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Sérgio Abranches

Duas cabeças

"A importância crescente das mulheres no mundo do trabalho mostra que elas são cada vez mais indispensáveis na formação da renda familiar e como o conceito de cabeça da família é obsoleto"

Ilustração Ale Setti


No último Censo, quando o pesquisador encontrava um casal no domicílio, o homem respondia ao questionário completo, como chefe de família. Hoje, indaga quem é o chefe, e o que for indicado responde ao questionário completo. Antes, atribuía-se ao homem a chefia da casa, independentemente de seus atributos socioeconômicos. O gênero determinava. Puro machismo. Agora é igualitário, pois o casal pode escolher. Certo? Claro que não. Primeiro, porque a cultura machista existe também em nossa vida cotidiana e, ainda que a mulher tenha mais atributos de chefia do que o homem, apenas por uma questão de ascendência masculina ele pode ser apontado como o chefe. Segundo, porque a informação relevante não é quem chefia a unidade familiar, um conceito antiquado, mas quem somos nós, brasileiros, homens e mulheres. E, neste caso, como só o (a) chefe dá informações completas, faz-se nosso retrato infiel.

São dois problemas. A discriminação, que coloca a mulher numa posição subordinada, mesmo que ela tenha mais educação, mais renda e maior participação na gestão familiar que o homem. E a perda de informações, que, além de esconder aspectos relevantes da organização social brasileira, pode impedir que vejamos a mudança.

O que é mais importante em pesquisas como essa? Medir o que já sabemos ou processos emergentes, que indicam para onde estamos caminhando? O inventário censitário tem de medir as mesmas variáveis sempre, para que possa dar nosso perfil demográfico. Isso é essencial. Mas as informações complementares deveriam desenhar nosso perfil sociológico. É com base nele que projetamos nossa cara futura, fundamental para o planejamento estratégico, para a revisão de políticas públicas, para a estimativa de nossas necessidades futuras.

As mulheres representam hoje 41% da população economicamente ativa, 40% da população ocupada e 26% dos chefes de família. Elas já superaram os homens em escolaridade, mas permanecem ganhando menos. Essa diferença tem diminuído. Em 1989, o rendimento da mulher era menos da metade do que o homem ganhava. Atualmente, é de quase dois terços, graças à sua luta por mais qualificação. Das mulheres que estão na população ocupada, 30% já têm mais de onze anos de estudo. Entre os contribuintes do imposto de renda pessoa física, 19% dos que ganham mais de 10 000 reais por mês são mulheres. Esses e outros dados mostram três coisas: primeiro, a importância crescente das mulheres no mundo do trabalho; segundo, a desigualdade ainda brutal; terceiro, que elas são cada vez mais indispensáveis na formação da renda familiar no Brasil.

Em conjunto, eles mostram como o conceito de cabeça da família é obsoleto. Indicam também que as mulheres constituem o fenômeno sociológico emergente. O crescimento de sua participação na força de trabalho, o contingente em expansão de mulheres com escolaridade superior numa época de demanda por qualificação, a redução do trabalho manual e o aumento do trabalho não manual são processos que apontam para mudanças sociais e de organização familiar. Seu significado está contido nos papéis sociais emergentes da mulher.

O problema da informação que se perde não é menos relevante. Basta imaginar um casal no qual a mulher é executiva e ganha cinco vezes mais que o marido, um professor universitário altamente qualificado. Se ela responder ao questionário como chefe, porque sua renda é maior, ele, um Ph.D., terá apenas de dizer se é alfabetizado ou não. Se ele responder, porque é homem, ela não dirá sua renda, que é maior.

Mas a informação relevante que se perde não é nenhuma dessas. É o crescimento do número de domicílios em que renda, cultura familiar, dinâmica de relações, perfil sociológico é dado pela igualdade de condições entre homem e mulher. Está em formação uma sociedade de profissionais. Um microssistema social que se caracteriza pela presença íntegra das duas partes. Tomá-lo por qualquer uma delas isoladamente o descaracteriza e ele desaparece dos registros, embora exista em proporção cada vez mais significativa na sociedade real.

 

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 

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