| Fale conosco |
| Ajuda |
| Mapa do site |
![]() |
|
|
Crie seu grupo |
O Supremo e a vida realO
STF concorda que é impossível
Cley Scholz
Na última quinta-feira, depois de um longo suspense, o Supremo Tribunal Federal aprovou de alto a baixo as medidas tomadas pelo governo para implantar o racionamento de energia elétrica. Estão de acordo com a Constituição, segundo os magistrados, tanto a limitação do consumo quanto a multa para quem a ultrapassar e o corte temporário de fornecimento para quem reincidir. Foi uma decisão jurídica, como todas as outras do Supremo, mas essa teve uma marca especial de bom senso. Na discussão do tema, ficou claro que a maioria dos juízes considerou tanto a necessidade de o país poupar eletricidade quanto a impossibilidade, ditada pela natureza, de agir de outra maneira. Em suma, pesaram na decisão o nível de água existente nas represas, a incerteza quanto às chuvas e a desmoralização do controle energético que aconteceria se o STF revogasse as medidas. Estava em julgamento uma medida cautelar contra o plano. "Se o tribunal deferir a cautelar, o povo não vai acreditar que deva levar isso a sério", votou o ministro Sydney Sanches. "Se disser que é inconstitucional, o povo não vai mais cumprir." Entre os dez magistrados presentes, dois votaram pela inconstitucionalidade do racionamento: o relator do caso, ministro Néri da Silveira, e o presidente do STF, Marco Aurélio Mello. Eles se basearam na tese de que o poder público não pode interromper o fornecimento de serviços, mas os outros oito analisaram o caso por outros ângulos. Primeiro, não é o governo quem faz chover e, na prática, o que está faltando é água nas represas. Segundo, o racionamento é uma forma de disciplinar o consumo e garantir que, na escassez, todos tenham uma redução proporcional do serviço e possam tentar livrar-se do mal maior, que seria o apagão. O plano de controle de energia incomoda a todos equilibradamente. Na ausência dele, quem tem mais poder econômico poderia manter o alto consumo. Quando a energia acabasse, esses ficariam iluminados por geradores enquanto a maior parte da população estaria no escuro. Independentemente da discussão que havia no STF na semana passada, os brasileiros já tinham demonstrado numericamente sua adesão ao controle do consumo de energia.
Nos primeiros trinta dias da mobilização nacional contra as trevas, os brasileiros pouparam 4.175 gigawatts, o equivalente ao consumo de um país como o Peru. A água economizada nos reservatórios somou 112,7 bilhões de metros cúbicos, um volume que daria para encher quatro vezes a Represa de Itaipu. O ritmo de redução no nível dos lagos das hidrelétricas do Sudeste, que até maio era de 1% a cada quatro dias, mudou drasticamente. Em trinta dias, foi de apenas 1,2%. Os fabricantes de lâmpadas fluorescentes compactas venderam cerca de 10 milhões de unidades desde as primeiras notícias sobre o risco do apagão. O resultado líquido desse esforço, anunciado pelo ministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, presidente da Câmara de Gestão da Crise de Energia Elétrica, é que a água acumulada nas represas de toda a região afetada é suficiente para quatro semanas de geração de energia elétrica. Parece pouco, mas quando a crise começou não havia nem mesmo um prognóstico quanto à duração das reservas. Só São Pedro não tem feito nenhum esforço para melhorar o quadro energético. A média histórica de chuvas na Região Sudeste é de 22 milímetros nesta época. Neste ano, choveu menos de um quarto disso. Do lado do governo, houve uma medida de impacto imediato a de reduzir a tensão elétrica em 5% para poupar mais 2% de energia e o apressamento de ações de médio e longo prazo. O BNDES vai liberar financiamentos de 775 milhões de reais para a construção de quatro usinas termoelétricas a gás natural e foram aceleradas as obras de construção da linha de transmissão entre a Usina de Tucuruí, na Região Norte, e o Nordeste. Quando ela estiver pronta, em um mês, o Norte também entra no racionamento e o excedente de energia irá para o Nordeste. No rol de medidas mais recentes, aproveitou-se para remendar equívocos, como o racionamento que se exigia também da indústria de cabos elétricos justamente a que tem de produzir linhas de transmissão que podem ajudar a melhorar a distribuição de eletricidade. Em São Paulo, há uma discussão difícil sobre o fechamento de um canal da Hidrovia TietêParaná. Fechando o sistema, com uma barragem de terra de mais de 100 metros, ganham-se 500 megawatts, mas se pode produzir um prejuízo de 500 milhões de reais, segundo os transportadores de produtos agrícolas.
Esse fenômeno é o lado mais perverso da mesma estiagem que afeta a produção de energia. Trata-se da pior seca dos últimos setenta anos. Pela primeira vez, ao lado das ações emergenciais, o governo está anunciando um plano que permitirá, no futuro, que a população das áreas atingidas tenha um seguro que as socorra automaticamente nos anos de estiagem. A idéia é evitar que a falta de água signifique, além de falta de energia, também falta de comida na região.
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
|