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A
paz ainda é possível
O chanceler israelense diz
que é
preciso vencer a
onda de ceticismo
geral para
se chegar a um acordo
com os palestinos
Tania Menai
É
difícil separar a história do Estado de Israel, fundado
há apenas 53 anos, da trajetória pessoal de Shimon Peres,
77 anos. Atual ministro de Relações Exteriores e um dos
caciques do Partido Trabalhista, ele foi duas vezes primeiro-ministro
e participou da maioria dos governos desde 1948. Líder político
num país em conflito permanente com seus vizinhos, Peres cunhou
a imagem de moderado e conciliador. Em 1994, dividiu o Prêmio Nobel
da Paz com o primeiro-ministro Yitzhak Rabin e com o líder palestino
Yasser Arafat pelo acordo de paz assinado no ano anterior. Com o assassinato
de Rabin, em 1995, Peres assumiu como primeiro-ministro, mas foi derrotado
nas eleições do ano seguinte. Como chanceler, Peres tenta
ser uma voz moderada no governo do direitista linha-dura Ariel Sharon,
uma tarefa especialmente espinhosa diante da revolta palestina e do colapso
do processo de paz no Oriente Médio. Casado, pai de três
filhos e avô de seis netos, Peres é o fundador de um instituto,
que leva seu nome, para pesquisas e projetos de diálogo entre árabes
e judeus. Numa conturbada semana de negociações em busca
de um cessar-fogo, Peres falou a VEJA em seu gabinete, em Jerusalém.
Veja Um dia Israel deixará de ser notícia na
imprensa mundial?
Peres
Saímos de 600.000 pessoas em 1948 para 6 milhões. Transformamos
uma terra deserta em país, fomos atacados por todos os nossos vizinhos,
ganhamos guerras, construímos um exército e um sistema educacional.
Apesar de todos os perigos, continuamos democráticos. Israel sempre
foi um drama. É mais um drama do que um país. Há
cinqüenta anos, Israel começou uma maneira singular de desempenhar
a política. É interessante viver uma vida tão exigente.
Este pedacinho de terra nunca deixou de ser um enorme provedor de notícias
para o resto do mundo por causa de sua força, da singularidade,
da intensidade das experiências. Amo este país. Não
me imagino vivendo em nenhum outro lugar. Seria muito monótono.
Quando olho para cinqüenta anos atrás e comparo com hoje,
vejo que temos 1 milhão de russos, 100.000 etíopes, judeus
e não-judeus. Isso é fascinante.
Veja O processo de paz com os palestinos está paralisado.
Qual a responsabilidade de Israel no colapso de negociações
tão promissoras?
Peres
Tanto
a direita quanto a esquerda israelense cometeram graves erros no passado.
Hoje é bastante difícil consertá-los, ainda que seja
essencial corrigir os erros de ambos os lados. O problema é que
a direita ocupou terras em excesso de nossos vizinhos, criando um mapa
impossível de ser mantido na prática. Já a esquerda,
para agradar à maioria, fez concessões demais. Devemos aprender
com o passado e compreender que precisamos oferecer aos palestinos o suficiente
para alcançar a paz. Mas também fazer o necessário
para não perder o apoio dos próprios israelenses.
Veja Qual é o peso da religião e de Jerusalém
na disputa com os palestinos?
Peres
Bem, política é baseada em acordos. Religião é
baseada em compromissos. Não se pode fazer a partilha de um bem
religioso. O máximo que se consegue é compartilhá-lo.
As questões políticas são baseadas, por sua vez,
em divisões de território, de forças ou de posições.
Na religião, o que interessa é o direito de rezar para Deus,
cada um a sua maneira, com a própria voz, sem censura. A política
é controlada por soberanias. Jerusalém deve ser aberta a
todos os credos, todos os fiéis, sem monopólio de ninguém.
Todos devem ter direito de visitar seus lugares sagrados.
Veja Quando era secretária de Estado dos Estados Unidos,
Madeleine Albright disse que "o futuro dos jovens israelenses depende
mais da sabedoria do que de quanto território eles ocupam". O senhor
concorda?
Peres
Não há como não concordar. Nunca teremos terras suficientes.
E, tradicionalmente, o povo judeu tem mais história e sabedoria
que território.
Veja O senhor disse que na hora H o líder palestino
Yasser Arafat se parece com os elementos flutuantes numa pintura de Chagall.
Ou seja, falta-lhe objetividade. O Arafat de hoje é o mesmo com
quem o senhor dividiu o Prêmio Nobel da Paz em 1994?
