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Edição 1 707 - 4 de julho de 2001
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Robson Fernandes/AE

Alexandre Secco e Rubens Valente

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Março de 1989: Lula é candidato à Presidência da República e atinge 18% das intenções de voto segundo o Datafolha. Fernando Collor tem apenas 9% e a vitória petista é líquida e certa. Deu Collor.

Junho de 1994: de acordo com uma pesquisa do Ibope, o candidato do PT chega a 39% na corrida ao Palácio do Planalto. O ex-ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, situa-se na casa dos 17%. Alguns analistas já afirmam que Lula vencerá sem risco. Deu FHC.

Junho de 1998: Lula e o presidente Fernando Henrique estão empatados tecnicamente com cerca de um terço dos votos cada, e tudo indica que o PT conseguirá criar condições para levar a disputa ao segundo turno. Deu FHC, no primeiro turno.

Junho de 2001: Lula volta a atacar pela quarta vez e as pesquisas novamente o apresentam em primeiro lugar na corrida presidencial. Como Lula perdeu nas três outras ocasiões em que disputou a presidência, os meio políticos apostaram que a história se repetiria. A expectativa de que a candidatura murcharia era tão forte que petistas mais ousados, como o senador Eduardo Suplicy e o ex-governador de Brasília, Cristóvam Buarque, lançaram-se como nomes alternativos. Mas, com o passar dos meses, começa a delinear-se uma possibilidade diferente. Em 1994, o eleitor foi o Plano Real. Em 1998, o propulsor da vitória foi o próprio Fernando Henrique Cardoso, que o eleitor associava à manutenção da estabilidade. É difícil imaginar, para 2002, um elemento de desequilíbrio tão forte quanto a conjunção de FHC com o Real. A um ano e três meses das eleições, nenhuma previsão é digna de crédito a respeito dos resultados das urnas. Mas quando se examinam os fatos como se apresentam hoje, sem a tentativa de projetá-los no futuro, tudo indica que as perspectivas de Lula chegar ao Palácio do Planalto estão mais fortes do que nunca estiveram.

Na semana passada, foram divulgadas duas novas pesquisas, uma do Ibope/CNI e outra do Sensus/CNT. Como era de esperar, Lula mantém uma distância folgada em relação ao segundo colocado. A pontuação varia segundo a lista de candidatos apresentada aos entrevistados. Ele tem 28% das intenções de voto no Ibope e 33% na Sensus. Nada muito diferente das vezes anteriores, mas a observação das camadas interiores das pesquisas apresenta fatos curiosos. Lula é candidato desde 1989, mas jamais conseguiu o que se vê agora: obter dos eleitores uma quantidade de votos significativa em todas as regiões brasileiras, em cidades de todos os tamanhos e também em todas as classes socioeconômicas. Itamar Franco tem o grosso de seus votos em Minas Gerais. Anthony Garotinho concentra seu poder de fogo no Rio de Janeiro e Ciro Gomes conta com a força extra do Ceará. De acordo com os especialistas, há dois candidatos com a votação quase tão pulverizada quanto a de Lula: Enéas, do Prona, e o ministro da Saúde, José Serra, do PSDB. Os dois são citados de norte a sul do país por um pequeno punhado de eleitores e estão praticamente empatados, com algo entre 5% e 7%, conforme a simulação. Essa pulverização é interpretada como um fator que praticamente garante a presença de Lula no segundo turno da eleição.

Outro indicador interessante de observar é o índice de rejeição do eleitor a um nome. Nas últimas três eleições, Lula esteve no bloco dos políticos mais rejeitados pelo eleitor. Quando um pesquisador perguntava "em quem você jamais votaria?", Lula era uma das respostas mais freqüentes. Nas pesquisas realizadas em dezembro e março passados pelo Ibope, o petista apareceu no bloco dos quatro candidatos com menor índice de rejeição. Em junho, quando foi feita a última pesquisa, uma surpresa: pela primeira vez, ele apareceu como candidato que tem o menor índice de antipatia do eleitor, empatado com Ciro Gomes. Lula e Ciro estão com 40% de reprovação, contra 54% de Serra e Itamar Franco. Detalhe: na rodada anterior, Ciro Gomes tinha 36% de rejeição e Lula, 43%.

