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Mesmo assim, a diferença do PT de hoje para o de ontem é tão grande quanto o tamanho da barba de Lula, que batia no meio do peito há vinte anos e hoje está aparadinha como a de um empresário bem-sucedido com saudade dos seus tempos alternativos. Em outros tempos, a idéia de ver na Presidência um político com o passado e o perfil ideológico de Lula provocava um terremoto emocional em boa parte dos brasileiros, especialmente da classe média para cima, e, particularmente, no meio empresarial. Em 1989, o então presidente da Fiesp, Mario Amato, chegou a afirmar que se Lula fosse eleito os empresários iriam deixar o país. Nos debates políticos, Fernando Collor aproveitava-se da queda do Muro de Berlim, ocorrida naquele ano, para associar Lula ao comunismo. A tática funcionava. "A existência de Lula sempre serviu de combustível para alimentar outras candidaturas", diz o cientista político Marcos Coimbra, dono do instituto de pesquisas Vox Populi. "Agora, dizer que ele é de esquerda só o dignifica diante do eleitor." Essa mudança ocorrida no país faz parte de um processo mundial. Depois de perder duas eleições, em 1981 François Mitterrand foi o primeiro presidente socialista a chegar ao poder em um grande país europeu durante a Guerra Fria. As ações despencaram em média 20%, o franco desabou a níveis jamais vistos e bilhões de dólares em divisas, boa parte na forma de ouro, atravessaram a fronteira. Nos primeiros meses da Presidência, Mitterrand assinou uma série de medidas inspiradas na cartilha socialista mais ortodoxa, entre elas a estatização de empresas e de bancos e o aumento do salário mínimo por decreto. O pacote colocou o país de cabeça para baixo: a inflação subiu e o desemprego aumentou. Com a ajuda de políticos conservadores e com a revisão das medidas mais radicais, a casa foi colocada em ordem. Após o susto francês, a Europa conheceu um tipo moderado de socialismo e muitos países passaram a aderir a alguma de suas muitas variações. Felipe González, na Espanha, e Mário Soares, em Portugal, vieram logo em seguida. Quando Tony Blair foi eleito primeiro-ministro da Inglaterra, em 1997, após dezoito anos do regime conservador de Margaret Thatcher, não houve nervosismo algum. Moderadíssimo, Blair não mexeu no que vinha dando certo na administração anterior. Estabilidade econômica e ambiente favorável à iniciativa privada foram mantidos. Em 1998, o socialista Gerhard Schroeder foi eleito para substituir Helmut Kohl na Alemanha. Num primeiro momento, colocou um líder da velha-guarda socialista no Ministério das Finanças que tentou adotar um plano de combate ao desemprego típico da velha esquerda, com aumento nos impostos cobrados às indústrias, redução da jornada de trabalho e criação de um pacto entre governo, empregadores e sindicatos. Quando ficou evidente que trafegava na contramão da História, acabou demitido. Uma das primeiras medidas de Schroeder após essa tentativa fracassada foi propor um pacote de redução de 16 bilhões de dólares no orçamento. Há muitas diferenças entre as diversas linhas políticas e econômicas adotadas atualmente, mas o mundo já não admite discussões em torno de questões lógicas. "A Boeing e a Airbus fazem aviões diferentes, mas todas as aeronaves que saem das fábricas têm asa. Ninguém debate isso porque sem ela o equipamento não voa", afirma Marcos Coimbra. As lideranças mais lúcidas do Partido dos Trabalhadores sabem disso, mas como a legenda não é monolítica e é preciso agradar à militância mais à esquerda, a realidade acaba produzindo esquizofrenias. É o caso do programa econômico recentemente divulgado. Alguns integrantes da cúpula petista confidenciam que ele é apenas um ensaio inicial e não deve ser tomado ao pé da letra porque contempla muitos itens para agradar a correntes inconciliáveis. No discurso do PT, há a expressão de desejos que são universais, como o de saúde e educação para todos, um sistema de habitação que funcione para os pobres, além da redução das desigualdades de renda. Não há como discordar dessas coisas. O desafio é implementá-las todas, ao mesmo tempo que se controla a explosão inflacionária e milhares de outros detalhes que um governante não pode esquecer. Num eventual governo petista, a realização do sonho seria um problema agudo. O cientista político Sérgio Abranches estuda a chamada governabilidade há muitos anos. Num trabalho feito com dezessete países democráticos, Abranches descobriu que o Brasil é o único em que o xadrez de apoio dos partidos ao governo se dá num sistema de grandes coalizões. O estudo de Abranches mostra que, no pós-guerra, os governos no Brasil sempre tiveram no ministério representantes de pelo menos três partidos. Em sua passagem meteórica, Jânio Quadros chegou a colocar seis partidos no governo. Há quatro deles representados no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso: PSDB, PMDB, PFL e PPB. Abranches concluiu em sua pesquisa: "Esse sistema é caracterizado pela instabilidade, é de alto risco e sua sustentação baseia-se quase exclusivamente no