasil.

Jorge Ben À L'Olympia (Philips, 1975)
Gravado ao vivo no Olympia de Paris.

Solta O Pavão (Philips, 1976)
Jorge mostra seu amor pelo futebol em "Zagueiro" e muito bom-humor em "Cuidado Com O Buldogue".

África Brasil (Philips, 1976)
Jorge assimila o funk sem perder seu próprio estilo, como provam "Ponta-De-Lança Africano" e outros destaques deste disco.

Tropical (Philips, 1977)
Gravado na Inglaterra para o selo Island, mostra Jorge às voltas com reggae e até hard-rock (numa inacreditável regravação de "Chove Chuva").

A Banda Do Zé Pretinho (Som Livre, 1978)
Aqui se destacaram a faixa-título e "Amante Amado".

Salve Simpatia (Som Livre, 1979)
"Ive Brussel" foi o grande hit deste excelente LP.

Alô, Alô, Como Vai? (Som Livre, 1980)
Destaque: "A Cegonha Me Deixou Em Madureira".

Ben Vinda Amizade (Som Livre, 1981)
"Santa Clara Clareou", "Oé Oé Faz O Carro De Boi Na Estrada" e "O Dia Que O Sol Declarou Seu Amor Pela Terra" são alguns dos hits que garantiram a este disco carreira tão longa quanto os títulos das faixas.

Dádiva (Som Livre, 1983)
Neste LP destacou-se "Rio Babilônia".

Sonsual (Som Livre, 1984)
"Bizantina Bizância" foi um dos destaques do disco.

Jorge Ben Brasil (Som Livre, 1986)
O hit foi "Roberto, Corta Essa".

Ben Jor (Warner, 1989)
Este disco traz não só nova gravadora, mas também novo nome artístico para Jorge. O hit foi "Norma Jean", seu tributo a Marilyn Monroe.

Ao Vivo (Warner, 1991)
Magistral CD duplo ao vivo, reunindo hits antigos a novidades ("W/Brasil", sua homenagem ao publicitário Washington Olivetto; "Ela Mora Na Pavuna") que também fizeram muito sucesso, inclusive apresentando-o a um público mais jovem, que nem havia nascido quando Jorge lançou "Chove Chuva" ou "Fio Maravilha". Inexplicavelmente, a edição em LP é simples, com apenas algumas faixas, havendo também uma edição em CD deste LP. Se você encontrar um exemplar do CD duplo, pegue-o já!

23 (Warner, 1993)
O título refere-se ao dia de São Jorge, que inclusive aparece na capa. "Engenho De Dentro" foi o grande hit do disco; outras faixas, "Bumbo Da Mangueira" e "Alcohol", haviam sido lançadas logo antes em excelentes gravações de Gal Costa.

dance (Warner, 1994)
Ben Jor permitiu à gravadora tentar conquistar mais público estrangeiro encomendando arranjos dance para seus hits. O disco foi gravado no estúdio do músico que se chamava Prince, em Minneapolis. É recomendável aos colecionadores de sua obra. Depois desse disco, Jorge rescindiu contrato com a Warner, mudando-se para a Sony.

Homosapiens (Sony, 1995)
"Respeitem o fá sustenido e o 2/4!", pede Jorge numa faixa deste disco, talvez queixando-se novamente do disco anterior, e desta vez sua ordem foi acatada: Jorge usa teclados e baterias eletrônicos a seu serviço, e não vice-versa. "Gostosa" é a faixa que mais se destacou.


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