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Luiz
Felipe de Alencastro
Papai
e mamãe
de proveta
"O
progresso da biogenética e os procedimentos
da reprodução assistida suscitam reações
mescladas de fascinação e de pânico"
Faz
algum tempo que o retrato da família formada por pai, mãe
e filhos começou a estremecer. A queda dos preconceitos legais
e sociais contra o divórcio já havia dado lugar à
multiplicação de famílias recompostas, cujos filhos
são enteados de um dos cônjuges. Porém, com o avanço
da biogenética, a "pluriparentalidade" neologismo utilizado
pelos sociólogos para englobar o conjunto das famílias que
não se enquadram no padrão tradicional ganhou outro
patamar.
Com efeito, nas festas "gay prides" organizadas nas últimas semanas
em algumas capitais, os movimentos homossexuais, às vezes com sólido
apoio da opinião pública de seus países, reivindicaram
o direito ao casamento, à adoção de crianças,
mas também à reprodução assistida mediante
gametas (óvulos ou espermatozóides) e embriões recebidos
de terceiros. Paralelamente, alguns casais autênticos ou
fajutos tomam iniciativas que causam espanto e constrangimento.
Na França, num caso de ampla repercussão internacional ("Incesto
de proveta", VEJA, 27 de junho), dois irmãos, Jeanine (62 anos)
e Robert (52), fizeram dois filhos meio gêmeos graças aos
óvulos de outra mulher. No Japão, uma mulher casada com
um homem estéril aceitou ser inseminada com o esperma do sogro
a fim de assegurar a continuidade da linhagem do marido.
Analisando essas transformações, alguns psicanalistas e
sociólogos assinalam que nos últimos trinta anos a família
tradicional sofreu os abalos provocados pela ruptura de dois elos fundamentais.
Primeiro, o corte entre a sexualidade e a procriação, induzido
pelos contraceptivos modernos. Em seguida, o rompimento entre a procriação
e a filiação, causado pelas técnicas de reprodução
assistida. Muitos conservadores pensam que existe uma relação
de causa e efeito entre os dois fatos: dessacralizado o casamento, os
costumes desestabilizaram-se com a ajuda inescrupulosa da medicina.
Mas o diagnóstico é equivocado. O padrão da família
dita tradicional é mais complicado que isso. A ruptura entre sexualidade
e procriação também existia no modelo familiar dos
dois últimos séculos, dando lugar a relações
extraconjugais nos bordéis e nas casas das amásias "teúdas
e manteúdas", conforme a definição castiça.
Da mesma forma, a quebra do elo entre a procriação e a filiação,
pela exclusão dos filhos ilegítimos, aparece como uma constante
da formação das sociedades.
No século XIX, quando o direito civil passou a equiparar os herdeiros
legítimos, abandonando os privilégios antes reservados aos
primogênitos, as relações de parentesco tornaram-se
um tema-chave da organização social. O casamento, a paternidade
e a filiação legítima tinham como contrapartida o
dote, a herança e a riqueza. Todo o pânico vinha das indefinições
parentais que induziam à falsa identidade, ao incesto e à
ruína. Grandes e pequenos escritores do século XIX teceram
a trama de seus livros em torno dessa temática. Para ficar só
nos grandes romancistas de língua portuguesa, basta lembrar Eça
de Queiroz em Os Maias, José de Alencar em Senhora
e Machado de Assis em Helena. Paternidade oculta, incesto, manipulação
do dote e filiação adotiva fazem o leitor oscilar entre
o fascínio e o medo.
No contexto atual, o progresso da biogenética e os procedimentos
da reprodução assistida também suscitam reações
mescladas de fascinação e de pânico. O paralelo com
o passado desenha-se tanto mais facilmente que em muitas circunstâncias
como parece ser o caso do "casal" francês mencionado acima
o móbil da inseminação artificial é
a transmissão da herança, de bens e de propriedades no seio
de uma mesma família.
Mas o paralelo pára aqui. A biogenética não é,
ou não será, apenas um tema de romance. Terra fértil
para aventuras médicas de todo tipo, o Brasil carece de um debate
aprofundado sobre esse assunto sério e grave.
Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor
titular da
Universidade de Paris Sorbonne (lfa@workmail.com)
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