Peres
Sim, é o mesmo. Ele muda as regras, mas não pode mudar de
personalidade. Da mesma forma que é capaz de grandes decisões,
ele toma decisões erradas. Enquanto criticamos sua tomada de decisões
erradas, subestimamos sua capacidade de tomar decisões importantes.
Veja Desde que a atual rebelião palestina começou,
há nove meses, a receita do turismo despencou 70% em Israel. O
impacto negativo sobre a economia pode servir de incentivo para a busca
de um acordo de paz?
Peres
De um ponto de vista econômico, temos de dar um basta aos conflitos
o mais rápido possível. Quanto mais cedo, melhor. Mas essa
não é a única questão que importa. Os israelenses
estão muito decepcionados. O fato de que não podemos atender
a todas as demandas dos palestinos está deixando todos muito céticos.
Existe uma onda de ceticismo, o que freia a transição para
a paz. Contudo, ainda acho a paz possível.
Veja O senhor acha que a opinião pública mundial
está agora mais ou menos simpática aos palestinos?
Peres
Os palestinos têm um grande inimigo, o terrorismo. Na verdade, o
mundo está unido não apenas contra eles, mas contra ambos
os lados do conflito. É uma atitude sem precedentes.
Veja O senhor concorda que a imagem internacional de Israel
nunca foi tão negativa como agora?
Peres
Não é a imagem que define a realidade. A imagem é
parcial, irreal. Isso decorre do fato de ser construída a partir
do noticiário da televisão. A televisão mostra a
história, mas não a conta. Seu noticiário é
baseado na rapidez, sem profundidade nem refinamento. A humanidade está
dividida em duas partes: a que lê livros e a que assiste à
televisão. As pessoas que lêem têm mais tempo, participam
mais, contemplam mais. Esse ritmo mais lento é que forma a aristocracia
de uma civilização. É uma pena que a maior parte
das pessoas tenha pressa. O vai-e-vem rápido do noticiário
da televisão não ajuda a entender situações
complexas como a do Oriente Médio.
Veja O senhor costuma falar de um "Novo Oriente Médio",
sem guerras e com desenvolvimento econômico. Isso ainda é
viável?
Peres
O Oriente Médio está entrando numa nova era, trocando os
profetas pela tecnologia. As regiões prósperas são
aquelas que produzem tecnologia. Não tem como escapar. Antes, o
mundo era conectado pelo mar e pela terra. Agora, ele é conectado
pelo ar. E no ar não há história, geografia nem soberania.
Apenas comunicação, que é um importante meio de transporte.
A divisão entre classes já não é definida
entre quem tem e quem não tem posses, e sim entre quem está
conectado ou desconectado. Os desconectados permanecerão pobres.
Grande parte do Oriente Médio continua desconectada do resto do
mundo, vivendo no passado. São lugares com ódios, nacionalismo
exagerado e subdesenvolvimento econômico.
Veja O senhor afirma que é do interesse de Israel
que os palestinos formem uma sociedade moderna, não apenas uma
reserva de mão-de-obra barata para os israelenses. Como seria possível
chegar a isso?
Peres
Por
meio da educação. A modernização começa
nas salas de aula. Da mesma forma que o Exército é treinado
nos quartéis, as crianças são treinadas nas escolas.
É preciso cuidar bem das crianças desde pequenas. É
possível corrigi-las ainda no ventre de suas mães, fazendo
com que elas nasçam saudáveis, suprindo-as com a alimentação
e a educação corretas durante a primeira infância.
Nem sempre os pais fazem isso. É o nosso erro, a nossa falha. Depois
temos de prepará-las para entrar na universidade. Devemos aprender
durante toda a vida. Não devemos ser eternos estudantes, mas sim
professores de nós mesmos.
Veja Então se está longe da situação
ideal, pois nas salas de aula das escolas palestinas prega-se a Intifada,
a revolta popular. Como mudar essa situação?
Peres
Se os estudantes aprenderem a odiar, não vão aprender a
se importar com a tecnologia. O ódio é conflitante com a
ciência. Ciência é a busca intransigente da verdade.
Não se pode combinar ciência e mentira. A propaganda política
corrompe a capacidade de uma pessoa aprender objetivamente. Não
podemos atrair investimentos se não tivermos transparência.
Não podemos ter pesquisas se não formos uma sociedade livre.
Não se pode ter cientistas se o país estiver corrompido.
