Turismo no
espaço
Presidente da Nasa diz
que em cinco anos
qualquer um disposto a
pagar 50 000 dólares
poderá ir passear fora
da Terra
Bia Barbosa
O
nova-iorquino Daniel S. Goldin entrou para a Nasa logo que se
formou engenheiro, em 1962, e ficou cinco anos na agência
espacial americana. Voltou em 1992, dessa vez como presidente.
À frente de um dos maiores centros de pesquisa do mundo,
ele administra uma verba de 13,6 bilhões de dólares.
É, ainda assim, dinheiro contado, pois o orçamento
do programa espacial americano encolheu 700 milhões de
dólares nos últimos oito anos. Goldin precisou enxugar
a Nasa, reduzindo o custo das missões, reestruturando programas
e terceirizando tudo o que foi possível. Aos 60 anos, ele
tem como maior desafio a construção da Estação
Espacial Internacional, um megaprojeto com a participação
de dezesseis países, entre eles o Brasil, e que deve ficar
pronto em 2006. O presidente da Nasa chega ao país nesta
segunda-feira. Convidado pelo Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais, será o astro principal do Congresso Internacional
de Astronáutica, que será realizado nesta semana
no Rio de Janeiro. Da sede da Nasa em Washington, Daniel S. Goldin
concedeu esta entrevista a VEJA.
Veja A chegada do homem à Lua, em 1969, foi
a última missão da Nasa a causar impacto na opinião
pública mundial. Por que nunca mais se fez algo tão
espetacular?
Daniel
S. Goldin
Não acho que tenhamos deixado de fazer coisas espetaculares.
A Estação Espacial Internacional, atualmente em
construção, é uma grande conquista espacial.
No projeto Apollo, os Estados Unidos levaram o homem à
Lua e o trouxeram de volta sozinhos. A estação espacial
é um programa no qual dezesseis países trabalham
juntos, alguns deles até recentemente inimigos. Quando
tivermos o retorno das pesquisas científicas feitas na
estação e seu impacto na Terra, o projeto será
ainda mais significativo que o Apollo.
Veja Por que a Nasa ainda não consegue enviar
um homem a Marte ou estabelecer uma base permanente na Lua?
Goldin
Há
vários problemas relacionados à saúde humana
que precisam ser resolvidos antes que se possa enviar um astronauta
a outros planetas. Os astronautas que forem a Marte ficarão
fora por dois, três anos. A ausência de gravidade
afeta todos os sistemas biológicos de uma maneira que ainda
não entendemos. Os ossos dissolvem-se, os músculos
atrofiam-se, o sistema imunológico fica mais vulnerável.
Nada do que a medicina desenvolveu nos últimos 100 anos
funciona nesses casos. É por isso, também, que não
temos bases permanentes na Lua.
Veja O custo não é um impedimento tão
grande quanto o da saúde do astronauta?
Goldin
Um projeto da magnitude de uma viagem tripulada a Marte envolve
questões técnicas, médicas e de custo. As
técnicas são as de mais fácil solução,
ainda que seria irresponsabilidade enviar alguém antes
de solucionar os problemas médicos. O último item
é bem sério. Essas viagens são muito, muito
caras. O envio de astronautas à Lua consumiu 5% do Orçamento
dos Estados Unidos. Durante a Guerra Fria, isso parecia um investimento
essencial. Hoje, o orçamento da Nasa representa menos de
1% do Orçamento do país. Até descobrirmos
como fazer a viagem de uma forma bem mais barata, não será
possível mandar astronautas para planetas como Marte.
Veja E quando isso deve acontecer?
Goldin
Acredito que em dez anos teremos resolvido os problemas de saúde
e estaremos desenvolvendo técnicas para chegar ao planeta
vermelho com menos dinheiro. E, se realmente existir água
lá, teremos como realizar essa missão com um custo
muito mais baixo. Dentro de vinte anos, acredito, o homem terá
pisado em Marte.
Veja Quando será possível fazer turismo
no espaço?
Goldin
Creio que dentro de cinco a dez anos teremos companhias levando
pessoas para o espaço por 50.000
dólares. Os turistas precisarão ser gente endinheirada,
mas já não serão apenas os astronautas que
terão esse privilégio. Em vinte anos, o homem irá
para Marte comercialmente. E eu vou viver para ver isso.
Veja Algum dia será possível colonizar
os planetas do sistema solar?
Goldin
Claro que sim. No futuro, milhões de pessoas poderão
ir ao espaço. Quando entrei no programa espacial, no início
dos anos 60, já trabalhava para isso. Tivemos dificuldades
econômicas, a Guerra Fria e simplesmente paramos de sonhar.