desempenho corrente do governo". Não se trata, evidentemente, de uma opção. A governabilidade depende da formação da maioria no Congresso Nacional, e o Brasil montou um modelo de representação com muitos partidos. Um partido de esquerda que chegasse ao poder no Brasil, qualquer um, teria de conviver com um modelo delicado. "Como o potencial de conflito entre os partidos integrantes da base de apoio ao governo é muito elevado, a tendência é retirar do programa os pontos mais polêmicos, as questões mais decisivas", afirma Abranches. Sob pena de não aprovar nada no Congresso, o que significa deixar de governar. A matemática é perversa. Se os partidos de esquerda dobrassem sua representação no Congresso, ainda assim não teriam maioria. Seria necessário atrair pelo menos um partido da atual base governista, provavelmente dois. Claro que o PFL não se furtaria a ajudar. "Não é por outra razão que o PT fala em alianças o tempo todo", afirma Abranches. Com a divulgação das pesquisas em que José Serra aparece com 6% das preferências, o governo percebeu que é preciso fazer alguma coisa urgentemente. Em conversa recente com Fernando Henrique, o publicitário Nizan Guanaes explicou o fenômeno: disse que o eleitorado só vota em candidato oficial, seja ele quem for, se o governo estiver em paz com a opinião pública. O Palácio do Planalto entendeu a deixa: o negócio é divulgar o que o Planalto tem de positivo para apresentar. "O que fazemos agora é mostrar que o governo está agindo bem em muitas áreas e o presidente é quem personifica isso", diz o secretário de Comunicação, Andrea Matarazzo. Fernando Henrique já andou reclamando que seus ministros não defendem o governo como um todo, mas apenas seus ministérios comportamento claríssimo no caso de José Serra, da Saúde, e Paulo Renato Souza, da Educação, cujos nomes aparecem entre os tucanos cotados para a sucessão presidencial de 2002. Serra e Paulo Renato têm presença na mídia, freqüentam programas populares na televisão, mas só falam do que é bom e do seu pedaço. "É claro que o presidente está irritado. Afinal, os ministros são como os apóstolos de Jesus: eles devem falar ao povo", diz um interlocutor de FHC. Se o governo continuar impopular, a eleição do ano que vem terá grande semelhança com a corrida de 1989, quando candidatos de oposição disputavam um espaço no segundo turno. A novidade, a favor de Lula, é que essa campanha pode ser a primeira em que ele não terá uma arma química contra si. Na corrida de 1989, enfrentou o segundo turno, notória arma anti-PT inventada pelo Congresso Nacional. Além disso, a candidatura de Fernando Collor recorreu a acusações de caráter familiar. Em 1994, teve de ombrear com o pai do Plano Real. Para piorar, havia viajado o país todo com sua Caravana da Cidadania, devidamente acompanhado de câmaras de TV. Para aquela eleição, o Congresso aprovou uma lei eleitoral que impedia a exibição de cenas externas nos programas dos partidos. Na eleição de 1998, teve como adversário Fernando Henrique, que não era um candidato, mas um semideus. Agora, a luta promete envolver armas convencionais. Oficialmente, o nome de Lula só será escolhido como candidato do PT em março. Até lá, ele pretende afiar o discurso e investir discretamente no visual. Para tanto, decidiu tomar uma medida e diminuir outra. A medida que tomou foi usar terno com mais freqüência. A que vai diminuir é a linha da cintura. Lula comprometeu-se a emagrecer de 7 a 8 quilos. Há quatro anos, usa camisas encomendadas pela mulher do deputado federal Jaques Wagner (PT-BA), a enfermeira Maria de Fátima Mendonça. É ela quem lhe diz o que usar e como combinar as cores. Maria de Fátima lhe manda pelo menos duas vezes por mês camisas feitas sob encomenda na camisaria Ernesto de Tomazo, de Salvador, que tem como cliente o ex-senador Antonio Carlos Magalhães. As camisas, de algodão, tricoline e cambraia de linho, custam em média 70 reais. A camisaria trabalha com as medidas tomadas por volta de 1998, quando ele estava mais magro. Maria de Fátima conta que enviou a Lula, por fax, uma dieta à base de frutas, peixe, beterraba e banana. "Na verdade ele não tem de mudar muito o visual. Está sempre muito arrumado. Só tem de dar uma melhorada na barba", diz Maria de Fátima. Aos 55 anos de idade, com cinco filhos e três netos, o candidato entra na campanha com boa saúde. No último teste ergométrico que fez, seu coração foi a 160 por minuto e o médico achou que estava tudo bem. Sua taxa de colesterol fica abaixo da linha divisória e dentro da faixa da saúde. Convive apenas com uma irritação nos olhos. Quando Lula toma muito sol ou poeira, seus olhos ficam vermelhos, dando a aparência de que ele está com conjuntivite. Por isso, sempre carrega um tubinho de colírio Claril. Seu único vício são as cigarrilhas e os charutos, mas mesmo assim não passam de dois por dia. Do ponto de vista físico, o candidato está ótimo. Do ponto de vista psicológico, já avisou que, se não der certo dessa vez, desiste.
Com
reportagem de
Adriano Ceolin, Angela Nunes,
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