Se o sistema é corrupto, o governo será sempre arbitrário.
Não basta comprar computadores e implementar acesso à internet
para criar uma sociedade de alta tecnologia. É preciso ter a mentalidade
certa. A ciência nos levará à democracia. Cada vez
mais a ciência está nas mãos das empresas privadas.
É papel do Estado combinar liberdade científica com liberdade
social. Desenvolvimento tecnológico com transparência.
Veja Como será o dia seguinte de um acordo de paz
entre israelenses e palestinos?
Peres
Não sei. O direito de ser igual como indivíduo, mantendo
sua própria personalidade, é a essência da paz. Acredito
que a democracia tem dois significados: o direito individual de igualdade
e o direito individual de ser diferente. Nossos netos saberão apreciar
a paz. Mas isso não evitará que odeiem outras crianças.
Eles têm de aprender sobre a cor de sua pele, sua religião,
sua vida, seu passado, seu legado. O desafio é fazer com que se
saibam diferentes e aceitem as diferenças nos outros.
Veja A comunidade Neve Shalom, ou Oásis de Paz, situada
perto de Jerusalém, foi criada há trinta anos para tentar
a convivência entre árabes e judeus. Lá vivem cinqüenta
famílias, metade árabes, metade judeus. Mais 300 famílias
estão na fila de espera, mas não há espaço.
O senhor acredita na ampliação de soluções
como essa?
Peres
Vejo soluções nas formas de coexistência entre os
dois povos, mas não necessariamente coabitando no mesmo vilarejo.
Veja Tendo um Prêmio Nobel da Paz nas mãos,
como o senhor define a paz?
Peres
É o direito de um indivíduo de expressar seus talentos sem
sofrer repressões.
Veja Alguns israelenses dizem que o senhor é um visionário.
Outros acham o senhor um sonhador...
Peres
Um visionário é alguém que vê o futuro. Um
sonhador é aquele que gosta de viver fantasias durante a noite,
mas não é possível sonhar durante o dia. O dia é
dos visionários. A noite, dos sonhadores.
Veja O senhor participou de diversos governos, com diferentes
visões. Qual é o governo ideal na sua opinião?
Peres
O poder é algo vazio, uma ilusão. O governo não é
tão poderoso como as pessoas pensam. Na verdade, o que conta é
a visão, e não o poder. Há conflito entre diferentes
visões, mas houve acordos que nos ajudaram a passar por momentos
difíceis juntos, apesar das diferenças. Essa é uma
necessidade nacional, porque o perigo é tanto e as oportunidades
tão poucas que temos de unir nossas forças.
Veja O senhor é religioso?
Peres
Deixe-me fazer uma distinção entre religião e fé.
Religião é uma organização, como rabinos ou
padres, bispos e tradições. Ter fé não significa
necessariamente reconhecer qualquer uma dessas organizações.
Somos conectados diretamente a Deus, sem precisar da intermediação
de rabinos ou padres. Nesse sentido, certamente não sou religioso,
mas tenho fé. Não sei onde está Deus. Talvez no céu,
talvez em nosso coração ou em nossa alma. Mas uma alma sem
um Deus é uma alma muito pobre. Então, tenhamos Deus em
nossa alma, de modo que ele nos faça mais nobres, crédulos,
engajados e mais delicados. Deus não nos pede nada específico.
Podemos viver segundo nossa consciência e nossa mentalidade. Dessa
forma, não tenho muito que questionar. Por que não adotar
um Deus em meu coração?
Veja O que o levou à política?
Peres
Temos de tomar partido. Não podemos permanecer neutros. Não
gosto da neutralidade, ela é uma forma de escape. Temos de fazer
escolhas. E eu fiz a minha. Nasci numa época em que boa parte das
pessoas era marxista ou comunista. Eu era contra isso. Optei pelo socialismo.
E meu socialismo veio da Bíblia. Eu não via necessidade
de violência. Parte da minha geração apoiava a partilha
da terra, contanto que Israel fosse um Estado independente. Na época
em que fui eleito secretário do Ministério da Defesa, ocorreu
a Guerra da Independência. Lutei pela diversidade. No futuro temos
de viver sob nosso legado espiritual, nosso talento para as ciências
e transformar-nos numa nação contribuinte para o resto do
mundo. Pessoas que produzem paz e esperança.
Veja O senhor tem medo de morrer da mesma forma que Yitzhak
Rabin, assassinado por um extremista israelense em 1995?
Peres
Não.
Quem teme a morte nunca aproveita a vida.
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