Agora estamos começando a sonhar de novo. E é disso
que precisamos para fazer as coisas acontecerem. A tecnologia
disponível atualmente não nos permite viver no espaço,
mas isso pode acontecer.
Veja Mas não há sequer vestígio
de outro planeta com as condições de vida da Terra.
Para onde iríamos?
Goldin
Apenas
acredito que há a possibilidade de vivermos em outros lugares.
Precisamos primeiro encontrar esses lugares e depois saber como
chegar lá. Veja que já fizemos muitas coisas que
pareceriam sonhos há apenas algumas décadas. Temos
espaçonaves na órbita de Marte, de Júpiter
e de sua lua Europa a caminho de cometas e asteróides.
A espécie humana é tão incrível que
vamos descobrir como viver em outros lugares. Mas não acho
que encontraremos um tão bom como este para viver.
Veja Uma tese científica recente, de grande
repercussão, diz que dificilmente encontraremos vida extraterrestre,
pois as condições da Terra são únicas.
O senhor concorda?
Goldin
Já disseram que o homem nunca construiria uma máquina
de voar, que não haveria outras formas de comunicação,
exceto o rádio, que já se havia inventado todas
as coisas que precisavam ser inventadas. E tudo isso foi desmentido.
Pessoalmente, como cientista, creio que há realmente muitas
chances de existir vida fora da Terra.
Veja Além do turismo espacial e do lançamento
de satélites, o que podemos esperar dos programas espaciais?
Goldin
As grandes nações existem porque exploram o desconhecido
sem conhecimento prévio dos benefícios que tirariam
disso. Quando fomos à Lua, tivemos resultados impressionantes,
como a criação do marcapasso e de uma série
de equipamentos de monitoramento intensivo na área médica.
Uma empresa americana acaba de desenvolver uma bomba para transplante
do coração baseada em tecnologia usada no ônibus
espacial e que salvará milhares de vidas. Em pouco tempo,
seremos capazes de fazer previsões sobre o El Niño
com seis meses de antecedência. Isso terá um impacto
enorme na agricultura e nos transportes. Estamos trabalhando ainda
com a indústria automotiva para instalar um software inteligente
nos carros e garantir maior eficiência dos combustíveis.
Veja Mas é com a instalação
e o conserto em órbita de satélites de comunicação
que a Nasa ganha dinheiro. O lucro não é importante
em seu ramo de negócios?
Goldin
Os satélites comerciais da indústria de comunicação
são apenas uma pequena parte de nosso trabalho. As pessoas
vêem somente os resultados comerciais imediatos, mas é
a tecnologia desenvolvida na Nasa que abre oportunidades inacreditáveis
para a pesquisa. Mandamos robôs para o espaço para
estudar a origem, a evolução e o destino do universo.
Temos o Hubble, um dos observatórios ópticos mais
bem-sucedidos da História, tivemos a sonda Pathfinder,
que aterrissou em Marte, a Galileo, que está na órbita
entre Júpiter e sua lua Europa, onde acreditamos existir
um oceano. Agora desenvolvemos telescópios mil vezes maiores
que o Hubble para detectar vida em outros planetas, caso ela exista.
Veja O Congresso americano faz constantes cortes
no orçamento da Nasa. O que o senhor planeja fazer para
evitar uma crise por falta de dinheiro?
Goldin
O que o Congresso e o povo americano estão pedindo são
melhores resultados. E temos conseguido isso gastando muito menos.
Adotamos a filosofia do "mais rápido, melhor e mais barato",
reduzimos o custo da construção das naves para um
terço de seu valor e hoje temos três vezes mais projetos
com um orçamento que tem sido cortado. Isso não
é sinônimo de crise. Acho que a pressão do
Congresso tem sido boa, não má.
Veja Recentemente, quando fracassaram duas sondas
enviadas a Marte, a imprensa americana questionou se isso não
seria resultado da filosofia do "mais barato". A ênfase
no corte de custos não está colocando os projetos
em risco?
Goldin
Nós lançamos 150 vôos experimentais e perdemos
dez. Isso representa apenas 500 milhões de dólares
de um custo total de 18 bilhões de dólares, ou seja,
3%. Não conheço outra organização
que tenha resultados tão bons. Não há como
ter 100% de acertos, somos humanos. As falhas não decorrem
do custo, mas dos riscos quando escolhemos objetivos difíceis.
Não há outra maneira de fazer, pois, se estabelecemos
objetivos medíocres, tudo o que teríamos seriam
resultados medíocres. Novas falhas ocorrerão. E
todos ficarão sabendo, porque fazemos tudo às claras.
