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A sorte
grande
Donos
de prédios em más condições
cedem o imóvel para exposição e
ganham uma bela reforma gratuita
Leonardo
Coutinho
Fernando Vivas
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Eduardo Pozella
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Eduardo Pozella
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corretor Antônio José de Carvalho Silva, com a família,
na foto maior, e as imagens de alguns dos ambientes de seu casarão
durante a exposição em Salvador: uma reforma de meio
milhão de reais em troca de seis meses de uso |
No
final do século XIX, os Carvalho Silva compraram no bairro da Graça,
em Salvador, uma mansão com 4.500 metros
quadrados de área construída que exibia ostensivamente todo
o sucesso econômico que a família acumulava com o comércio
de bacalhau e açúcar. Há pouco mais de um ano, o
casarão retratava a decadência desses negócios e as
dificuldades dos descendentes em manter o luxo do passado. Fazia uma década
que as paredes não ganhavam uma demão de tinta. Telhas quebradas
permitiam que a água corroesse fundo as estruturas de madeira e
marcasse de mofo as paredes de tijolos. O mato vicejava no jardim e a
parte elétrica transformara-se num conjunto perigoso e ineficaz.
Para os já não tão ricos Carvalho Silva, a casa tornara-se
um mico difícil de vender, ainda carregado de recordações,
mas também de impostos. Caiu como uma bênção,
sobre eles, a proposta da empresa Casa Cor, que procurava um endereço
para montar na cidade sua exposição itinerante de materiais
de construção e decoração.
"A família
não tinha a menor chance de consertar o imóvel", recorda
um dos membros do clã, o corretor de imóveis Antônio
José de Carvalho Silva Júnior, 44 anos, extasiado diante
dos presentes que ganhou por ceder a casa por apenas seis meses, para
a reforma e o evento. A Casa Cor, uma marca criada em São Paulo
e cujos franqueados de várias partes do país promovem exposições
anualmente, deixou o casarão tinindo de novo. Depois, arquitetos
e decoradores mobiliaram cada ambiente para a exposição.
No final, os donos do imóvel só não ficaram com as
peças de decoração. Afrescos, revestimentos das paredes
e painéis de louça portuguesa foram recuperados com os materiais
modernos e a técnica de raríssimos restauradores especializados,
cedidos pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural
do Estado. Canos, tubos, fios e conduítes agora são novos,
assim como o jardim e o telhado. O casarão retomou o visual digno
de seu endereço, vizinho de residências caras como a do ex-senador
Antonio Carlos Magalhães. Se alguém fosse pagar a conta,
seria necessária uma quantia superior a meio milhão de reais,
mais do que valia todo o imóvel antes da reforma. Os Carvalho Silva
atualmente reforçam o orçamento alugando o salão
de festas e a área externa para casamentos e recepções.
Cobram até 5.000 reais.
Fotos divulgação
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O
Solar Palmeiro, em Porto Alegre, antes e depois das obras bancadas
pela Casa Cor. "Era um imóvel em frangalhos", diz a arquiteta
Marina Nessi, que o restaurou
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A cada ano,
uma dezena de outros imóveis recebe um tratamento igual das franquias
da Casa Cor. Outra família contemplada foi a do engenheiro Adroaldo
Pinto Pereira, de Florianópolis, cuja casa, de estilo mediterrâneo
e feita na década de 70, estava caindo aos pedaços quando,
há dois anos, surgiu a proposta mágica. Ele e a família
moraram nove meses num apartamento pago pelos organizadores da exposição,
que gastaram 350.000 reais para recauchutar
o imóvel. Outra modalidade de negócio da Casa Cor beneficia
muito mais gente. Entidades públicas que possuem prédios
valiosos em ruínas e finanças em estado crítico também
têm sido premiadas com grandes pacotes de obras. No ano passado,
a Casa do Conde de Santa Marinha, em Belo Horizonte, foi alvo de uma reforma
de 15 milhões de reais. Pertencente à Rede Ferroviária
Federal e a caminho de um leilão, o local é usado desde
o fim da exposição como espaço para shows e eventos.
Em Salvador, a restauração desta vez será feita na
estação ferroviária importada da Inglaterra em 1836.
"Seguimos
a tendência de revalorizar imóveis de áreas centrais
das cidades", conta a arquiteta Marina Nessi, envolvida na recuperação
da fachada de um prédio dos anos 20 em Porto Alegre. Em 1995, ela
trabalhou na restauração do Solar Palmeiro, umas das principais
casas tombadas da cidade, então em frangalhos. "Para o proprietário,
o investimento num imóvel tombado geralmente não tem razão
de ser", diz o arquiteto mineiro João Grilo. "Para nós,
pode ser um achado, por juntar as características de época
com um tipo de localização que interessa ao evento." Em
Vitória, esse sopro de vida está alcançando até
um galpão da zona portuária, que depois de receber 300.000
reais em investimento e sediar a exposição vai tornar-se
centro cultural, museu e auditório.
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