Há outro fator, este surpreendente, apontado em pesquisas recentes. Numa delas, encomendada pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI) ao Ibope, perguntou-se a 2.000 pessoas o que pensavam do socialismo. Nada menos do que 50% foram favoráveis à sua implantação no Brasil. O Ibope também perguntou se o Brasil precisa de uma revolução socialista. Cerca de 55% concordaram com a proposta. Na pesquisa, 78% dos entrevistados querem uma presença mais forte do Estado na economia. Como "socialismo" e "revolução socialista" estão associados a idéias complexas e um tanto exóticas para andarem na cabeça de brasileiros comuns, a CNI encomendou uma pesquisa qualitativa para decifrar a compreensão popular dessas expressões. O trabalho, entregue ao Cepac – Pesquisa e Comunicação, foi coordenado por Ney Figueiredo, integrante do Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp e consultor político da CNI.

 

Ouvidas 600 pessoas, representantes de todos os segmentos do eleitorado, chegou-se à conclusão previsível de que "socialismo", na acepção popular, nada tem a ver com marxismo, Mao Tsé-tung ou Che Guevara. Para os brasileiros ouvidos na pesquisa do Ibope, socialismo é sinônimo de "união", "amizade", "comunhão", "partilha", "respeito", "solidariedade" e "justiça". Da mesma forma, "revolução socialista" não tem nenhum parentesco com Cuba nem com a guerrilha do Araguaia. Conforme o levantamento, trata-se de uma "mudança social", "ampliação das oportunidades de emprego", "diminuição da corrupção". Não importa muito que haja uma confusão dos entrevistados, baseada em falta de informação. O que importa, segundo Ney Figueiredo, é que "o PT é o partido que os entrevistados mais associam aos ideais que admiram".

Na direção oposta, Lula e o PT procuraram livrar-se do excesso de radicalismo que os acompanhava desde a criação do partido, há 21 anos. É verdade que a legenda continua abrigando alas que defendem idéias estapafúrdias, como a luta armada e a implantação de um modelo comunista de gestão no Brasil, mas em geral o PT se modernizou um pouco. Em 1994, como parte de sua campanha à Presidência, Lula participou de um ato contra a privatização da Embraer em frente à fábrica, localizada no interior de São Paulo. No último mês de maio, voltou à empresa, agora privatizada, para uma visita de cortesia ao presidente da companhia, Maurício Botelho. O petista recebeu a informação de que, desde a privatização, a Embraer aumentou seu volume de exportações em quarenta vezes. Tornou-se a quarta maior fabricante de aeronaves comerciais do mundo e há dois anos é o maior exportador brasileiro, atropelando artigos como soja ou suco de laranja. E tem quase tantos funcionários quantos abrigava em seus tempos de estatal. Lula saiu do encontro elogiando a privatização da Embraer. Em janeiro de 1989, falando sobre seu programa para a dívida externa, o candidato do PT afirmou: "Nós, do PT, estamos convencidos de que a pior doença desse país é a dívida externa. Nossa posição é clara: teremos de suspender seu pagamento". Dias atrás, Lula deu nova declaração sobre o assunto. Observe a mudança de tom: "Existem contratos que não podem deixar de ser cumpridos, mas isso não significa que sejamos obrigados a concordar com eles".

Na semana passada, Lula tinha convite para encontrar-se com um pelotão de empresários. No mês passado, reuniu-se com o comitê executivo do BBV Banco, em São Paulo. Citibank e Lloyds já o convidaram e aguardam uma resposta. Até com políticos de direita Lula está tendo encontros. Na semana passada, esteve com o presidente nacional do PL, deputado federal Valdemar Costa Neto, cercado de políticos da legenda. Valdemar Costa Neto estava radiante depois da reunião. "Há quatro anos, Lula não passaria nem no corredor da nossa liderança. Hoje, ele não só foi ao nosso encontro como conquistou todo o pessoal. Impressionante como ele evoluiu. Eu não tenho mais medo de votar nele", declarou o deputado Costa Neto. Como o PL possui ventosas dispostas a aderir a qualquer governo, o desejo de falar com Lula é um indicador de que o PL não quer correr riscos.

