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Uma
questão de estilo
Ministro
demite a xerife dos fundos
de pensão, que fazia um trabalho
sério e incomodava muita gente
Ana
d'Angelo
Ana Araujo
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Dida Sampaio/AE
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| Brant:
a internet foi a gota d'água |
Solange:
fiscalização mais rígida e multas mais altas |
Desde
sua posse, em março último, o ministro da Previdência
Social, Roberto Brant, não adotara nenhuma medida relevante que
merecesse a atenção da platéia. Na semana passada,
anunciou seu primeiro ato de repercussão pública: demitiu
a secretária de Previdência Complementar, Solange Vieira
de Paiva, 32 anos, uma funcionária que vinha se destacando por
sua gestão corajosa e competente na fiscalização
dos fundos de pensão do país. A Secretaria de Previdência
Complementar (SPC) cuida de um setor poderoso. São 360 fundos de
empresas públicas e privadas que movimentam a fabulosa quantia
de 134 bilhões de reais e têm 2,3 milhões de participantes.
"Fiz todo o esforço para mantê-la, mas nossos estilos não
combinavam de jeito nenhum", explicou o ministro. O "estilo" de Solange
Paiva era o de fiscalizar com rigor um setor que se notabilizou por atuar
nas sombras e divulgar aos interessados o que estava acontecendo.
O ministro não gostou da segunda parte. "Os problemas dos fundos
devem ser esgotados na esfera administrativa. O assunto não deve
ficar na imprensa", reclamou Brant.
O gesto do ministro, acompanhado de sua explicação, não
presta nenhuma ajuda ao governo. Ao contrário, passa a idéia
de que, em certos círculos do poder, é mais conveniente
afastar alguém que tenta coibir a prática de coisas erradas,
como Solange fazia em relação aos fundos de pensão.
Ela permaneceu apenas oito meses à frente da SPC. Chegou ao cargo
a convite do então ministro Waldeck Ornélas, que ficou bem
impressionado com a jovem economista depois que ela criou o "fator previdenciário",
uma fórmula matemática que mudou o cálculo dos benefícios
do INSS e ajudou a estancar o crescimento do déficit da Previdência
Social. Mas, em apenas oito meses, ela se tornou uma dor de cabeça
para os fundos de pensão. Quebrou a tradição de seus
antecessores, que mantinham uma excessiva intimidade com os dirigentes
dos fundos, e comportou-se como defensora dos contribuintes.
Sangria
Em sua gestão, Solange Vieira decretou intervenção
em nove fundos de pensão de estatais que insistiam em manter um
hábito danoso aos cofres públicos a contribuição
das empresas era mais gorda que a dos empregados. Essa prática
tornou-se ilegal em dezembro do ano passado, quando entrou em vigor uma
lei determinando que empresa e empregado tinham de fazer contribuições
rigorosamente iguais. Solange descobriu ainda que outros dez fundos cumpriram
a lei, igualando o valor das contribuições, mas jogaram
o custo para o Tesouro Nacional, numa sangria de 2,3 bilhões de
reais. A secretária também decretou intervenção
branca no maior fundo do país, a Previ, dos funcionários
do Banco do Brasil, que administra uma bolada de 38 bilhões de
reais. A razão: o fundo queria que o Banco do Brasil bancasse sozinho
uma dívida antiga, de 3 bilhões de reais. Ao exigir transparência
dos fundos, Solange colocou recentemente na internet a lista daqueles
cujos recursos eram inferiores a seus compromissos, revelando um rombo
de mais de 15 bilhões de reais. Foi a gota d'água.
Acostumados a fiscalizações frouxas e a atuar nas sombras,
os dirigentes dos fundos de pensão não queriam a economista
na chefia da SPC. O mundo ideal seria que as mazelas que cometiam na administração
dos fundos seguissem longe dos olhos do público e, sobretudo,
que eles pudessem continuar espetando a conta de seus rombos no Tesouro
Nacional. Como Solange combatia justamente o socorro recorrente do Tesouro,
sua arma foi abusar da transparência para que os contribuintes dos
fundos soubessem da real situação de seus sistemas de aposentadoria.
Quando assumiu a SPC, a economista descobriu que o Conselho de Recursos
da Previdência Social não se reunia havia um ano, e as multas
aplicadas eram irrisórias. Ela botou o conselho para funcionar
e aumentou o valor das multas. Seu "estilo" causou desconforto dentro
do governo também. O ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente,
chegou a mandar um recado à secretária: vá mais devagar.
A economista manteve seu ritmo. E, por essa "questão de estilo",
acabou no olho da rua. Terá, agora, de voltar para o lugar de onde
veio: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
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RAZÕES
DO CASTIGO
Confira algumas medidas que Solange
Vieira tomou e que desagradaram
ao governo e aos dirigentes
de fundos de pensão
Interveio em nove fundos que, descumprindo a lei, não igualaram
o valor das contribuições recolhidas pelas empresas
e pelos empregados
Decretou intervenção branca, com a nomeação
de uma diretoria fiscal, em dois fundos. Um deles foi a Previ, o
maior do país e da América Latina, com patrimônio
de 38 bilhões de reais
Divulgou pela internet a lista de fundos que estão com suas
contas desequilibradas, mostrando um rombo superior a 15 bilhões
de reais
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