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Edição 1 707 - 4 de julho de 2001
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Roberto Pompeu de Toledo

Fracassomania
e
sucessomania

Argentina e EUA encarnam
maneiras opostas de encarar
a
política e a vida em geral

A Argentina e os Estados Unidos têm algo em comum: estão sendo governados por presidentes que são um pouco menos, ou talvez um pouco mais, que desastrosos. Mas a Argentina e os Estados Unidos têm, em contrapartida, uma diferença fundamental. Na Argentina, o que está dando errado tem tudo para dar errado mesmo. Nos Estados Unidos, o que está dando errado pode ser declarado certo, e com tanta insistência, e por tanta gente, que acaba dando certo. Parece complicado? Vamos por partes.

O presidente argentino, Fernando de la Rúa, tem fama de sem-graça e indeciso. Isso já antes da eleição. Eleito, a esses qualificativos somou-se o de incompetente. Quando, em desespero de causa, chamou Domingo Cavallo para gerenciar a economia, e com ela o país, foi ao chão. Passou a bola ao outro e, com ela, o recibo de que a tarefa de governar o ultrapassava. De la Rúa é vítima habitual das charges dos jornais e dos programas de humor da TV. Num desses programas, toca o telefone celular e o ator que faz De la Rúa pede para outro atender, tão atrapalhado fica ele com o aparelho. Noutro, é como um poste que serve apenas de cenário, enquanto outros lhe dão ordens: "Fernando, mais para lá"; "Fernando, sai".

Na semana passada, o porta-voz do governo argentino, Juan Pablo Baylac, voltou-se contra os humoristas da TV. "De la Rúa é um funcionário eleito pelo povo e, goste-se ou não, é o cidadão argentino que nos representa. Se nós, argentinos, zombamos desse homem, provocamos grave dano à hierarquia da investidura presidencial", disse. O que provocou a ira do governo foi um programa que, líder de audiência, com picos de 38% de espectadores, exibe uma versão do famoso Big Brother em que, em vez de concorrentes anônimos, uma dúzia de políticos é trancada numa casa. Lá estão, entre outros, De la Rúa, Cavallo, o ex-presidente Menem e sua nova mulher, Cecilia Bolocco. O ator que faz Cavallo grita e dá ordens. De la Rúa é um pobre coitado.

Nos Estados Unidos programas de TV caricaturando Bush também não faltam, mas a realidade nos basta. Antes da recente viagem à Europa, que talvez tenha sido sua primeira ao outro lado do Atlântico (a Casa Branca recusou-se a esclarecer este ponto), Bush tomou aulas de política externa com um time no qual se incluíam o ex-embaixador na França Felix Rohatyn e o escritor inglês Timothy Garton Ash, convidados para a tarefa pela assessora presidencial Condoleezza Rice. Todos, segundo a revista Newsweek, assumiram o compromisso de silenciar quanto à missão, para não suscitar interpretações embaraçosas. Acertou-se ainda, nos preparativos da viagem, que o primeiro país a ser visitado seria a Espanha. Como ali o primeiro-ministro, José María Aznar, é um conservador, Bush teria com ele mais afinidades e se sentiria mais à vontade. Qual! Na vida real, o presidente começou por errar o nome do interlocutor. Chamou Aznar de "Anzar".

Podiam-se citar muitos outros casos de Bush, mas fiquemos por aqui. Nosso ponto é que, apesar de ser um desastre, pela incultura e a inexperiência, apesar de parecer perdido entre as ambições das figuras mais fortes de seu governo, e apesar da popularidade em fase minguante, Bush ainda pode dar certo – e vai dar certo no momento em que declararem que deu certo. Nos Estados Unidos é assim que funciona. Declara-se que alguém, ou algo, deu certo, e passa para a história que deu mesmo. Harry Truman era um homem igualmente medíocre. Decidiu-se no entanto que "cresceu no cargo" – "crescer no cargo" é bem uma expressão americana – e passou em julgado que foi bom presidente.

Com as instituições dá-se o mesmo. As evidências são de que elas falharam nas últimas eleições. Não bastasse Bush ter recebido menos votos populares, ainda se enredou numa complicada e suspeita apuração na Flórida. No entanto, encerrado o episódio, declarou-se que o sistema funcionou – "o sistema funciona", eis outra expressão arquiamericana, em geral acompanhada de embevecidas louvações aos "founding fathers", os pais fundadores que fizeram a Constituição – e pronto. Se os políticos, os intelectuais e os jornalistas decidiram que o sistema funcionou, então funcionou. Um dia pode-se declarar que Bush deu certo, apesar de todas as suas limitações, e para seu maior mérito ainda, uma vez que conseguiu superá-las, e ei-lo um vencedor. No caso de De la Rúa, não há hipótese de que isso ocorra.

A diferença decorre da índole dos respectivos países. A Argentina é fracassomaníaca, para sacar de uma palavra cara ao presidente do Brasil. É até covardia, em reforço a essa tese, recorrer ao tango, mas sejamos covardes. Em Cambalache se diz que "el mundo fue y será una porquería". Nos Estados Unidos, em contraste, Louis Armstrong entoa que o mundo é maravilhoso – "What a Wonderful World!". Tanto quanto a Argentina é fracassomaníaca (e um pouco o Brasil), os Estados Unidos são sucessomaníacos. Mesmo quando as coisas não dão certo, declaram que dão. E, por força de acreditar que dão, elas acabam dando mesmo.

   
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