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De novo na
mira
dos caçadores
Japão
e Noruega lideram a
pressão internacional pela
volta da matança das baleias

Guido Orgis
Após
a proibição da caça às baleias, em 1986, a
maioria das onze espécies desse animal vem se multiplicando lentamente.
Os sinais de recuperação são visíveis. A cada
ano, um número maior de jubartes chega para se reproduzir no litoral
brasileiro. Fenômeno semelhante ocorre com as da espécie
franca. De uns tempos para cá, elas podem ser avistadas com mais
freqüência nas praias catarinenses e em outras partes do mundo.
Até a monumental baleia-azul, com seus 30 metros de comprimento,
dada como um caso quase irrecuperável, está conseguindo
escapar da lenta agonia. Graças ainda à moratória
imposta aos navios baleeiros, existem alguns tipos que já atingiram
quase o tamanho de sua população original ou seja,
daqueles tempos em que não estavam sob a mira dos arpões.
É o caso da minke, um mamífero veloz, com 8 metros de comprimento
e até 10 toneladas de peso. Para os grupos ambientalistas, o pacote
de boas notícias dos mares é um sinal claro de que a política
de proibição deve ser mantida por mais tempo. Já
na opinião de representantes da indústria da pesca do Japão
e da Noruega, entre outros países, esses números são
o argumento que faltava para que a legislação seja revista.
Eles querem ter de volta a licença para caçar e retalhar
em filés as minkes, a espécie mais abundante do momento.
É enorme e intensa a pressão para que isso ocorra.
As discussões
sobre o assunto devem atingir a tensão máxima daqui a algumas
semanas, em Londres, durante o 53º encontro da Comissão Baleeira
Internacional (CBI). Formada por um colegiado de 41 países, incluindo
o Brasil, a entidade é a maior instância de decisão
sobre o assunto. "Não existe consenso sobre a volta da permissão
à caça, e o resultado do encontro é imprevisível",
afirma o diplomata Hadil da Rocha Vianna, que representa o Brasil na CBI.
Mesmo com a proibição de 1986, os navios baleeiros da Noruega
e do Japão continuaram em atividade. No primeiro caso, os responsáveis
pela matança simplesmente ignoraram o acordo internacional e seguiram
pescando nas proximidades do litoral da Noruega. Já os barcos japoneses
valeram-se de uma brecha legal. Como forma de manter viva a indústria
baleeira, uma das mais tradicionais do país, o governo local conseguiu
permissão para que os navios permanecessem em atividade, realizando
pesquisas científicas nos limites do continente antártico.
Em conjunto, estima-se que japoneses e noruegueses mataram no ano passado
mais de 800 minkes. Depois de abatidas, boa parte delas chega em forma
de filé ao Japão, onde há muitos apreciadores da
iguaria. De coloração vermelha, ela é quase tão
saborosa quanto a carne bovina, na opinião dos gourmets politicamente
incorretos.
Segundo
relatórios que o governo japonês promete levar à próxima
reunião da CBI, caso não seja revista a proibição
de caça algumas espécies, como a minke, correm o risco de
atingir a superpopulação e provocar um desequilíbrio
ecológico. Evidências disso já poderiam ser observadas
no continente antártico, onde os estoques de krill, um crustáceo
típico da região, já teriam sido sensivelmente abalados
por causa do apetite das baleias. Nenhum ecologista leva a sério
esse tipo de argumento. Especialistas das organizações não-governamentais
acusam os japoneses de estar praticando uma caça disfarçada
de pesquisa científica. Nos últimos tempos, as brigas entre
os grupos foram se tornando cada vez mais intensas. Há quase dois
anos, um barco do Greenpeace perseguiu e acabou colidindo com o Nisshin
Maru, o navio-laboratório japonês de processamento das
baleias minkes abatidas. Não houve feridos, mas sobraram acusações
pesadas para ambos os lados.
A indústria
da pesca atua de forma organizada e vem conseguindo adeptos para sua causa.
Além de Noruega e Japão, a Islândia e alguns países
caribenhos pregam que esse é um recurso natural que deve ser explorado
pelo homem. Nas páginas da internet em que divulga seus argumentos,
esse grupo chega a sugerir receitas culinárias que poderiam ser
preparadas com filé de baleia. Do outro lado da trincheira, alguns
biólogos admitem reservadamente que talvez seja mesmo a hora de
flexibilizar alguns pontos da legislação da CBI. Mas ninguém
assume essa posição em público, por uma questão
política. "A liberação da caça às minkes
poderia ser interpretada como um sinal verde para a indústria da
pesca avançar também sobre as outras espécies", afirma
o biólogo Ignacio Moreno, do Grupo de Estudos de Mamíferos
Aquáticos do Rio Grande do Sul.
Não
há sequer entendimento sobre o número de baleias de cada
espécie. Por causa da dificuldade de observação desses
animais, existem apenas cálculos estimativos sobre o assunto (veja
quadro abaixo). "As minkes são muito rápidas
e passam pouco tempo na superfície", exemplifica Marcos César
Santos, biólogo da Universidade de São Paulo. O status de
preservação de cada espécie não leva em conta
apenas a quantidade, mas também a capacidade de reprodução
e o ambiente onde vive cada grupo de cetáceos. Em geral, eles são
animais com desenvolvimento demorado. Podem viver até 70 anos e
sua capacidade de reprodução é bastante limitada.
Daí por que se fala em proteger as baleias, e não os carneiros,
as vacas e todos os outros mamíferos. As fêmeas das baleias
só atingem a maturidade sexual entre 8 e 15 anos de idade. Elas
têm somente um filhote de cada vez. E levam no mínimo três
anos para poder parir novamente. Diante do apetite dos arpões,
esse relógio pode ter-se tornado lento demais para garantir a perpetuação
da espécie.
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