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De papo em papo, sem idéia

Ilustração Pepe Casals


Vagando pela internet, descobri que Fernanda Lima participaria de um bate-papo eletrônico. Em geral, ignoro os convidados desses bate-papos. Mas Fernanda Lima eu sei quem é. É apresentadora de TV. Uma gaúcha para lá de bonitinha. Em minha última viagem ao Brasil, acostumei-me a assistir ao seu programa, antes da soneca vespertina. Como eu nunca tinha acompanhado um bate-papo eletrônico, achei que seria uma boa oportunidade.

Fernanda Lima conectava-se diretamente do Castelo de Caras, na França. "Chiquérrimo", conforme ela disse. Naquele dia, tinha ido de trem a Paris para conhecer o mercado das pulgas. No dia seguinte, visitaria o Museu Picasso. Os internautas não ajudavam muito a conversa. Vários lhe escreveram manifestando "grande admiração por seu trabalho!!!!!" Assim mesmo, com quatro ou cinco pontos de exclamação. Um deles lhe pediu fotos autografadas. Outro lhe perguntou qual era seu maior sonho. Outro quis saber se ela já recebeu alguma proposta para posar nua. Fernanda Lima, singela, respondeu que "sair agora na Playboy seria precipitado. Estou galgando uma carreira bem legal". Ou seja, ela só vai posar nua quando sua carreira estiver menos legal.

Depois dessa primeira experiência, resolvi investigar um pouco melhor o fenômeno dos bate-papos eletrônicos. Fiquei a semana inteira pulando de sala em sala, na tentativa de trocar idéias com seus freqüentadores. Para o papeador, é fundamental encontrar um bom apelido. Há os que usam os próprios nomes, como Caroline ou Marcos; há os que gostariam de ser heróis de gibi, como Mistério ou Polako-K3; há, por fim, os melancólicos à beira do suicídio, como Solitária ou DI-vorciado43.

Em quase todos os portais, as salas de bate-papo são divididas por tema e faixa etária. Entrei numa sala dedicada a conversas sobre cinema. Esperei meia hora lá dentro, mas ninguém apareceu. Mudei então para uma sala de futebol, onde um garoto apelidado Camarões repetia insistentemente o mesmo bordão: "Ha ha ha ha". Todo mundo reclamava de Wanderley Luxemburgo. Intrometi-me na conversa sugerindo substituí-lo por um técnico estrangeiro, pois os nossos são muito ruins. Ninguém aprovou. Refugiei-me na sala de ficção científica. Encontrei um certo [Alguém]. De trinta em trinta segundos, [Alguém] implorava para Leica: "Vamos tc?" E Leica nunca respondia.

Eu não sabia o que era tc. Até que Marcelo, na sala Imagens Eróticas, informou-me que tc significa teclar. Por um instante, imaginei que os papeadores tivessem inventado um rico jargão feito de síncopes e abreviaturas. Nada disso. O jargão limita-se a kd (cadê), vc (você) e tb (também). O resto é puro e simples erro de português: infelismente, quiz, afim, faiz. Aliás, este é o aspecto mais paradoxal dos bate-papos: a molecada semi-analfabeta é obrigada a se comunicar através da forma que menos domina: a língua escrita. Por isso, só consegue articular xingamentos e obscenidades. A certa altura, tentei saber se algum deles conhecia Cervantes. Doido da Estrada respondeu: Conservantes? Depois acrescentou que eu, procurando falar de livros, parecia uma tia cansada. Tem razão. Cada vez mais cansada.

 

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