Não se pode esperar que um petista se entusiasme de coração com privatização, enxugamento da máquina estatal, reforma da Previdência e combate árduo ao déficit público, como foi ou está sendo feito nos países mais avançados. O petista vive num claustro cheio de divisões e seitas e, na maioria dos casos, carrega um passado de militância em favor de um modelo de sociedade que deixou de existir com a queda do Muro de Berlim, em l989. O que parece claro é que as correntes dominantes do PT aprenderam alguma coisa com as mudanças ocorridas no mundo e com as derrotas consecutivas na corrida presidencial. A legenda aposentou o sonho socialista como bandeira pública e optou pela defesa de um Estado que faça ajustes no modelo neoliberal. A ala dominante no PT atual pode até sonhar com um igualitarismo utópico, mas faz isso apenas fora do expediente de trabalho. De segunda a sexta, aprendeu a separar fantasia de realidade. Foi dessa experiência de amadurecimento dolorido que nasceu o PT cor-de-rosa, como acabou batizado após a vitória de Marta Suplicy na prefeitura de São Paulo. Essa fatia do PT preferiu empunhar uma bandeira muito popular, a da moralidade pública. Este é um momento muito particular em que a defesa da ética tende a fazer mais sucesso.

 
Dida Sampaio/AE

Lula: discurso abreviado por causa da confusão armada por punks na marcha contra a corrupção e o apagão organizada pela oposição e por sindicatos em Brasília na semana passada

Além dessa mudança de foco, o PT também descobriu a delícia de poder exibir administradores sérios que empunham a bandeira vermelha do partido. Um bom exemplo é Olívio Dutra, governador do Rio Grande do Sul. Sua administração tem como bíblia a Lei de Responsabilidade Fiscal, aquela que pune a gastança irresponsável. Zeca do PT, governador do Mato Grosso do Sul, aumentou a arrecadação e colocou em dia a folha de pagamento dos servidores estaduais, que chegara a atrasar quatro meses. A vida interna do PT também se alterou bastante. Essa transformação produziu uma novidade na estrutura do partido: o reconhecimento da existência dos caciques. Sim, porque no PT tudo sempre foi resolvido em intermináveis assembléias. Agora, ganhou peso a decisão de uma cúpula, exatamente como acontece no PFL. Um exemplo disso são os procedimentos para a aprovação dos programas de TV. Os publicitários sempre precisaram apresentar sua proposta a um comitê. O atual publicitário, Duda Mendonça, só precisa prestar contas a alguns chefões. O agrônomo e economista José Graziano da Silva, professor e amigo de Lula há vinte anos, avalia que o partido, de fato, adaptou-se às novas exigências do eleitorado: "Antes, tínhamos propostas muito boas, mas setorializadas, que não 'fechavam'. Quando fazíamos a conta, chegávamos a quatro, cinco vezes o valor do PIB brasileiro. Agora as propostas estão articuladas entre si e a conta fecha", diz Graziano.

Ainda não fecha, infelizmente. Falta ao discurso do PT uma linha central porque o partido quer ser um pouco mais moderno e, ao mesmo tempo, tem ideais históricos a preservar. O conflito transparece no programa de governo divulgado pela legenda há duas semanas, para servir de base à campanha que antecederá as próximas eleições presidenciais. O sonho do PT, em resumo, é administrar um país em que o governo faça investimentos maciços em áreas sociais, conceda subsídios a setores que julgue necessário estimular e, ao mesmo tempo, tenha contas equilibradas; e um país que seja atraente para os investidores estrangeiros. Não dá para fazer tudo isso ao mesmo tempo. A conta não fecha. Conforme o projeto do partido, as dívidas interna e externa serão honradas, sim, mas depois de terem sido feitos os investimentos sociais necessários. O problema, nesse caso, é que o governo sempre precisa de dinheiro novo e costuma tomá-lo emprestado de investidores que esperam ser ressarcidos. Se o investidor tiver a mínima perspectiva de não receber o pagamento, não fará mais empréstimo de espécie alguma. O mundo real tem suas complicações, que os petistas não parecem perceber quando fazem chover suas críticas sobre os administradores do governo tucano.

Aquele país em que é possível ter o melhor de todos os mundos foi inventado pelo escritor inglês Thomas Morus no século XVI. Chamava-se "Utopia". Ali, um governo organizado da melhor maneira proporciona ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz. Mais recentemente, no século XX, outro inglês, o filósofo Isaiah Berlin, que se ocupava em desmascarar idéias utópicas e foi o acadêmico mais influente em seu país durante meio século, afirmou que a essência do pensamento utópico está na crença de que tudo o que é bom é compatível – o que é uma premissa falsa.

 


 
 
   
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