Entrevista Daniel S. Goldin

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos

Colunas
Diogo Mainardi
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Turismo no espaço

Presidente da Nasa diz que em cinco anos
qualquer um disposto
a pagar 50 000 dólares
poderá ir passear
fora da Terra

Bia Barbosa

O nova-iorquino Daniel S. Goldin entrou para a Nasa logo que se formou engenheiro, em 1962, e ficou cinco anos na agência espacial americana. Voltou em 1992, dessa vez como presidente. À frente de um dos maiores centros de pesquisa do mundo, ele administra uma verba de 13,6 bilhões de dólares. É, ainda assim, dinheiro contado, pois o orçamento do programa espacial americano encolheu 700 milhões de dólares nos últimos oito anos. Goldin precisou enxugar a Nasa, reduzindo o custo das missões, reestruturando programas e terceirizando tudo o que foi possível. Aos 60 anos, ele tem como maior desafio a construção da Estação Espacial Internacional, um megaprojeto com a participação de dezesseis países, entre eles o Brasil, e que deve ficar pronto em 2006. O presidente da Nasa chega ao país nesta segunda-feira. Convidado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, será o astro principal do Congresso Internacional de Astronáutica, que será realizado nesta semana no Rio de Janeiro. Da sede da Nasa em Washington, Daniel S. Goldin concedeu esta entrevista a VEJA.

Veja – A chegada do homem à Lua, em 1969, foi a última missão da Nasa a causar impacto na opinião pública mundial. Por que nunca mais se fez algo tão espetacular?
Daniel S. Goldin – Não acho que tenhamos deixado de fazer coisas espetaculares. A Estação Espacial Internacional, atualmente em construção, é uma grande conquista espacial. No projeto Apollo, os Estados Unidos levaram o homem à Lua e o trouxeram de volta sozinhos. A estação espacial é um programa no qual dezesseis países trabalham juntos, alguns deles até recentemente inimigos. Quando tivermos o retorno das pesquisas científicas feitas na estação e seu impacto na Terra, o projeto será ainda mais significativo que o Apollo.

Veja – Por que a Nasa ainda não consegue enviar um homem a Marte ou estabelecer uma base permanente na Lua?
Goldin – Há vários problemas relacionados à saúde humana que precisam ser resolvidos antes que se possa enviar um astronauta a outros planetas. Os astronautas que forem a Marte ficarão fora por dois, três anos. A ausência de gravidade afeta todos os sistemas biológicos de uma maneira que ainda não entendemos. Os ossos dissolvem-se, os músculos atrofiam-se, o sistema imunológico fica mais vulnerável. Nada do que a medicina desenvolveu nos últimos 100 anos funciona nesses casos. É por isso, também, que não temos bases permanentes na Lua.

Veja – O custo não é um impedimento tão grande quanto o da saúde do astronauta?
Goldin – Um projeto da magnitude de uma viagem tripulada a Marte envolve questões técnicas, médicas e de custo. As técnicas são as de mais fácil solução, ainda que seria irresponsabilidade enviar alguém antes de solucionar os problemas médicos. O último item é bem sério. Essas viagens são muito, muito caras. O envio de astronautas à Lua consumiu 5% do Orçamento dos Estados Unidos. Durante a Guerra Fria, isso parecia um investimento essencial. Hoje, o orçamento da Nasa representa menos de 1% do Orçamento do país. Até descobrirmos como fazer a viagem de uma forma bem mais barata, não será possível mandar astronautas para planetas como Marte.

Veja – E quando isso deve acontecer?
Goldin – Acredito que em dez anos teremos resolvido os problemas de saúde e estaremos desenvolvendo técnicas para chegar ao planeta vermelho com menos dinheiro. E, se realmente existir água lá, teremos como realizar essa missão com um custo muito mais baixo. Dentro de vinte anos, acredito, o homem terá pisado em Marte.

Veja – Quando será possível fazer turismo no espaço?
Goldin – Creio que dentro de cinco a dez anos teremos companhias levando pessoas para o espaço por 50.000 dólares. Os turistas precisarão ser gente endinheirada, mas já não serão apenas os astronautas que terão esse privilégio. Em vinte anos, o homem irá para Marte comercialmente. E eu vou viver para ver isso.

