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Gustavo
Franco
Sete
anos de
Plano Real
"O
real entra em seu oitavo ano sem
herdeiro na disputa eleitoral, pois todos
os candidatos
listados, inclusive o do
governo, são
de oposição"
Comemorar
o aniversário do real já perdeu a graça. Por mais que
o dólar esteja maltratando nossa moeda nos últimos tempos,
a inflação, felizmente, não dá sinais de acordar.
Graças a diversas transformações químicas, reformas
e cirurgias, tornamo-nos uma economia estável, e estamos felizes
assim. Apenas um monumental conjunto de políticas irresponsáveis
no próximo governo poderia trazer de volta a hiperinflação.
Mas não se concebe tal coisa, seja qual for o vencedor em 2002.
Não obstante a perda de brilho da cerimônia, é sempre
bom recordar que em fins de 1993 poucos acreditavam no real, mesmo dentro
do governo, onde teve gente saindo de fininho ou se escondendo debaixo
das mesas para não se comprometer. Tinha gente querendo fazer "currency
board" (caixa de conversão) no estilo argentino, gente torcendo
para as coisas darem mais ou menos certo e gente sem entender o que se
passava. Várias dessas pessoas estão aí, candidatos
a herdeiros da construção bem-sucedida. Política
é uma nuvem, não é mesmo?
No campo da oposição, a surpresa com o sucesso da nova moeda,
e com a assimilação da URV (unidade real de valor) em particular,
levou os membros dos comitês centrais de cada partido a adotar,
desde o início, uma leitura da Marcha das Forças Produtivas,
segundo a qual o Plano Real era uma conspiração burguesa
baseada num artificialismo, um truque como tantos outros anteriores, dessa
vez com base no câmbio. A oposição ficou, dessa maneira,
prisioneira de um diagnóstico errado do qual não conseguiu
mais livrar-se nem mesmo na eleição seguinte, quatro anos
depois.
Justiça seja feita, no campo da oposição à
direita e no mercado financeiro a aposta era semelhante: o ex-ministro
Delfim Netto deu quatro meses de vida à nova moeda e muita gente
graúda se armou, no mercado e nos tribunais, para atacá-la.
Todos deram com os burros n'água. Em pouco mais de dois anos a
inflação tinha caído de 5.500% anuais para "níveis
internacionais" (2% em IPCs, zero em preços por atacado). Ninguém
imaginava que fosse funcionar tão bem, tão rápido
e sem recessões nem piruetas heterodoxas.
Assim sendo, cada aniversário do real representa mais um tabefe
na tese de que houve "erros flagrantes", "populismo cambial" e outras
flores do pântano em que se transformou a cosmologia revisionista
da oposição sobre o sucesso do Plano Real. Erro mesmo, a
julgar inclusive pelas pesquisas de aprovação popular, foi
o do presidente da República ao acreditar nessas teses, agora inteiramente
estraçalhadas pela realidade. Ou seja, se o problema era a chamada
"sobrevalorização cambial", como então ainda estamos
encrencados depois dessa avalanche interminável de maxidesvalorizações?
A flutuação cambial não era para fazer cair os juros?
Cadê o "crescimento sustentado" que estava represado pela "vulnerabilidade
externa"?
Agora que estamos nos aproximando das eleições observa-se,
especialmente nos crentes no bom velhinho, a percepção de
um "amadurecimento" da oposição, que, quase uma década
depois, reconhece que o Plano Real foi uma grande conquista. Ou seja,
os bravos membros do diretório nacional, em conformidade com o
banho de loja promovido pelos camaradas marqueteiros, decidiram contratar
os serviços do senhor Winston Smith, protagonista da novela 1984,
de George Orwell, especialista em reescrever notícias em jornais
velhos para fazê-las consistentes com as novas resoluções
do Grande Irmão. Já se percebe o dedo de Smith no novo documento
e programa do PT, por exemplo, que faz sumir Trotsky da fotografia e adota
uma atitude benigna com relação à estabilização.
Tudo isso é muito bom, pois aponta no sentido do primado do bom
senso, ainda que por fingimento. O real entra em seu oitavo ano, todavia,
sem herdeiro na disputa eleitoral, pois todos os candidatos listados,
inclusive o do governo, são de oposição. Mas no plano
conceitual a vitória é avassaladora, pois, afora o MST,
o Enéas e o PCdoB, teremos um grandioso debate sobre adjetivos.
Gustavo Franco
é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com)
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