....Brazilian Music UpToDate 2
This page in English


TAIGUARA

UM BRASILEIRO ROMÂNTICO


URUGUAIO BRASILEIRO

"O mais brasileiro dos uruguaios!" Foi assim que Milton Nascimento apresentou o tecladista de seus shows de 50 aniversário, Hugo Fattorusso. Desculpem-nos, Milton e Hugo, mas o Brasil tem um uruguaio ainda mais brasileiro: ele mesmo, o cantor e compositor Taiguara, que fez muito sucesso nos anos 60 e 70 e que, infelizmente, faleceu no último 14 de fevereiro.


CIDADÃO DO MUNDO

Foi em Montevidéu que nasceu Taiguara Chalar da Silva (a 9 de outubro de 1945), carioca desde os quatro anos ("sou cariúcho") e mudando-se para São Paulo aos quinze. Suas residências futuras incluem a Inglaterra em 1974 e 75, Paris (1976), Tanzânia e Etiópia (1978), voltando então ao Brasil. Morou também por alguns meses de 1994 em Nova York: "Tive uma surpresa muito grande, muitos artistas brasileiros são obrigados a trabalhar de graça, são até obrigados a pagar".


FILHO DE PEIXE, PEIXINHO É

Como artista, Taiguara teve a quem puxar: seu pai, Ubirajara da Silva, toca bandoneon, participando em vários discos do filho (e também de outros artistas, como Burguesia de Cazuza). Sua mãe, Olga Chalar, foi cantora; e seu avô, Glaciliano Correia da Silva, é seu parceiro em muitas músicas. Com tantas nacionalidades e residências, não é de se admirar que Taiguara ouviu e, desde ainda pré-adolescente, tocou de tudo: guarânia paraguaia, samba de morro, bossa-nova, pop-rock.
A história de Taiguara pode ser resumida em dois aspectos: sua versatilidade, interpretando vários gêneros musicais, e sua resistência contra a censura artística, instrumento de repressão da ditadura militar a que o Brasil esteve sujeito durante vinte anos.


REI DO RÁDIO

Se você morou no Brasil e ouvia rádio no período de 1968 a 1975, deve se lembrar muito bem do Taiguara intérprete e compositor dos sucessos "Universo No Teu Corpo", "Hoje", "Viagem", "Teu Sonho Não Acabou" e outras baladonas pop de melodias elaboradas e com arranjos orquestrais grandiosos e opulentos, na linha do norte-americano Jimmy Webb (autor de "Wichita Lineman" e "MacArthur Park") e cujos outros herdeiros em vários países incluem Ivan Lins, Elton John (apesar de mais famoso como roqueiro) e Eric Carmen (idem).


DO SAMBA AO SERTANEJO

Mas essa é apenas uma faceta da obra de Taiguara, que, para quem não sabe, começou como sambista, influenciado pela música mais ouvida no bairro carioca de Santa Tereza, onde foi criado.Seus primeiros discos foram como membro da segunda geração da bossa nova (da qual vieram também Toquinho, Chico Buarque e outros). Nos anos 70 para 80 Taiguara pesquisou sonoridades africanas e paraguaias, incorporando-as a seu trabalho. Imaginem o choque de muitos fãs de "Hoje" e "Universo No Teu Corpo" ao ouvirem o LP Canções De Amor E Liberdade e depararem com a guarânia sertaneja "Voz Do Leste", completa com participação da dupla caipira Cacique e Pajé nos vocais: "Sou voz operária do Tatuapé..."


SAMBISTA DE FATO

Embora estereotipado para o grande público como baladista romântico, Taiguara manteve seu coração de sambista, quase sempre incluindo em seus discos algum samba (geralmente do tipo samba-canção, mais lento e melódico que o tradicional), dele mesmo ou de outros ("Helena, Helena", Helena" de Alberto Land, "Gente Humilde" de Garoto, "Não Tem Solução" de Dorival Caymmi). E, quando ele deixou de gravar baladas em 1976, comprovou-se mais uma vez a "teoria do vácuo" na música popular, ao surgirem outros baladeiros para preencher a vaga deixada por Taiguara, como o ex-roqueiro progressivo Guilherme Arantes.


BRASIL AFRICANO

Uma característica menos notada da obra de Taiguara é ser ele emérito adepto do comunismo e este aparecer tão freqüentemente em suas letras quanto o amor (não só o amor sensual entre duas pessoas, mas também o amor fraternal a toda a humanidade). Sempre se recusando a concessões ao sucesso e à ditadura ("a ditadura, militar ou civil, não está a serviço do povo"), Taiguara abandonou seu estilo romântico no auge da fama, aventurando-se por orquestrações sinfônicas e as já citadas influências africanas e latinas, voltando ao samba logo que pôde voltar a gravar.
Em 1983, ao sair seu LP latino, Canções De Amor E Liberdade, Taiguara anunciou que seu próximo disco seria "dedicado ao Brasil africano". Numa coerência rara entre artistas populares, seu LP seguinte (planejado desde 1985 e que esperaria onze anos após Canções) foi justamente dedicado quase totalmente a seu lado africano, especialmente o samba, até no título, Brasil Afri.