Veja – Algum dia será possível colonizar os planetas do sistema solar?
Goldin – Claro que sim. No futuro, milhões de pessoas poderão ir ao espaço. Quando entrei no programa espacial, no início dos anos 60, já trabalhava para isso. Tivemos dificuldades econômicas, a Guerra Fria e simplesmente paramos de sonhar. Agora estamos começando a sonhar de novo. E é disso que precisamos para fazer as coisas acontecerem. A tecnologia disponível atualmente não nos permite viver no espaço, mas isso pode acontecer.

Veja – Mas não há sequer vestígio de outro planeta com as condições de vida da Terra. Para onde iríamos?
Goldin – Apenas acredito que há a possibilidade de vivermos em outros lugares. Precisamos primeiro encontrar esses lugares e depois saber como chegar lá. Veja que já fizemos muitas coisas que pareceriam sonhos há apenas algumas décadas. Temos espaçonaves na órbita de Marte, de Júpiter e de sua lua Europa a caminho de cometas e asteróides. A espécie humana é tão incrível que vamos descobrir como viver em outros lugares. Mas não acho que encontraremos um tão bom como este para viver.

Veja – Uma tese científica recente, de grande repercussão, diz que dificilmente encontraremos vida extraterrestre, pois as condições da Terra são únicas. O senhor concorda?
Goldin – Já disseram que o homem nunca construiria uma máquina de voar, que não haveria outras formas de comunicação, exceto o rádio, que já se havia inventado todas as coisas que precisavam ser inventadas. E tudo isso foi desmentido. Pessoalmente, como cientista, creio que há realmente muitas chances de existir vida fora da Terra.

Veja – Além do turismo espacial e do lançamento de satélites, o que podemos esperar dos programas espaciais?
Goldin – As grandes nações existem porque exploram o desconhecido sem conhecimento prévio dos benefícios que tirariam disso. Quando fomos à Lua, tivemos resultados impressionantes, como a criação do marcapasso e de uma série de equipamentos de monitoramento intensivo na área médica. Uma empresa americana acaba de desenvolver uma bomba para transplante do coração baseada em tecnologia usada no ônibus espacial e que salvará milhares de vidas. Em pouco tempo, seremos capazes de fazer previsões sobre o El Niño com seis meses de antecedência. Isso terá um impacto enorme na agricultura e nos transportes. Estamos trabalhando ainda com a indústria automotiva para instalar um software inteligente nos carros e garantir maior eficiência dos combustíveis.

Veja – Mas é com a instalação e o conserto em órbita de satélites de comunicação que a Nasa ganha dinheiro. O lucro não é importante em seu ramo de negócios?
Goldin – Os satélites comerciais da indústria de comunicação são apenas uma pequena parte de nosso trabalho. As pessoas vêem somente os resultados comerciais imediatos, mas é a tecnologia desenvolvida na Nasa que abre oportunidades inacreditáveis para a pesquisa. Mandamos robôs para o espaço para estudar a origem, a evolução e o destino do universo. Temos o Hubble, um dos observatórios ópticos mais bem-sucedidos da História, tivemos a sonda Pathfinder, que aterrissou em Marte, a Galileo, que está na órbita entre Júpiter e sua lua Europa, onde acreditamos existir um oceano. Agora desenvolvemos telescópios mil vezes maiores que o Hubble para detectar vida em outros planetas, caso ela exista.

Veja – O Congresso americano faz constantes cortes no orçamento da Nasa. O que o senhor planeja fazer para evitar uma crise por falta de dinheiro?
Goldin – O que o Congresso e o povo americano estão pedindo são melhores resultados. E temos conseguido isso gastando muito menos. Adotamos a filosofia do "mais rápido, melhor e mais barato", reduzimos o custo da construção das naves para um terço de seu valor e hoje temos três vezes mais projetos com um orçamento que tem sido cortado. Isso não é sinônimo de crise. Acho que a pressão do Congresso tem sido boa, não má.

Veja – Recentemente, quando fracassaram duas sondas enviadas a Marte, a imprensa americana questionou se isso não seria resultado da filosofia do "mais barato". A ênfase no corte de custos não está colocando os projetos em risco?
Goldin – Nós lançamos 150 vôos experimentais e perdemos dez. Isso representa apenas 500 milhões de dólares de um custo total de 18 bilhões de dólares, ou seja, 3%. Não conheço outra organização que tenha resultados tão bons. Não há como ter 100% de acertos, somos humanos. As falhas não decorrem do custo, mas dos riscos quando escolhemos objetivos difíceis. Não há outra maneira de fazer, pois, se estabelecemos objetivos medíocres, tudo o que teríamos seriam resultados medíocres. Novas falhas ocorrerão. E todos ficarão sabendo, porque fazemos tudo às claras. Nosso objetivo é mostrar às pessoas que nosso trabalho vai melhorar a vida delas.