Nosso objetivo é mostrar às pessoas que nosso trabalho
vai melhorar a vida delas.
Veja
Melhorar de que modo?
Goldin
Conhecendo o espaço, entendemos como os oceanos, a atmosfera,
a massa terrestre e as geleiras interagem e podemos observar de
que forma a força do homem afeta o clima. Quando nasci,
a Terra tinha 2 bilhões de habitantes. Hoje, tem 6 bilhões.
Se queremos oferecer oportunidades para as gerações
futuras, precisamos entender o que o homem está fazendo
ao meio ambiente. Para isso, temos acordos de cooperação
com mais de cinqüenta países. Trabalhamos ainda em
tecnologias que reduzirão os índices de acidentes
na aviação e permitirão aos aeroportos operar
com o triplo da capacidade atual. As pessoas poderão voar
com segurança não apenas no espaço, mas também
nos aviões. E, quando tivermos foguetes mais confiáveis,
elas poderão viajar pelo universo. Isso não mais
será um privilégio dos astronautas.
Veja Uma de suas iniciativas à frente da Nasa
foi terceirizar boa parte do trabalho, transferindo para o setor
privado as operações do ônibus espacial, do
controle de missões e dos satélites de comunicação.
Isso também foi para poupar dinheiro?
Goldin
O objetivo é fazer tudo de maneira mais confiável
e com mais segurança, o que acaba resultando em custos
menores. O ônibus espacial é muito mais seguro hoje
do que antes de o entregarmos para a United Space Alliance, que
está fazendo um trabalho excelente.
Veja Foi por causa do custo que os Estados Unidos
aceitaram sócios na construção da Estação
Espacial?
Goldin
Poderíamos construir sozinhos. Mas desde o início
o governo dos Estados Unidos queria uma participação
internacional na estação. Quando o projeto começou,
em 1984, ela se chamava Estação Espacial Freedom
e contava com vários países europeus, o Canadá
e o Japão. No início dos anos 90, convidamos a Rússia
e depois o Brasil. Desde o início, queríamos a participação
de outros países.
Veja A Nasa é sócia dos russos na construção
da estação espacial. A rivalidade entre Estados
Unidos e Rússia no espaço realmente terminou?
Goldin
A Guerra Fria acabou e, com ela, a corrida espacial. Naquela época,
eu projetava armas para combater os soviéticos. Atualmente,
Estados Unidos, Rússia, Europa, Japão, Canadá
e Brasil estão trabalhando unidos para tentar melhorar
a vida das pessoas neste planeta. Não apontamos mais mísseis
nucleares uns para os outros. Em um mundo com economia e meio
ambiente globais, é essencial aprendermos como trabalhar
juntos. Acredito que a participação internacional
seja um dos aspectos mais importantes do projeto de construir
a estação espacial.
Veja Por que o Brasil foi o único país
em desenvolvimento convidado a participar desse projeto?
Goldin
Temos
muitos projetos em conjunto com a Agência Espacial Brasileira.
O governo brasileiro considerou que seria importante para o país
participar dessa grande cooperação científica
internacional. Já estive várias vezes no Brasil
e sempre me senti encorajado pelo trabalho que os brasileiros
desenvolvem. O Brasil é uma sociedade emergente no campo
da alta tecnologia, tem um programa espacial importante e é
um parceiro bastante confiável. Sabemos que tem dificuldades
e problemas econômicos. Mas estão fazendo o que se
comprometeram a fazer. É um trabalho árduo, de gente
grande, e nós estamos impressionados com os resultados.
Veja A Nasa também monitora o desmatamento
da Amazônia. Muitos brasileiros temem que esse acesso aos
dados comprometam nossa segurança nacional. O senhor sabe
dessas preocupações?
Goldin
Os efeitos do desmatamento da Amazônia na ecologia, na biologia,
na química, no clima afetam o mundo todo. Qualquer pessoa
no planeta precisa saber disso. Mas a Amazônia pertence
aos brasileiros e é o Brasil que está na liderança
desses estudos. Nós respeitamos essa soberania.
Veja Os ufólogos costumam dizer que a Nasa
faz parte de uma conspiração tipo Arquivo X para
esconder a presença de discos voadores na Terra. Isso faz
sentido?
Goldin
Não existe nenhuma conspiração! Posso garantir
que tenho acesso a todos os arquivos da Nasa e que não
há registro algum de alienígenas na Terra. Temos
todas as ferramentas para registrar esses acontecimentos. Se isso
um dia acontecer, seremos os primeiros a saber.