SONHOS FINAIS

Entrevistei Taiguara logo após o lançamento deste disco, e Taiguara afirmou que o próximo seria dedicado ao samba carioca, com regravações de Noel Rosa, Paulo Cesar Pinheiro e outros. Taiguara disse também que estava pesquisando sambas que falassem da pobreza e alegria de viver nos morros cariocas (cheguei a lhe mandar "Morro De Santa Tereza", de Herivelto Martins, hit dos Quatro Ases e Um Coringa nos anos 40). Infelizmente, tal projeto acabou não se concretizando, devido à doença de Taiguara, um insistente câncer na bexiga que finalnente o levou.


DISCOGRAFIA

Taiguara (Philips, 1965)
Com arranjos de Luiz Chaves (do Zimbo Trio), traz composições de Taiguara ("Samba De Copo Na Mão") junto a regravações como "Garota De Ipanema" de Jobim/Vinicius. "Tem a ver com esse disco novo [Brasil Afri], era um disco de samba", resume o próprio Taiguara.

Crônica Da Cidade Amada (Philips, 1965)
Trilha sonora do filme homônimo de Carlos Hugo Christiansen, com vários intérpretes, incluindo Taiguara, cujas interpretações incluem "Crônica Da Cidade Amada", composição de Grande Othelo, um dos maiores atores brasileiros da velha-guarda.

Primeiro Tempo: 5 x 0 (em dupla com Claudette Soares; Philips, 1966)
Trilha sonora do musical homônimo de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli.

Taiguara (Odeon, 1968)
Subtitulado Taiguara, O Vencedor De Festivais, já que todo o repertório é de canções participantes de festivais de música, tão populares no Brasil na segunda metade dos anos 60, como "Benvinda" de Chico Buarque" e os dois primeiros grandes hits de Taiguara, "Modinha" de Sérgio Bittencourt e "Helena, Helena, Helena" de Alberto Land.

Hoje (Odeon, 1969)
Inclui "Hoje", primeiro grande hit de Taiguara composto por ele mesmo.

Viagem (Odeon, 1970)
Taiguara se firma de vez como cantor/compositor romântico. Inclui os megahits "Universo No Teu Corpo", "Viagem", "A Transa" (regravada pela cantora francesa Françoise Hardy como "Rêve") e "Em Algum Lugar Do Mundo", de um jovem contemporâneo, Ivan Lins.
.

Carne E Osso (Odeon, 1971)
Inclui "Amanda", composta em homenagem à filha de um cantor seu amigo, Antonio Marcos (e que faria mais sucesso na interpretação deste) e "A Ilha", primeira canção de Taiguara a sofrer intervenção da censura (a ilha a que Taiguara se refere é Cuba).

Taiguara, Piano E Viola (Odeon, 1972)
O grande hit do LP é "Teu Sonho Não Acabou", resposta a "God" de John Lennon (cujo último verso é a famosa frase "O sonho acabou"; curiosamente, Lennon e Taiguara nasceram no mesmo dia, 9 de outubro).

Fotografias (Odeon, 1973)
"Um disco de transição, de volta do rock and roll para a nacionalidade", segundo o próprio Taiguara. "Que As Crianças Cantem Livres" (nota-se hoje uma provocação à ditadura militar já a partir do título) foi o sucesso deste disco, que inclui uma reação de Taiguara à insistente censura federal da época, "Essa Pequena".

Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (Odeon, 1975)
Taiguara resolve deixar de ser ídolo de massa e faz um LP experimental, com participação de Hermeto Paschoal e Wagner Tiso. Sempre perseguido pela censura, Taiguara começa a desconfiar de que a questão é pessoal; daí este LP trazer o crédito "por motivos de 'edição', as faixas (...) foram assinadas por Ge Chalar da Silva", sua esposa na época. E deu certo: as músicas, não trazendo a assinatura de Taiguara, foram liberadas.

Canções De Amor E Liberdade (Continental, 1983)
O disco mais abertamente engajado de Taiguara, não só nas letras mas também nas melodias, incluindo guarânias e música sertaneja. Taiguara deixava definitivamente para trás seu passado de "cantor romântico".

Brasil Afri (Movieplay, 1994)
Infelizmente, este disco acabou sendo a despedida de Taiguara. E até parece que ele estava adivinhando isso. Além de cumprir a promessa, feita ao sair Canções De Amor E Liberdade, de que seu próximo LP seria "um disco dedicado ao Brasil africano (...), bem ao gosto da liberdade, com um pé no futuro e, como sempre, muito romântico", Taiguara automaticamente fechou o círculo, voltando às suas raízes de sambista carioca. Além de bons sambas novos ("Meu Amor, Santa Tereza"), o disco traz canções românticas no velho estilo de Taiguara ("Maria José", aliás composta em 1975) e uma regravação de "Hoje" (aliás, o plano original da gravadora era que o disco fosse metade de regravações dos hits de Taiguara).