Veja – Melhorar de que modo?
Goldin – Conhecendo o espaço, entendemos como os oceanos, a atmosfera, a massa terrestre e as geleiras interagem e podemos observar de que forma a força do homem afeta o clima. Quando nasci, a Terra tinha 2 bilhões de habitantes. Hoje, tem 6 bilhões. Se queremos oferecer oportunidades para as gerações futuras, precisamos entender o que o homem está fazendo ao meio ambiente. Para isso, temos acordos de cooperação com mais de cinqüenta países. Trabalhamos ainda em tecnologias que reduzirão os índices de acidentes na aviação e permitirão aos aeroportos operar com o triplo da capacidade atual. As pessoas poderão voar com segurança não apenas no espaço, mas também nos aviões. E, quando tivermos foguetes mais confiáveis, elas poderão viajar pelo universo. Isso não mais será um privilégio dos astronautas.

Veja – Uma de suas iniciativas à frente da Nasa foi terceirizar boa parte do trabalho, transferindo para o setor privado as operações do ônibus espacial, do controle de missões e dos satélites de comunicação. Isso também foi para poupar dinheiro?
Goldin – O objetivo é fazer tudo de maneira mais confiável e com mais segurança, o que acaba resultando em custos menores. O ônibus espacial é muito mais seguro hoje do que antes de o entregarmos para a United Space Alliance, que está fazendo um trabalho excelente.

Veja – Foi por causa do custo que os Estados Unidos aceitaram sócios na construção da Estação Espacial?
Goldin – Poderíamos construir sozinhos. Mas desde o início o governo dos Estados Unidos queria uma participação internacional na estação. Quando o projeto começou, em 1984, ela se chamava Estação Espacial Freedom e contava com vários países europeus, o Canadá e o Japão. No início dos anos 90, convidamos a Rússia e depois o Brasil. Desde o início, queríamos a participação de outros países.

Veja – A Nasa é sócia dos russos na construção da estação espacial. A rivalidade entre Estados Unidos e Rússia no espaço realmente terminou?
Goldin – A Guerra Fria acabou e, com ela, a corrida espacial. Naquela época, eu projetava armas para combater os soviéticos. Atualmente, Estados Unidos, Rússia, Europa, Japão, Canadá e Brasil estão trabalhando unidos para tentar melhorar a vida das pessoas neste planeta. Não apontamos mais mísseis nucleares uns para os outros. Em um mundo com economia e meio ambiente globais, é essencial aprendermos como trabalhar juntos. Acredito que a participação internacional seja um dos aspectos mais importantes do projeto de construir a estação espacial.

Veja – Por que o Brasil foi o único país em desenvolvimento convidado a participar desse projeto?
Goldin – Temos muitos projetos em conjunto com a Agência Espacial Brasileira. O governo brasileiro considerou que seria importante para o país participar dessa grande cooperação científica internacional. Já estive várias vezes no Brasil e sempre me senti encorajado pelo trabalho que os brasileiros desenvolvem. O Brasil é uma sociedade emergente no campo da alta tecnologia, tem um programa espacial importante e é um parceiro bastante confiável. Sabemos que tem dificuldades e problemas econômicos. Mas estão fazendo o que se comprometeram a fazer. É um trabalho árduo, de gente grande, e nós estamos impressionados com os resultados.

Veja – A Nasa também monitora o desmatamento da Amazônia. Muitos brasileiros temem que esse acesso aos dados comprometam nossa segurança nacional. O senhor sabe dessas preocupações?
Goldin – Os efeitos do desmatamento da Amazônia na ecologia, na biologia, na química, no clima afetam o mundo todo. Qualquer pessoa no planeta precisa saber disso. Mas a Amazônia pertence aos brasileiros e é o Brasil que está na liderança desses estudos. Nós respeitamos essa soberania.

Veja – Os ufólogos costumam dizer que a Nasa faz parte de uma conspiração tipo Arquivo X para esconder a presença de discos voadores na Terra. Isso faz sentido?
Goldin – Não existe nenhuma conspiração! Posso garantir que tenho acesso a todos os arquivos da Nasa e que não há registro algum de alienígenas na Terra. Temos todas as ferramentas para registrar esses acontecimentos. Se isso um dia acontecer, seremos os primeiros a saber.

 

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco