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Roberto
Pompeu de Toledo
Fracassomania
e sucessomania
Argentina
e EUA
encarnam
maneiras
opostas
de encarar
a política
e a
vida em
geral
A
Argentina e os Estados Unidos têm algo em comum: estão sendo
governados por presidentes que são um pouco menos, ou talvez um
pouco mais, que desastrosos. Mas a Argentina e os Estados Unidos têm,
em contrapartida, uma diferença fundamental. Na Argentina, o que
está dando errado tem tudo para dar errado mesmo. Nos Estados Unidos,
o que está dando errado pode ser declarado certo, e com tanta insistência,
e por tanta gente, que acaba dando certo. Parece complicado? Vamos por
partes.
O presidente argentino, Fernando de la Rúa, tem fama de sem-graça
e indeciso. Isso já antes da eleição. Eleito, a esses
qualificativos somou-se o de incompetente. Quando, em desespero de causa,
chamou Domingo Cavallo para gerenciar a economia, e com ela o país,
foi ao chão. Passou a bola ao outro e, com ela, o recibo de que
a tarefa de governar o ultrapassava. De la Rúa é vítima
habitual das charges dos jornais e dos programas de humor da TV. Num desses
programas, toca o telefone celular e o ator que faz De la Rúa pede
para outro atender, tão atrapalhado fica ele com o aparelho. Noutro,
é como um poste que serve apenas de cenário, enquanto outros
lhe dão ordens: "Fernando, mais para lá"; "Fernando, sai".
Na semana passada, o porta-voz do governo argentino, Juan Pablo Baylac,
voltou-se contra os humoristas da TV. "De la Rúa é um funcionário
eleito pelo povo e, goste-se ou não, é o cidadão
argentino que nos representa. Se nós, argentinos, zombamos desse
homem, provocamos grave dano à hierarquia da investidura presidencial",
disse. O que provocou a ira do governo foi um programa que, líder
de audiência, com picos de 38% de espectadores, exibe uma versão
do famoso Big Brother em que, em vez de concorrentes anônimos,
uma dúzia de políticos é trancada numa casa. Lá
estão, entre outros, De la Rúa, Cavallo, o ex-presidente
Menem e sua nova mulher, Cecilia Bolocco. O ator que faz Cavallo grita
e dá ordens. De la Rúa é um pobre coitado.
Nos Estados Unidos programas de TV caricaturando Bush também não
faltam, mas a realidade nos basta. Antes da recente viagem à Europa,
que talvez tenha sido sua primeira ao outro lado do Atlântico (a
Casa Branca recusou-se a esclarecer este ponto), Bush tomou aulas de política
externa com um time no qual se incluíam o ex-embaixador na França
Felix Rohatyn e o escritor inglês Timothy Garton Ash, convidados
para a tarefa pela assessora presidencial Condoleezza Rice. Todos, segundo
a revista Newsweek, assumiram o compromisso de silenciar quanto
à missão, para não suscitar interpretações
embaraçosas. Acertou-se ainda, nos preparativos da viagem, que
o primeiro país a ser visitado seria a Espanha. Como ali o primeiro-ministro,
José María Aznar, é um conservador, Bush teria com
ele mais afinidades e se sentiria mais à vontade. Qual! Na vida
real, o presidente começou por errar o nome do interlocutor. Chamou
Aznar de "Anzar".
Podiam-se citar muitos outros casos de Bush, mas fiquemos por aqui. Nosso
ponto é que, apesar de ser um desastre, pela incultura e a inexperiência,
apesar de parecer perdido entre as ambições das figuras
mais fortes de seu governo, e apesar da popularidade em fase minguante,
Bush ainda pode dar certo e vai dar certo no momento em que declararem
que deu certo. Nos Estados Unidos é assim que funciona. Declara-se
que alguém, ou algo, deu certo, e passa para a história
que deu mesmo. Harry Truman era um homem igualmente medíocre. Decidiu-se
no entanto que "cresceu no cargo" "crescer no cargo" é bem
uma expressão americana e passou em julgado que foi bom
presidente.
Com as instituições dá-se o mesmo. As evidências
são de que elas falharam nas últimas eleições.
Não bastasse Bush ter recebido menos votos populares, ainda se
enredou numa complicada e suspeita apuração na Flórida.
No entanto, encerrado o episódio, declarou-se que o sistema funcionou
"o sistema funciona", eis outra expressão arquiamericana,
em geral acompanhada de embevecidas louvações aos "founding
fathers", os pais fundadores que fizeram a Constituição
e pronto. Se os políticos, os intelectuais e os jornalistas
decidiram que o sistema funcionou, então funcionou. Um dia pode-se
declarar que Bush deu certo, apesar de todas as suas limitações,
e para seu maior mérito ainda, uma vez que conseguiu superá-las,
e ei-lo um vencedor. No caso de De la Rúa, não há
hipótese de que isso ocorra.
A diferença decorre da índole dos respectivos países.
A Argentina é fracassomaníaca, para sacar de uma palavra
cara ao presidente do Brasil. É até covardia, em reforço
a essa tese, recorrer ao tango, mas sejamos covardes. Em Cambalache
se diz que "el mundo fue y será una porquería". Nos Estados
Unidos, em contraste, Louis Armstrong entoa que o mundo é maravilhoso
"What a Wonderful World!". Tanto quanto a Argentina é fracassomaníaca
(e um pouco o Brasil), os Estados Unidos são sucessomaníacos.
Mesmo quando as coisas não dão certo, declaram que dão.
E, por força de acreditar que dão, elas acabam dando mesmo.
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